"Israel, a ferida aberta do mundo: o erro histórico que insiste em doer"

 

Eu escrevo este texto com o coração pesado, atravessado por imagens que têm sido difíceis de suportar. Crianças soterradas em Gaza, bairros inteiros apagados por bombas, mães gritando o nome de filhos desaparecidos.
E ao fundo, o silêncio cúmplice de boa parte do mundo ocidental — ou pior, a justificativa técnica, diplomática, higienizada, para o massacre.

Fico me perguntando, com um nó na garganta: foi um erro a criação do Estado de Israel?
E a resposta que me atravessa não é simples, mas é honesta: não foi o nascimento de um Estado judeu que foi o erro — foi a forma como esse Estado foi criado, e o projeto colonial que o sustentou desde o início.

 

 Uma origem marcada por expulsão, não por coexistência

Em 1948, quando a ONU aprovou a partilha da Palestina, o mundo saía da sombra do Holocausto. A comunidade judaica merecia, sim, um lugar seguro. Mas esse lugar foi fundado à custa da expulsão de mais de 700 mil palestinos de suas terras, aldeias e memórias. A Nakba (“catástrofe”, em árabe) não é um acidente colateral — é a fundação do próprio Estado.

Desde então, o que se viu foi um processo contínuo de expansão territorial, apartheid institucionalizado, repressão sistemática, assassinatos seletivos, muros, checkpoints, bombardeios, enclaves cercados.
Israel não se contenta em existir: ele quer expandir-se sob a lógica de supremacia e controle.

 

 O que estamos assistindo hoje é genocídio

Não há como suavizar o que se vê em Gaza e na Cisjordânia. O que Israel está promovendo, com apoio logístico, diplomático e militar dos EUA e da Europa, é genocídio.
E não me refiro apenas às bombas, mas também à fome imposta, à destruição de hospitais, ao corte de água, à demonização de todo um povo como se fossem “animais humanos”, nas palavras repugnantes do primeiro-ministro Netanyahu.

Quem diz que é “defesa” ignora que o agressor é quem ocupa.
Quem diz que “ambos os lados cometem excessos” fecha os olhos para a assimetria brutal entre uma potência militar nuclear e uma população enclausurada.

 

 E o mundo? E o Brasil? E os BRICS?

Diante dessa realidade, o papel dos BRICS — especialmente do Brasil — é fundamental. Este bloco nasceu como alternativa à hegemonia ocidental, e precisa assumir uma posição corajosa, clara e ativa diante do que ocorre no Oriente Médio.

Se uma guerra generalizada explodir — como o atual governo de Israel parece provocar deliberadamente, mirando o Líbano, a Síria, o Irã — os reflexos serão globais:

  • O petróleo, que passa pelo Estreito de Ormuz, afetará as economias emergentes;
  • O fluxo migratório explodirá, com consequências humanitárias gravíssimas;
  • A radicalização religiosa e política aumentará, inclusive nos países periféricos;
  • E o risco de envolvimento militar direto entre grandes potências será real.

Os BRICS não podem ser espectadores. Precisam ser mediadores, denunciadores, articuladores de um novo modelo de diplomacia global, que rompa com a tutela do Conselho de Segurança da ONU — sempre paralisado pelo veto dos EUA quando se trata de Israel.

 

 Como conter a sanha destrutiva de Israel?

A resposta começa com nomear o que está acontecendo. Chamar apartheid de apartheid. Chamar limpeza étnica de limpeza étnica.
Em seguida, pressionar economicamente: sanções, embargos, corte de acordos comerciais e tecnológicos.
E fortalecer o povo palestino não com armas, mas com reconhecimento, reconstrução, solidariedade internacional, presença humanitária.

O projeto sionista radicalizado não se sustenta sem a blindagem moral que o mundo — por culpa ou por cálculo — ainda oferece. Essa blindagem precisa ruir.

 

 Conclusão: não é sobre ódio — é sobre justiça

Falar sobre Israel é difícil. Sempre há o risco de ser acusado de antissemitismo. Mas quem fala em nome dos palestinos não nega o sofrimento histórico do povo judeu. O que não aceitamos é que esse sofrimento justifique a reprodução de uma nova opressão.

A existência de um Estado judeu não deveria estar atrelada à aniquilação de outro povo.
Mas o projeto atual de Israel exige exatamente isso: um povo inteiro apagado, para que sua ideia de Estado possa expandir-se sem resistência.

Eu não aceito isso.
E me recuso a ficar em silêncio.

 

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