O fim do seguro contra acidente de trânsito: mais um retrocesso na proteção social
Introdução
No início
de 2024, o Governo Federal sancionou a lei que extingue o DPVAT,
histórico seguro obrigatório destinado a indenizar vítimas de acidentes de
trânsito em todo o território nacional. Criado em 1974, o DPVAT era uma das
poucas garantias imediatas às vítimas — motoristas, passageiros ou pedestres — independentemente
de culpa ou vínculo com o veículo.
A decisão
de acabar com esse seguro representa um retrocesso social grave,
sobretudo em um país como o Brasil, onde os acidentes de trânsito são uma das
principais causas de morte e invalidez. Este artigo propõe uma leitura crítica
da medida, analisando suas motivações, seus impactos sobre a população e o
desmonte silencioso de políticas públicas de amparo social.
1. O que era o DPVAT e por que ele era importante?
O DPVAT
(Seguro Obrigatório de Danos Pessoais Causados por Veículos Automotores)
tinha como objetivo garantir indenização rápida, gratuita e sem necessidade
de advogado ou processo judicial para vítimas de acidentes de trânsito, em
três modalidades:
- Morte: indenização aos
familiares;
- Invalidez permanente: pagamento proporcional ao
grau da lesão;
- Despesas médicas e
hospitalares.
Além
disso, parte dos recursos arrecadados com o DPVAT era destinada ao Sistema
Único de Saúde (SUS) e a programas de educação no trânsito.
Era,
portanto, muito mais do que um seguro individual — era um instrumento de
justiça social e financiamento da saúde pública.
2. As razões alegadas e os interesses ocultos
O governo
alegou que o fundo do DPVAT estava mal gerido, com “acúmulo de recursos”
e “fraudes”. Embora problemas de gestão realmente tenham ocorrido em anos
anteriores, já haviam sido tomadas medidas de controle, como a extinção do
consórcio privado que o administrava (Lider) e a gestão temporária pela
Caixa Econômica Federal.
Na
prática, o fim do DPVAT atende a uma agenda liberal de desmonte do Estado,
sob o discurso de “eficiência” e “desregulamentação”.
Por trás da medida, há interesses de:
- Empresas privadas de seguros, que passam a ocupar o
vazio deixado pelo DPVAT oferecendo seguros pagos, excludentes e
seletivos;
- Governos que buscam cortar
gastos sociais,
mesmo em áreas sensíveis como saúde e mobilidade;
- Uma visão de Estado mínimo
que trata direitos sociais como entraves fiscais.
3. Quem perde com o fim do seguro obrigatório?
🔴 As vítimas mais pobres
O DPVAT
era um instrumento de acesso universal: beneficiava tanto motoristas
quanto pedestres, mesmo sem registro formal. Com o fim do seguro, as pessoas
de baixa renda ficam completamente desprotegidas em caso de acidente.
🔴 O SUS
Cerca de 45%
da arrecadação do DPVAT era repassada ao SUS, ajudando a custear o
atendimento às vítimas. Sem essa fonte, os hospitais públicos perdem milhões
por ano, agravando ainda mais a crise do financiamento da saúde pública.
🔴 A coletividade
O DPVAT
representava solidariedade coletiva frente ao risco compartilhado do
trânsito. Ao substituí-lo por seguros privados opcionais, o que se instala
é uma lógica mercantil: quem pode paga, quem não pode morre desamparado.
4. Alternativas negadas: era possível reformar sem destruir
Ao invés
de extinguir o seguro, o governo poderia ter optado por:
- Reestruturar a gestão do
fundo com mais transparência e controle público;
- Ampliar a fiscalização para
coibir fraudes;
- Atualizar os valores de
indenização e modernizar os canais de atendimento;
- Manter o caráter solidário e
universal do seguro, como política pública.
O que se
fez, no entanto, foi jogar fora o instrumento por conta dos erros de seus
operadores, e não por falha de seu princípio.
5. O trânsito como território de desigualdade
O Brasil
registra cerca de 40 mil mortes por ano no trânsito e mais de 200 mil
pessoas com sequelas permanentes.
Grande parte dessas vítimas são jovens negros, motociclistas, trabalhadores
de aplicativo, ciclistas e pedestres pobres, que circulam em áreas sem
infraestrutura adequada.
O fim do
DPVAT é um reflexo da indiferença do Estado diante dessa realidade.
Ao retirar o amparo financeiro mínimo, o Estado lava as mãos diante da dor
alheia e reforça o abismo social que separa quem pode pagar por proteção
e quem morre invisível.
Conclusão: o desmonte silencioso dos direitos
sociais
O fim do
seguro obrigatório contra acidentes de trânsito não é um fato isolado — é parte
de uma lógica mais ampla de desmonte do pacto civilizatório expresso na Constituição
de 1988.
É mais um
passo rumo à desresponsabilização do Estado, à mercantilização da dor e
à naturalização da exclusão.
Diante
disso, é urgente que a sociedade civil, movimentos populares, defensores
públicos, parlamentares comprometidos com os direitos sociais e instituições de
justiça reajam e pressionem por um novo modelo público, transparente e
universal de seguro social para acidentes de trânsito.
A vida
não pode ser tratada como custo.
Proteção social não é privilégio — é direito.
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