“O mal não mora longe: ele nos habita” Resenha crítica do livro O mal que nos habita, de Gwen Adshead e Eileen Horne
Ler O
mal que nos habita foi, para mim, um daqueles encontros incômodos e
absolutamente necessários. Comecei o livro com curiosidade clínica e terminei
com uma espécie de vertigem ética. Gwen Adshead, psiquiatra forense, junto com
a escritora Eileen Horne, nos leva para dentro de um território onde poucos
ousam entrar: a mente de pessoas que cometeram atos considerados
"imperdoáveis" — assassinatos, torturas, crimes brutais. E, no
entanto, o que mais me surpreendeu foi o fato de não encontrar monstros —
mas pessoas.
Essa é,
talvez, a mais perturbadora e valiosa contribuição do livro: a recusa a
desumanizar. E, nesse gesto, ela não desculpa, mas complexifica. Não
relativiza o sofrimento das vítimas, mas nos obriga a encarar a construção
lenta, traumática e social daquilo que chamamos de "mal".
Encarar o abismo com olhos humanos
Cada
capítulo do livro se estrutura como uma espécie de sessão ampliada: Adshead
conta casos de pacientes atendidos em unidades psiquiátricas de segurança
máxima no Reino Unido, e nos convida a pensar — com rigor clínico, mas também
com escuta afetiva — sobre como a dor, a negligência, o abuso, a psicose e o
abandono forjam subjetividades que, em determinado momento, explodem em
violência.
O mais
angustiante é perceber como muitos dos crimes relatados poderiam ter sido
evitados se houvesse escuta, cuidado, presença — em casa, na escola, no
sistema de saúde. O “mal” que nos habita, então, é menos uma entidade
metafísica e mais um sintoma radical de uma sociedade que adoece e abandona.
Escrever sem
julgar: a ética da escuta
O que
mais me tocou na leitura é o tom da narrativa. Adshead escreve como quem
caminha entre estilhaços — com firmeza, mas também com compaixão. Ela não
romantiza. Não há glamour nos relatos. Há vergonha, culpa, negação, sofrimento,
fragmentação. Mas há também tentativas de entender, de responsabilizar sem
condenar ao apagamento.
E isso me
fez pensar muito: quantas vezes, mesmo fora da clínica, nós escolhemos
rotular em vez de escutar? Quantas vezes o discurso da segurança pública
serve para nos livrar do trabalho emocional de olhar para o outro como alguém
que, como nós, nasceu humano — mas se perdeu?
O mal e o
nosso desejo de punição
Ler este
livro também me confrontou com algo íntimo: o desejo de punição. Ao entrar nas
histórias, uma parte de mim gritava por justiça, por sentença, por cadeia. Mas,
aos poucos, fui me perguntando: o que é justiça quando a mente já é uma
prisão? O que é punição quando o crime nasce de um deserto afetivo desde a
infância?
Não saí
da leitura mais indulgente, mas mais lúcido sobre a complexidade da
violência. E também sobre as falhas do sistema penal que ignora o
sofrimento psíquico e opera apenas com exclusão.
Conclusão: a
coragem de escutar o imperdoável
O mal que
nos habita é um
livro difícil. Não no estilo — que é acessível, bem escrito, quase literário —
mas no impacto emocional. Ele exige de nós coragem para escutar aquilo que
preferiríamos silenciar. Ele nos obriga a aceitar que, sim, há algo do
outro em nós — mesmo no outro que cometeu o irreparável.
E se isso
não for uma provocação psicanalítica no mais radical dos sentidos, não sei o que
seria.
Saí do
livro com mais perguntas do que respostas.
E talvez esse seja o melhor elogio que eu possa fazer a uma obra: ela me
inquietou.
E a inquietação, no mundo que deseja tanto a certeza, é uma forma profunda de
transformação.
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