Resenha crítica: A razão neoliberal, de Verónica Gago

 

A economia como território de disputa

Em A razão neoliberal, a argentina Verónica Gago oferece um diagnóstico agudo e radical do neoliberalismo, mas a partir de um lugar pouco comum nos debates econômicos convencionais: a vida cotidiana nas periferias urbanas, os mercados populares, as redes de cuidados e o trabalho feminizado. A autora propõe uma inversão: olhar o neoliberalismo não apenas como um sistema macroeconômico, mas como uma racionalidade difusa, capilar, que atua sobre os corpos, os afetos e a organização da vida.

A razão neoliberal, segundo Gago, não está restrita às elites ou ao aparato estatal, mas se infiltra em práticas populares, nos modos de viver, empreender, endividar-se, circular e resistir. E é exatamente nesse paradoxo que reside a potência crítica de sua obra.

 

Neoliberalismo como racionalidade e prática encarnada

Inspirada por Michel Foucault, Silvia Federici e o feminismo decolonial, Gago propõe entender o neoliberalismo não apenas como um regime econômico, mas como uma tecnologia de subjetivação, um modo de formar condutas e organizar o mundo social. Nesse sentido, ela se distancia da leitura tradicional que vê o neoliberalismo apenas como “Estado mínimo” ou “mercado desregulado”. Ao contrário:

“O neoliberalismo não é ausência de Estado, mas seu rearranjo para fazer da vida uma empresa.”
— Verónica Gago

No cotidiano das periferias latino-americanas, o neoliberalismo se manifesta em formas ambíguas e pragmáticas: na mulher que empreende no mercado informal, na jovem que se endivida para financiar sua autonomia, nas redes de apoio que sustentam famílias sem direitos sociais garantidos. É nesse campo ambíguo — entre submissão e resistência — que Gago localiza o espaço de disputa.

 

Economias populares e barroquismo latino-americano

Um dos conceitos centrais do livro é o de economia barroca, que serve para pensar as lógicas não lineares, contraditórias e híbridas que marcam o fazer econômico popular. Gago mostra como as economias populares não são “alternativas” ou “resíduos do passado”, mas espaços ativos de articulação e enfrentamento ao modelo neoliberal, mesmo que por vezes operem com sua própria lógica.

É nesse terreno das práticas cotidianas, dos saberes encarnados, das táticas de sobrevivência e das redes femininas de cuidado e afeto que Gago enxerga o campo de emergência de uma nova política popular, centrada na materialidade da vida e não nos discursos abstratos do capital.

 

A financeirização como dispositivo de captura

Outro ponto crucial da análise de Gago é a crítica à financeirização da vida, especialmente no contexto latino-americano. Ela descreve como o crédito, os aplicativos, o microempreendedorismo e os bancos digitais se inserem nos territórios populares não como imposição externa, mas como promessa de mobilidade, autonomia e inclusão — ainda que essas promessas sejam armadilhas.

A dívida, nesse sentido, aparece como forma de governo, mas também como campo de luta. Endividar-se, no mundo neoliberal, não é apenas um ato financeiro, mas um modo de produzir subjetividade, compromisso, culpa e desejo.

 

Feminismo como horizonte de ruptura

Gago insere sua crítica num horizonte explícito: o feminismo popular e latino-americano como forma de antagonismo ao neoliberalismo. Sua escrita se articula à força das greves feministas transnacionais, especialmente à experiência argentina do movimento Ni Una Menos, do qual é parte ativa.

Ao invés de pensar o feminismo como uma pauta identitária ou “setorial”, Gago o projeta como uma teoria geral da reprodução da vida. Um feminismo que não apenas denuncia a violência patriarcal, mas reivindica outra economia, outra política e outro modo de existir.

 

Contribuições e limites

Contribuições:

  • O livro é inovador ao colocar as economias populares no centro da análise crítica do neoliberalismo, evitando o eurocentrismo e o elitismo acadêmico.
  • Gago escreve com base em experiências empíricas concretas, escutando as práticas dos mercados populares, das favelas, dos corpos femininos e dissidentes.
  • Aponta um feminismo materialista, situado e insurgente, com forte potencial político.

Limites:

  • A linguagem densa, por vezes conceitual e filosófica, pode dificultar o acesso de leitores fora do ambiente universitário;
  • A noção de “pragmáticas populares” corre o risco de naturalizar ambiguidades que exigem análise mais crítica (por exemplo, relações com o tráfico, o clientelismo ou a exploração interna nesses espaços).

 

Conclusão: um convite à desobediência crítica

A razão neoliberal é um livro profundamente necessário. Ele não oferece fórmulas nem soluções fáceis. Mas nos oferece algo talvez mais valioso: uma forma de pensar a partir das margens, de nomear o conflito onde o discurso hegemônico insiste em ver apenas empreendedorismo e superação.

Ao desmontar os mitos do neoliberalismo e apontar as potências invisíveis nas brechas da vida popular, Verónica Gago nos convoca a romper com a normalização da exploração e a reconstruir a política com base nas práticas que resistem todos os dias, silenciosamente, nos bairros, nas feiras, nas redes de cuidado e nos corpos femininos.

É, sem dúvida, um livro para quem deseja compreender — e transformar — o presente.

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