Naïssam Jalal no Jazz sous les Pommiers: A Flauta como Ponte entre Mundos
Não era
apenas música. Era um chamado. Um sopro que parecia vir do deserto e atravessar
séculos, carregando memórias, feridas, bênçãos. Assim me senti ao assistir à
apresentação de Naïssam Jalal, flautista franco-síria, no festival Jazz
sous les Pommiers, transmitido pelo ARTE Concert.
Em um
tempo em que o ruído domina e a escuta rareia, ela nos ofereceu silêncio
habitado, melodia curativa, e resistência suave. Um som que, mesmo em sua
suavidade, não se rende à indiferença do mundo.
Naïssam Jalal: música como oração, política como
gesto estético
Naïssam
Jalal não separa arte de vida. Sua flauta é o prolongamento de sua história: filha
da diáspora, mulher árabe na Europa, artista que recusa os limites de gênero,
fronteira ou estilo. Seu jazz não é ortodoxo. É errante, híbrido,
espiritual e engajado.
Durante a
apresentação, era como se cada nota sua falasse por um povo que ainda resiste.
Como se sua flauta soubesse das pedras, dos exílios, dos abraços interrompidos.
Ela não fala muito entre as músicas — mas quando fala, é firme, delicada e
política. Ela sabe o poder que há em dar voz ao sopro.
A improvisação como caminho de escuta interior
Ao lado
de músicos igualmente sensíveis — piano, contrabaixo, percussões sutis —, Jalal
constrói paisagens sonoras que parecem rezas laicas, desertos sonoros,
meditações em forma de jazz.
Ela toca
como quem tece. Há algo ritualístico em sua presença. Um gesto que evoca
tradições árabes, sufis, orientais, mas também elementos do jazz contemporâneo
europeu. Em certos momentos, sua flauta se cala, e ela apenas respira. E mesmo
o silêncio soa.
A
improvisação é sua linguagem — mas não uma improvisação exibicionista. É uma
escuta em estado puro. É como se cada músico dissesse ao outro: “estou aqui
contigo, mesmo no não dito”.
Feminilidade e mística: uma presença que desarma
Jalal carrega
uma força feminina que não grita, mas enraíza. Em um mundo que ainda
marginaliza vozes árabes e femininas, ela não se dobra ao estereótipo: oferece
uma musicalidade que reencanta o gesto de existir.
Não há
pressa em seu concerto. As canções se desenrolam com a lentidão das coisas
vivas. Uma dança com o tempo, com o vento, com a dor e com a esperança. É
música que não quer entreter, mas transformar.
ARTE Concert: a tela como templo sonoro
O
registro feito pelo ARTE Concert foi, mais uma vez, sensível. A câmera se
demorava no rosto de Jalal, em suas mãos, no pulsar dos olhos fechados. O
espectador, mesmo à distância, sentia-se convidado a desacelerar. A não
apenas assistir, mas respirar junto.
A
iluminação era minimalista. A paleta sonora — rica, densa, mas não opulenta.
Era o som de quem aprendeu a falar com as ausências, com os ancestrais, com os
invisíveis do mundo.
Epílogo: flauta que escuta, som que cura
Naïssam
Jalal não nos deu apenas um concerto. Ela nos deu um ritual de escuta, uma
travessia de dentro para fora e de volta. Sua flauta não busca
impressionar. Ela quer lembrar — quem somos, de onde viemos, e o quanto
esquecemos da beleza de simplesmente ouvir.
Ao fim,
entendi: ali, na quietude daquele palco francês, havia uma revolução
acontecendo. Não nas palavras de ordem. Mas no som que, contra o desespero,
insiste na ternura.
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