O silêncio dos homens é cúmplice: sobre o estupro em Fortaleza e a falência da justiça

 

Hoje escrevo como homem. E escrevo com vergonha.

Em Fortaleza, uma mulher foi estuprada por um homem que usou sua força — treinada em artes marciais — para deixá-la inconsciente. Ele a reduziu ao silêncio com um golpe no pescoço que poderia tê-la matado. Estuprou. Foi condenado a uma pena branda. E agora está solto. Solto. Como se tivesse cometido um deslize qualquer.

Não conheço essa mulher. Mas sei do que ela deve estar sentindo. Sei que ela não vai esquecer. Sei que, mesmo tentando seguir em frente, foi deixada sozinha — primeiro por seu agressor, depois pela Justiça.

E o que me dói — o que me revolta — é saber que isso não é exceção. É sistema. É um sistema que trata o corpo da mulher como descartável. Que julga com benevolência quem agride. E que se cala quando é um homem forte, branco, esportista, quem comete a violência.

 

 Quando a impunidade vira mensagem

Este homem, esse agressor, foi condenado. Mas não de verdade. Porque uma pena ridícula, seguida de liberdade precoce, é o mesmo que dizer: “pode fazer de novo.”

Não dá mais para fingir que a Justiça brasileira protege as mulheres. Ela não protege. Ela atrasa denúncias, descredibiliza vítimas, revitimiza depoimentos, minimiza traumas. Ela pergunta “o que você estava vestindo?” enquanto dá liberdade ao estuprador. Ela permite que um homem treinado para o combate use o próprio corpo como arma — e saia praticamente impune.

 

 E nós, homens, onde estamos nesse cenário?

Diante disso tudo, me pergunto — e quero que outros homens também se perguntem: o que estamos fazendo?
Porque o silêncio dos homens é parte do problema. Cada piada machista que deixamos passar. Cada amigo abusivo que protegemos. Cada vez que nos calamos diante da violência porque “não é com a gente”. É com a gente, sim.

Somos nós os que mais matam, mais estupram, mais humilham.
Somos nós os que se calam para manter o conforto da impunidade.
Somos nós que precisamos romper com isso. Urgentemente.

 

 Leis frágeis, julgamentos enviesados, vidas destruídas

Esse caso em Fortaleza não é sobre “exagero feminista”. É sobre a falência de um sistema que ainda protege o agressor em nome da masculinidade, do prestígio e da força física.

É urgente rever nossa legislação penal. A pena aplicada a esse criminoso não condiz com a gravidade do ato. E, mais ainda, é preciso:

  • Aplicar perspectiva de gênero nos julgamentos;
  • Criar formações antimisóginas para juízes, delegados, promotores;
  • Garantir que a vítima seja acolhida, não interrogada como suspeita;
  • E que o agressor seja punido de forma proporcional, com responsabilização real.

 

 Educar para prevenir: o que fazer a longo prazo

Se quisermos de fato combater a cultura do estupro, precisamos ir além do caso concreto. Precisamos transformar a base.

  • Começa nas escolas: educação para o respeito, para o consentimento, para a igualdade.
  • Continua nos lares: homens criando filhos com sensibilidade, e não com imposição de poder.
  • Passa pelas empresas, pelos esportes, pelas igrejas: não há espaço neutro quando a violência é estrutural.

Precisamos parar de formar meninos para dominar — e começar a formar homens para coexistir, cuidar e escutar.

 

 Conclusão: não é sobre elas apenas. É sobre todos nós.

Eu não fui estuprado. Mas poderia ter sido meu parente. Minha amiga. Minha filha. E, mesmo que não fosse, não preciso dessa ligação direta para me indignar.

Este artigo é um chamado. A mim mesmo, primeiro. E aos outros homens.

Se você é homem e leu até aqui, não desvie. Pergunte-se: como você contribui — ou pode ajudar a desconstruir — essa violência?
Porque o que aconteceu em Fortaleza não é só sobre um criminoso. É sobre um sistema que permite. E sobre nós que permitimos que o sistema se mantenha.

Chega.
É hora de se responsabilizar.
É hora de estar ao lado das mulheres — não apenas por elas, mas por uma sociedade que não pode mais tolerar essa brutalidade.

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O elétron é a Matrix da realidade? Uma pergunta entre a física, o mito e o desejo de sentido

Saudade que Amanhece

A viagem proibida: quando o corpo feminino se torna território vigiado