Liberdade de expressão não é licença para destruir
Nos
últimos anos, venho ouvindo com frequência uma frase que soa quase como um
mantra em certos círculos: “É meu direito à liberdade de expressão.”
Quase sempre essa frase aparece quando alguém — geralmente uma figura pública
da direita ou da extrema direita — é questionado por disseminar desinformação,
insultar minorias, defender golpes de Estado ou incitar violência nas redes
sociais.
E
confesso: essa apropriação da ideia de liberdade de expressão me incomoda. Me
fere, até. Porque tenho por ela um respeito profundo — não como licença para
dizer o que se quer impunemente, mas como um dos pilares mais delicados e
centrais da vida democrática.
Afinal, o
que é liberdade de expressão?
Liberdade
de expressão, para mim, é o direito de pensar, escrever, falar, criticar —
inclusive o poder — sem medo de censura ou repressão autoritária. É um
direito essencial para jornalistas, artistas, pesquisadores, movimentos
sociais, cidadãos. Foi ela que permitiu que lutássemos contra a ditadura. Que
se denunciassem injustiças. Que se afirmassem existências silenciadas.
Mas ela
não é, nunca foi, um direito absoluto. Nenhum direito humano o é.
Porque todos os direitos vivem em tensão com outros direitos igualmente
fundamentais: o direito à dignidade, à vida, à igualdade, à
não-discriminação.
Liberdade de
expressão não é liberdade de opressão
E é aqui
que a confusão — ou a má-fé — se instala.
Quando
alguém diz que quer “liberdade de expressão” para defender que mulheres devem
ganhar menos, que pessoas negras são menos capazes, que LGBTs são uma “ameaça
moral”, que indígenas atrapalham o “progresso”, ou que uma ditadura seria melhor
do que a democracia, isso não é expressão — é exclusão. É violência
travestida de opinião.
E uma
democracia saudável tem todo o direito — e o dever — de se defender disso.
Não é censura. É defesa constitucional.
O paradoxo
da tolerância
Penso
sempre em Karl Popper e seu famoso “paradoxo da tolerância”:
“Se não
estamos dispostos a defender uma sociedade tolerante contra os ataques dos
intolerantes, então os tolerantes serão destruídos, e a tolerância junto com
eles.”
Ou seja: uma
sociedade que tolera tudo — inclusive discursos que pregam sua destruição —
cava sua própria ruína. É por isso que ideias antidemocráticas não devem
ter espaço legítimo dentro de regimes democráticos. Porque liberdade não pode
ser a ponte para o autoritarismo.
E o que
fazer, então?
Isso não
significa que devamos punir toda e qualquer opinião divergente. Divergir é
necessário. Criticar governos, instituições, políticas públicas — tudo isso
está dentro do direito à livre expressão. O que não cabe é usar essa
liberdade como escudo para praticar racismo, homofobia, misoginia, xenofobia,
antissemitismo, ataques à ciência ou à Constituição.
E é aí
que entram a educação crítica, a regulação transparente das redes sociais, e
o fortalecimento das instituições democráticas. Não se trata de censura
prévia, mas de responsabilização posterior. Quem espalha mentiras e ódio não
pode ser tratado como mártir da liberdade — mas como alguém que responde por
seus atos.
Conclusão:
falar sim, agredir não
A
liberdade de expressão é, para mim, um dos bens mais preciosos da democracia.
Mas é também um dos mais frágeis — porque pode ser usado para corroer, por
dentro, tudo aquilo que permite sua existência.
Quem
realmente ama a liberdade de expressão a protege com responsabilidade, ética
e empatia.
Quem só a invoca para ferir, excluir e desinformar, não quer liberdade — quer impunidade.
E é
contra isso que, mais do que nunca, precisamos falar.
Com liberdade. E com coragem.
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