Resenha crítica do livro A Nova Era do Império, de Kehinde Andrews
Título original:
The New
Age of Empire: How Racism and Colonialism Still Rule the World
Autor: Kehinde Andrews
Editora brasileira: Companhia das Letras (2023)
Ano da publicação original: 2021
Páginas: 336
Panorama da
obra
Kehinde
Andrews, professor de estudos africanos e autor de obras contundentes sobre
racismo estrutural e anticolonialismo, propõe neste livro um argumento
incisivo: o mundo ocidental ainda é governado pelas lógicas imperiais do
colonialismo e da supremacia branca, mesmo após a chamada “descolonização
formal” do século XX.
Segundo
Andrews, as instituições globais — da ONU ao Banco Mundial, das
universidades aos meios de comunicação — foram fundadas e continuam operando
sob premissas coloniais. A nova era do império é, assim, mais sofisticada,
simbólica e normalizada — mas tão violenta e excludente quanto no passado.
Tese central
A
principal tese do autor é que não vivemos no “pós-colonial”, mas em um
“neocolonialismo sistêmico”. O que mudou foi a forma, não a essência:
“A
verdadeira função do sistema global é manter o domínio das nações brancas do
Norte sobre o resto do mundo.” — Kehinde Andrews
Ele
argumenta que o capitalismo global é racializado por natureza, e que a
“ajuda humanitária”, os empréstimos do FMI, o “desenvolvimento sustentável” e
até a noção liberal de “democracia” são extensões do projeto imperialista,
que explora, silencia e subjuga os povos do Sul Global.
Pontos
fortes
Descolonização radical do pensamento:
Andrews desafia o leitor a reconhecer a continuidade do império, não
apenas como fato histórico, mas como estrutura viva nas práticas do presente
— especialmente nos campos da economia, da cultura, da política e da ciência.
Crítica às instituições globais:
O livro desnuda o papel da ONU, FMI, Banco Mundial, OMS e grandes ONGs como aparatos
coloniais contemporâneos, cujas políticas e decisões frequentemente
reproduzem desigualdades raciais e geopolíticas.
Coragem crítica:
Andrews não poupa ninguém: intelectuais progressistas brancos, setores
da esquerda eurocêntrica, liberais bem-intencionados e até setores
reformistas do movimento negro são confrontados por sua adesão (ainda que
involuntária) a estruturas que mantêm o império em pé.
Resgate da tradição radical negra:
Ao invés de adotar os marcos do pensamento ocidental, o autor recupera figuras
como Frantz Fanon, Malcolm X, Walter Rodney e Angela Davis para propor
uma epistemologia insurgente, anticolonial e negra.
Limites e
críticas
Estilo assertivo e confrontador:
Para leitores acostumados com textos mais acadêmicos ou neutros, o tom do autor
pode parecer agressivo ou excessivamente combativo. Mas esse tom é
coerente com seu objetivo: não convencer o sistema, mas desmascará-lo.
Pouco espaço para alternativas concretas:
Embora critique de forma poderosa as instituições do presente, o livro oferece menos
espaço para imaginar modelos alternativos ou estratégias políticas para
superação estrutural. A crítica é contundente, mas o horizonte construtivo é
esboçado de forma mais fragmentada.
Generalizações que exigem cuidado:
Em alguns momentos, o autor trata o "Ocidente" ou o "Norte
Global" como blocos monolíticos, o que pode apagar contradições
internas, alianças solidárias e resistências insurgentes dentro desses
territórios.
Diálogo com
outros autores
- Frantz Fanon: Andrews dialoga
diretamente com Fanon ao afirmar que a violência colonial não terminou,
apenas mudou de forma. Assim como Fanon, ele vê a psicologia, a política e
a economia como campos atravessados pela raça e pelo império.
- Achille Mbembe: compartilha da crítica à
"necropolítica", ou seja, a gestão da morte como forma de
controle político — prática presente em conflitos, fome induzida e
desigualdades globais.
- Silvia Federici / Angela
Davis:
sua crítica também se expande à exploração racial e de gênero, incluindo a
invisibilização do trabalho reprodutivo das mulheres negras e o
encarceramento em massa.
Conclusão:
um livro urgente e necessário
A Nova
Era do Império é um
manifesto para romper com a ilusão de neutralidade e progresso do mundo
globalizado. É uma denúncia potente contra o colonialismo que ainda governa
as finanças, as fronteiras, as universidades e as mentes.
Ao fim da
leitura, o incômodo é inevitável — mas ele é necessário. Andrews nos obriga a enfrentar
as raízes estruturais do racismo global e a repensar profundamente as
ideias de “civilização”, “ajuda”, “desenvolvimento” e “universalidade”.
É um
livro indispensável para quem deseja descolonizar não apenas a política
internacional, mas o pensamento.
Sugestões de
leitura complementar
- Frantz Fanon – Os condenados da terra
- Angela Davis – A liberdade é uma luta
constante
- Achille Mbembe – Crítica da razão negra
- Walter Rodney – Como a Europa
subdesenvolveu a África
- Boaventura de Sousa Santos – Epistemologias do Sul
- Grada Kilomba – Memórias da plantação
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