Masculinidades: o que passa na cabeça de um agressor? Quando também as mulheres agridem
Introdução: violência não nasce no vácuo
A
pergunta "o que passa na cabeça de um agressor?" é, ao mesmo tempo,
provocativa e necessária. Não para justificar a violência, mas para compreendê-la
em sua complexidade psíquica, social e histórica. O agressor não é um
monstro fora da sociedade — ele é, muitas vezes, um produto e um agente da
cultura em que vive, ainda que sua responsabilidade nunca deixe de existir.
Falar de
masculinidades e agressão é tocar nas estruturas mais profundas da
subjetividade moderna: o medo da vulnerabilidade, a cultura do controle, o
narcisismo ferido e a dificuldade de simbolizar a perda. Mas também é
preciso dizer: há mulheres que agridem. E, embora a violência de gênero
seja historicamente assimétrica, ignorar a presença feminina em atos de
violência é simplificar a equação do sofrimento e da agressão.
Masculinidades tóxicas: heranças e deformações
Desde
pequenos, muitos meninos são educados para não chorar, não demonstrar afeto,
não pedir ajuda. O afeto é reprimido, o corpo é endurecido, a linguagem
emocional é truncada. Essa construção de uma masculinidade rígida,
autocentrada e avessa à fragilidade é um campo fértil para a violência,
especialmente quando os sujeitos enfrentam frustrações, perdas ou ameaças ao
seu narcisismo.
O
agressor, muitas vezes, não consegue simbolizar a perda de controle ou o fim
de uma relação sem transformar isso em ódio, vingança ou dominação. Sua
identidade está tão atrelada ao poder e ao domínio que qualquer gesto de
autonomia da outra parte — geralmente a mulher — é percebido como castração,
humilhação, desvalorização.
Esse
sujeito pode agir por:
- Ciúme patológico, onde a mulher é vista como
posse;
- Necessidade de reafirmar
poder diante da insegurança interna;
- Repetição de padrões vividos
na infância,
como violência familiar ou negligência afetiva;
- Incapacidade de lidar com o
luto, a rejeição ou a autonomia do outro.
Do ponto
de vista psicanalítico, isso revela uma estrutura psíquica frágil, pouco
elaborada, que recorre à força para evitar o colapso interno.
Agressoras mulheres: a violência como linguagem de
poder
Falar de
mulheres agressoras é romper com um tabu. A sociedade construiu uma imagem
idealizada da mulher como naturalmente cuidadora, passiva, emocionalmente mais
evoluída. Isso invisibiliza mulheres que agridem — parceiros, filhos,
familiares ou outras mulheres.
As
motivações femininas para agressão podem ser variadas:
- Histórias pessoais de abuso
ou violência acumulada;
- Reprodução de padrões autoritários
herdados;
- Transtornos psíquicos não
tratados;
- Uso da agressão como forma
de compensar sentimentos de impotência, abandono ou humilhação.
A
agressão feminina, embora menos letal estatisticamente, não pode ser
minimizada, principalmente em relações familiares ou de cuidado. Mulheres
também podem ser controladoras, emocionalmente abusivas, fisicamente violentas
— e isso exige tanto escuta quanto responsabilização.
Violência como linguagem do indizível
Seja
homem ou mulher, o agressor muitas vezes não sabe falar do que sente — então
grita, bate, oprime. A violência aparece como solução precária para um
conflito interno mal elaborado. Por isso, muitas vezes, a violência não é
apenas física: é verbal, emocional, psicológica, simbólica.
A
sociedade atual, marcada por desigualdades, aceleração, precariedade das
relações e solidão, favorece o surgimento de sujeitos sem recursos
emocionais para elaborar frustrações. E onde não há simbolização, há
descarga.
Responsabilizar não é demonizar, é transformar
É
essencial responsabilizar o agressor — juridicamente, socialmente e
subjetivamente. Mas isso deve ser feito sem cair na ilusão de que
prender ou punir resolve, por si só, o ciclo da violência.
A
transformação real exige:
- Políticas públicas de
educação para relações saudáveis;
- Espaços de escuta,
acolhimento e tratamento terapêutico para agressores e vítimas;
- Enfrentamento da cultura do
machismo, do controle, da competitividade como modelo relacional;
- Criação de alternativas
emocionais e simbólicas à violência.
Conclusão: reeducar o desejo, reumanizar o afeto
O que
passa na cabeça de um agressor é, muitas vezes, confusão, dor, medo e
frustração não elaborados. Nada disso justifica o ato, mas entender esse
enredamento permite intervir antes que a violência aconteça — ou se repita.
Precisamos
de uma cultura que eduque o desejo, que desfaça os mitos da dominação, e que
ensine homens e mulheres a lidar com o outro sem fazer do afeto um campo de
guerra. Cultivar
empatia, escuta e simbolização não é tarefa fácil — mas é o único caminho
possível para quebrar o ciclo.
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