Quando Israel ataca o Irã, ataca também o BRICS — e o Brasil precisa reagir
Escrevo
este artigo movido por um sentimento de
urgência histórica e de responsabilidade política. O ataque de Israel ao Irã
não é apenas um episódio isolado de um conflito regional, nem tampouco pode ser
tratado como uma ação pontual de defesa, como costuma ser narrado pela grande
mídia ocidental. É, acima de tudo, um ataque geopolítico aos interesses da
multipolaridade global, aos acordos de cooperação internacional que se
consolidam fora do eixo hegemonizado por Estados Unidos e União Europeia. É, de
forma clara, um ataque ao BRICS — bloco do qual o Irã agora faz parte, junto
com Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul e outros países em ascensão.
O Irã tem
sido um parceiro estratégico da China dentro do projeto da Nova Rota da Seda
(Belt and Road Initiative), um esforço chinês de construção de infraestrutura e
integração econômica em escala global, baseado em cooperação e investimentos e
não em ocupações militares. A presença do Irã nesse eixo representa mais do que
interesses energéticos — ela simboliza a possibilidade concreta de um mundo
menos dependente do dólar, do FMI, da OTAN e das narrativas unilaterais do
Ocidente.
Por isso,
quando Israel ataca o Irã, está atacando, na prática, os acordos estratégicos
de longo prazo entre China e Irã — e, por extensão, atinge diretamente os
BRICS. Nós, enquanto brasileiros, não podemos fingir que isso não nos diz
respeito. O Brasil faz parte do BRICS. Somos parte de um projeto de soberania
compartilhada, de justiça econômica e de novas formas de governança global.
Permanecer em silêncio diante das ações expansionistas, militaristas e cada vez
mais beligerantes do governo de extrema-direita israelense é aceitar o papel de
subalternos.
A necessidade de romper com Israel
O Brasil
precisa romper relações diplomáticas e comerciais com o Estado de Israel, não
por revanchismo, mas por coerência histórica e ética. Um país que perpetua o
apartheid, promove genocídio contra o povo palestino, desestabiliza o Oriente
Médio e agride parceiros estratégicos do BRICS não pode ser tratado como
aliado. A neutralidade, neste contexto, é uma forma de cumplicidade.
Romper
relações seria, ainda, um gesto de solidariedade ativa com o povo palestino e
um sinal de respeito aos marcos da legalidade internacional. Seria, também, uma
forma de proteger nossos próprios interesses geopolíticos a longo prazo. Não
podemos nos iludir: a guerra de Israel não é apenas contra seus vizinhos, é uma
guerra ideológica, econômica e geoestratégica para impedir o avanço de qualquer
projeto multipolar.
As empresas israelenses no Brasil e no Ceará
No
Brasil, há uma série de empresas com capital israelense ou controladas por
acionistas ligados ao Estado de Israel que mantêm contratos com o poder público
— inclusive nos estados e municípios. É fundamental que os governos federal,
estaduais e municipais façam um levantamento rigoroso desses contratos e
iniciem um processo de desinvestimento.
No caso
do Governo do Estado do Ceará, vale destacar algumas empresas com
atuação direta ou indireta:
- Elbit Systems: gigante do setor de defesa
israelense, com presença no Brasil por meio da AEL Sistemas. A empresa já
participou de licitações e contratos para equipamentos militares e de
vigilância. Seu envolvimento em tecnologias usadas para reprimir o povo
palestino é extensivamente documentado.
- Netafim: empresa israelense do
setor de irrigação que atua em diversos estados brasileiros, inclusive com
projetos agrícolas no Nordeste. Embora a tecnologia seja de ponta, não se
pode dissociá-la do financiamento ao Estado israelense.
- AGT International (ligada a ex-membros da
inteligência israelense): atua com soluções de segurança e cidades
inteligentes. Já buscou contratos com governos estaduais e municípios.
- Check Point Software: fornecedora de
cibersegurança que atua no Brasil. Embora não se saiba se tem contratos
diretos com o Governo do Ceará, tem acordos com grandes empresas
brasileiras e potencial penetração na administração pública.
- Strauss Group: conglomerado alimentício
com presença indireta no mercado brasileiro por meio de parcerias
comerciais. Sua receita financia ações do governo israelense, segundo
denúncias de organizações internacionais.
Essas e
outras empresas fazem parte do sistema econômico de sustentação das políticas
do Estado de Israel. O dinheiro que vai para elas — inclusive por meio de
licitações públicas — retorna, em parte, para financiar a ocupação e o massacre
de populações árabes e muçulmanas. O boicote não é apenas um gesto simbólico,
mas uma política concreta de responsabilidade global.
Por um Brasil ético, soberano e internacionalista
Nosso
país precisa tomar posição. O momento histórico não permite mais hesitações. A
política externa do Brasil não pode ser pautada por covardias diplomáticas nem
por conveniências econômicas de curto prazo. O massacre em Gaza, os ataques ao
Irã, a destruição da ordem internacional baseada no multilateralismo exigem de
nós uma escolha clara: ou estamos com os povos que lutam por autodeterminação,
ou estamos com os senhores da guerra.
