O Relógio de Vidro

 

Na rua onde eu morava, entre a padaria do seu Maneco e a casa da dona Lídia, havia uma loja que ninguém percebia.
Não porque estivesse escondida, mas porque parecia só aparecer quando era preciso.

Um dia, voltando da aula, vi a vitrine.
Não era a primeira vez que passava ali, mas era a primeira vez que ela estava acesa.
No centro, havia um único objeto exposto: um relógio feito inteiramente de vidro — ponteiros de cristal, engrenagens translúcidas, um leve brilho interno, como se ele respirasse.
Acima da porta, uma placa enferrujada dizia apenas: "TEMPO, SOB MEDIDA".

Entrei.

Lá dentro, uma senhora muito magra, com olhos do tamanho do susto e cabelo azul como lembrança de céu, me olhou como se já soubesse meu nome.

— Vim ver o relógio de vidro — disse, sem entender por que aquelas palavras me escaparam da boca.

Ela sorriu, com uma expressão que era entre compaixão e aviso.

— Ele não marca as horas — disse. — Ele marca o quanto você tem.

— De vida?

 

 

— De tudo.

Ela colocou o relógio em minhas mãos.
Era leve como sono bom.

— Se você girar o ponteiro três vezes, ele recomeça um momento que você já viveu.
— E se girar no sentido contrário? — perguntei.

— Você esquece.
— E se eu quebrar?

Ela me olhou nos olhos, como quem olha o abismo por obrigação.

— Se quebrar, você sairá do tempo. E o tempo sairá de você.

Sorri, achando tudo um jogo teatral. Agradeci, deixei o relógio na vitrine e fui embora.
Mas, à noite, não consegui dormir.
Pensava em tudo o que eu queria esquecer.
Pensava em tudo o que eu queria viver de novo.

Na manhã seguinte, voltei.
A loja não estava mais lá.

Nem a vitrine, nem a placa, nem a senhora de olhos enormes.
No lugar, uma parede cega, coberta por um cartaz rasgado de feira livre.

Pensei em contar pra alguém. Desisti.

Hoje, muitos anos depois, o tempo me pesa como pedra.
E às vezes, quando as ruas se calam, ainda ouço um tique-taque feito de vidro.

E me pergunto:
e se eu tivesse quebrado o relógio?

 

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