“O que há entre o sim e o não: lendo Abraham A. Moles”
Nunca
gostei muito da ideia de que a ciência é, por natureza, um território da precisão.
Talvez porque a vida — esta que a gente vive no entrechoque do cotidiano — seja
tudo, menos precisa. Foi por isso que mergulhei em As ciências do impreciso,
de Abraham Moles, com um misto de curiosidade e desconfiança. Queria saber como
alguém poderia sustentar, com legitimidade, que o saber também pode habitar o
vago, o difuso, o subjetivo — e não apenas o que pode ser medido, tabelado e
replicado.
O que
encontrei foi mais que um livro. Foi uma espécie de manifesto — um chamado a
pensarmos o mundo não a partir de suas certezas, mas de suas zonas de
incerteza.
A lógica do
vago
Moles
propõe, com ousadia e rigor, que existe um campo vasto de conhecimento onde a
lógica clássica não dá conta de operar.
Onde o binarismo do “verdadeiro” e “falso” não explica, por exemplo, o gosto, a
estética, a comunicação, os afetos, a arte, o ruído, a ambiguidade.
Para
isso, ele mobiliza uma série de saberes: a cibernética, a teoria da
informação, a psicologia ambiental, a semiologia, a sociologia da cultura.
E vai traçando, com agilidade, os contornos de uma ciência que não pretende
controlar tudo — mas compreender melhor aquilo que escapa à régua dos laboratórios.
E,
ironicamente, isso exige um tipo de precisão: a da imprecisão bem pensada.
Uma
epistemologia da nuance
Ao longo
da leitura, fui sendo desafiado a abandonar certas dicotomias mentais. Por
exemplo:
- O exato vs. o subjetivo
- O científico vs. o sensível
- O claro vs. o nebuloso
Moles
mostra que essa separação é artificial. Que nossos processos cognitivos
operam constantemente no regime do “mais ou menos”, do “quase”, do “depende”
— e que isso não nos torna menos racionais. Apenas humanos.
Ele nos
lembra que os sistemas culturais e simbólicos não podem ser reduzidos à
matemática pura. Mas também não são caos puro. Eles têm formas, padrões,
tendências — que podem ser estudados com outros métodos, outras sensibilidades,
outras linguagens.
Ruído, gosto
e estética da comunicação
Talvez
uma das partes mais brilhantes do livro seja a discussão sobre ruído e
comunicação. Moles vê o ruído não como um obstáculo, mas como um
elemento constitutivo do sentido.
O ruído reorganiza, tensiona, inventa.
Assim como o gosto — esse campo impalpável onde nossos julgamentos estéticos e
afetivos acontecem.
Nisso,
Moles antecipa debates que só ganharam corpo décadas depois — como os da estética
relacional, da semiótica do consumo, das interfaces digitais, da complexidade
sistêmica.
Crítica e
encantamento
Claro que
o livro tem seus excessos. Às vezes, a escrita de Moles flerta com o tecnicismo
excessivo — o jargão cibernético pode cansar. E há momentos em que a ideia de
"imprecisão" parece tão abrangente que corre o risco de
dissolver-se no tudo-pode-ser.
Mas ainda
assim, o que fica é o gesto radical: o de legitimar outras formas de saber.
E isso, no mundo atual — marcado por uma tecnocracia arrogante e um
negacionismo cínico — é um gesto de resistência.
Conclusão:
pensar sem algemas
Terminei As
ciências do impreciso com a cabeça inquieta.
Moles não me ofereceu uma nova teoria do tudo — mas um mapa para navegar melhor
aquilo que não cabe em mapas.
Ele me ensinou que pensar com rigor não é pensar com rigidez.
E que a inteligência mais potente pode ser aquela que dança com a dúvida.
No fim,
percebi que talvez o saber não esteja só nas respostas corretas.
Mas na coragem de formular perguntas que ainda não têm precisão.
E isso,
para mim, é profundamente libertador.
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