Romper
com Israel, rever contratos com empresas vinculadas ao apartheid e alinhar-se
com os princípios do BRICS não é apenas uma questão de ideologia — é uma
questão de futuro, de soberania e de justiça. Abaixo coloco algumas empresas
que os Governos brasileiros deveriam rever suas parcerias.
Empresas israelenses ou de capital israelense com
atuação no Brasil — e suas ligações com o poder público
1. Café Santa Clara (Grupo 3corações)
Embora a
marca Café Santa Clara seja originalmente nordestina, ela faz parte do Grupo
3corações, que é uma joint venture entre o Grupo São Miguel (Brasil)
e a Strauss Coffee (Israel), uma das maiores empresas alimentícias de
Israel. A Strauss Coffee é conhecida internacionalmente por financiar
diretamente o exército israelense (IDF), especialmente unidades envolvidas
em operações nos territórios ocupados da Palestina.
A empresa
atua fortemente em toda a região Nordeste, incluindo o Ceará, e mantém
contratos e incentivos com governos estaduais e municipais. Boicotes a Strauss
e seus produtos já são organizados por grupos internacionais como a campanha
BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções), justamente por essa relação direta
com o financiamento da ocupação israelense.
Produtos
do Grupo 3corações sob influência israelense:
- Santa Clara
- 3corações
- Pimpinela
- Itamaraty
- Letícia
- Dona Clara
2. Miya Water (atualmente parte da Hutchison Water)
A Miya
Water, empresa israelense de engenharia e gestão de sistemas de
abastecimento de água, tem atuação direta no Ceará, em projetos com a
CAGECE. A empresa foi contratada para prestar consultoria e serviços de
redução de perdas de água em Fortaleza e outras cidades cearenses.
O
contrato da Miya com a Cagece previa um plano de investimentos para melhoria da
eficiência hídrica em zonas urbanas, com valores superiores a R$ 100 milhões.
A empresa foi vendida em 2019 para o grupo Hutchison Water, mas mantém
raízes no ecossistema empresarial israelense, com tecnologias e modelos de
operação desenvolvidos em Israel.
A
tecnologia, embora eficiente, carrega implicações políticas: trata-se de uma
empresa que fornece soluções para o setor hídrico israelense, muitas
vezes envolvidas em práticas de monopolização da água nos territórios
ocupados.
3. Elbit Systems / AEL Sistemas
Como já
mencionado, a Elbit Systems é a maior empresa privada de defesa de
Israel. Ela controla a AEL Sistemas, com sede no Brasil (Rio Grande do
Sul), e participa de diversos contratos com o Ministério da Defesa, polícias
estaduais e até de projetos de vigilância urbana.
As
tecnologias da Elbit — drones, sistemas de monitoramento, armamentos — são testadas
em operações militares contra civis palestinos, sendo depois vendidas como
“tecnologia comprovada em campo”.
4. Netafim
Líder
mundial em irrigação por gotejamento, a Netafim tem presença consolidada
no Brasil, incluindo projetos com o Ministério da Agricultura e secretarias
estaduais do Nordeste. Seu papel é central no agronegócio irrigado,
especialmente em áreas de uso intensivo de água como o semiárido nordestino.
A Netafim
foi acusada por ONGs palestinas de atuar em colônias ilegais em território
palestino, onde fornece tecnologia e infraestrutura que sustenta o
apartheid hídrico.
5. Check Point Software Technologies
Atua no
Brasil com soluções de cibersegurança e é parceira de diversas instituições
públicas e privadas, incluindo setores de segurança pública. Sua atuação se
dá especialmente por meio de distribuidores brasileiros, o que dificulta a
rastreabilidade direta de contratos, mas sua presença em compras governamentais
de segurança cibernética é notória.
6. AGT International
Empresa
de tecnologia de segurança e vigilância com ligações ao serviço secreto
israelense, já tentou entrar em contratos com prefeituras brasileiras em
áreas de “cidade inteligente” e monitoramento urbano. Tem parcerias com
universidades e institutos de pesquisa em tecnologia.
Conclusão reforçada
A
presença de empresas israelenses ou com participação israelense na economia
brasileira, inclusive com contratos em áreas estratégicas como água, defesa,
segurança e alimentação, evidencia uma rede de financiamento indireto à
política de ocupação e agressão praticada por Israel. É preciso que o governo
brasileiro e os governos estaduais, como o do Ceará, façam um levantamento
transparente dessas relações e implementem políticas de desinvestimento
ético, à semelhança do que foi feito no passado contra o regime do
apartheid na África do Sul.
Romper
com Israel no campo diplomático e comercial é também romper com essa teia de
cumplicidades — silenciosas, técnicas, mas profundamente políticas.
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