“Harry e Sally: o amor entre vírgulas”

 

Eu revi Harry e Sally: Feitos um para o outro outro dia. Já tinha assistido antes, claro — quem cresceu ouvindo sobre “comédias românticas inteligentes” foi, em algum momento, apresentado àquela conversa no carro, às caminhadas no outono, à famosa cena do orgasmo no restaurante. Mas, agora, vendo o filme mais velho, mais cético, talvez até mais sincero comigo mesmo, ele bateu diferente.

Porque Harry e Sally não é só sobre o amor. É sobre o tempo que ele leva para ser possível.

 

 Sobre não dar certo — até dar

O filme de Rob Reiner, escrito por Nora Ephron, parte de uma pergunta quase boba: “homens e mulheres podem ser apenas amigos?” — e a transforma em uma jornada de desencontros que duram mais de uma década. O que parecia ser só mais um tropeço romântico se torna um retrato sensível daquilo que raramente nos contam: que o amor, às vezes, não nasce do impacto, mas da paciência. E que o tempo — esse sujeito tão maltratado nas narrativas românticas apressadas — pode ser o verdadeiro protagonista.

Ver Harry e Sally amadurecerem, errarem com os outros, se aproximarem com cautela, recuarem por medo, ensaia um tipo de amor que não grita. Que hesita. E que, justamente por isso, parece mais honesto.

 

 Diálogo como desejo

O que mais me encanta nesse filme, talvez, seja o verbo. Os dois falam. E muito. Falam sobre neuroses, ex-namorados, comidas, sexo, expectativas, mágoas. Há algo profundamente erótico nessa construção do vínculo: o amor como escuta, o amor como conversa que dura anos.

Hoje, em tempos de relações rápidas, performativas, guiadas por aplicativos e silêncios confortáveis, há algo de quase revolucionário no modo como Harry e Sally constroem intimidade na palavra.

Afinal, o que é mais íntimo: despir o corpo ou despir a fala?

 

 O problema da idealização

Mas não me deixo enganar: o filme também carrega seus vícios. Ainda que menos açucarado que os romances de Hollywood de hoje, Harry e Sally termina no ponto seguro da narrativa reconfortante. Depois de anos de vaivém, eles se acertam. Declarações são feitas. O beijo vem. E aí, tudo se resolve.

Mas será?

Sei que há algo perigoso nessa ideia de que o amor verdadeiro “espera”, “supera”, “acontece no fim”. Quantos de nós ficamos presos em relações ruins, esperando que o outro mude, que a mágica aconteça, porque aprendemos com filmes assim que o tempo sempre conserta tudo?

Nem sempre conserta. Nem sempre vale a espera. Nem todo amor se realiza. E tudo bem.

 

 Reflexo do nosso medo da solidão

Rever Harry e Sally hoje também me fez pensar em como tememos a solidão. No fundo, o que os dois mais evitam não é o fracasso amoroso, mas a possibilidade de terminarem sozinhos. O amor, nesse filme, é também uma forma de evitar o vazio.

E quem sou eu para julgar? Também busco companhia. Também temo que a vida, sem alguém com quem dividir risos e silêncios, se torne uma sequência de cenas soltas. Mas talvez o desafio esteja justamente aí: construir um amor que não seja escudo, mas encontro. Que não sirva para preencher faltas, mas para acolher presenças.

 

 Conclusão: um romance sobre o tempo — e a coragem de esperar

Harry e Sally é, para mim, menos sobre romance e mais sobre ritmo. Um filme sobre o tempo interno que cada um de nós precisa para se tornar capaz de amar — e ser amado. Ele nos lembra que o afeto não obedece roteiros, que o desejo nem sempre chega na hora “certa”, que o amor pode nascer da amizade — e não do arrebatamento.

E isso é bonito.

Talvez, no fundo, todos nós sejamos um pouco Harrys e um pouco Sallys: tropeçando nas nossas neuroses, demorando para entender o que sentimos, tentando fingir indiferença quando estamos, na verdade, morrendo de vontade de dizer: “Fica.”

E, às vezes, a vida — como o filme — dá um jeito de fazer isso acontecer.
Nem cedo, nem tarde.
Na hora em que a gente finalmente se escuta.

 

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