Resenha crítica – Feitiço da Lua (Moonstruck, 1987)

 

Amor, caos e a poética do imprevisível

No universo caótico e apaixonante das comédias românticas, poucas obras alcançam o equilíbrio entre humor, afeto, melancolia e absurdo como o filme Feitiço da Lua, dirigido por Norman Jewison e laureado com três Oscars, incluindo o de Melhor Atriz para Cher e Melhor Atriz Coadjuvante para Olympia Dukakis.

Lançado em 1987, o filme permanece atual por sua capacidade de narrar o amor como encrenca humana e destino inevitável, sempre sob a regência da irracionalidade e da lua cheia.

 

Enredo: o amor como desordem necessária

Loretta Castorini (Cher), uma viúva pragmática e controladora que vive no Brooklyn com sua excêntrica família ítalo-americana, aceita se casar com o entediante e certinho Johnny Cammareri (Danny Aiello).
Mas quando Johnny viaja à Sicília para visitar sua mãe doente, ele pede a Loretta que procure seu irmão afastado — o temperamental padeiro Ronny Cammareri (Nicolas Cage).
O que se segue é uma explosão de desejo, conflito, culpa e redescoberta do amor.

O filme gira em torno de uma ideia central: o amor não é racional, nem seguro — é feitiço, vertigem, desvio.
E é justamente isso que liberta Loretta de sua vida meticulosamente planejada.

 

Cher e o brilho da contradição

A atuação de Cher, que lhe rendeu o Oscar, é um dos pontos altos da obra.
Ela encarna Loretta com uma naturalidade cômica e emocional que nos faz torcer por ela mesmo quando suas escolhas desafiam a lógica.
Loretta é uma mulher comum, mas seu reencontro com o desejo a transforma numa heroína moderna — forte, romântica e vulnerável sem deixar de ser irônica e pé no chão.

 

Nicolas Cage: fúria e poesia

Já Nicolas Cage, em um de seus papéis mais carismáticos e teatrais, entrega um Ronny quase operístico, com explosões emocionais e declarações de amor que beiram o melodrama.
Ele representa o oposto de Johnny: é instável, mas intensamente vivo.
E é justamente essa vitalidade que quebra o “feitiço” do conformismo na vida de Loretta.

 

Família, lua cheia e tradições em crise

O roteiro, de John Patrick Shanley, costura não só uma história de amor, mas um retrato profundo e bem-humorado das tensões familiares e culturais.
A família Castorini, com sua mistura de conservadorismo, superstição, paixão reprimida e conselhos cruzados, é um microcosmo das famílias imigrantes italianas em Nova York — e, ao mesmo tempo, de qualquer família que precise lidar com mudança, envelhecimento e o desejo alheio.

A lua, claro, é personagem silenciosa. Está sempre presente, iluminando a noite, mexendo com os humores, desestabilizando certezas.
Ela representa o lado inconsciente do amor, aquilo que não se controla nem se explica.

 

Direção e estética

Norman Jewison conduz o filme com uma mão firme, mas sensível ao tempo cômico e emocional dos personagens.
A fotografia é quente, doméstica, quase teatral, e a trilha sonora mistura ópera com canções italianas, criando um tom ao mesmo tempo grandioso e íntimo.

 

Conclusão: um feitiço que ainda encanta

Feitiço da Lua é uma comédia romântica com alma de tragédia shakespeariana.
Fala sobre o medo de amar, os pactos de conveniência e a libertação que só o desejo autêntico pode trazer.

Mais do que um romance entre duas figuras opostas, o filme celebra o poder do amor como força que bagunça, mas também acorda.
E nos lembra que, sob a luz da lua, ninguém está totalmente imune aos mistérios do coração.

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