Roberto Cláudio e a política do oportunismo: da ciência ao conchavo com a extrema direita

 

Introdução

Em um momento de rearranjos políticos no Ceará, Roberto Cláudio, ex-prefeito de Fortaleza e ex-membro do PDT, ressurge como pré-candidato ao Governo do Estado, agora em diálogo com setores da extrema direita — os mesmos que o atacaram violentamente durante a pandemia de COVID-19 por implementar medidas sanitárias em defesa da vida.
Esse giro político, aparentemente pragmático, revela mais do que uma mera mudança partidária: expõe a falta de coerência ideológica, o esvaziamento de princípios e a adesão ao jogo de poder pelo poder, mesmo ao custo de alianças com setores que flertam com o autoritarismo e negam conquistas democráticas.

 

1. Da ciência à demagogia: memórias da pandemia

Durante seu segundo mandato como prefeito de Fortaleza (2016–2020), Roberto Cláudio ganhou visibilidade nacional por defender medidas sanitárias baseadas em evidências científicas. Fez parte de um grupo de gestores que, mesmo diante da pressão política e do caos instaurado pela ausência de coordenação federal, adotou lockdowns, ampliou leitos hospitalares, distribuiu máscaras e buscou garantir vacinação.

À época, foi atacado duramente por bolsonaristas, negacionistas e representantes da extrema direita local, que o acusavam de “tirania”, “autoritarismo sanitário” e “ameaça às liberdades individuais”.

Hoje, em nome de uma “frente ampla contra o PT” ou de uma suposta renovação no cenário político estadual, Roberto Cláudio se junta justamente a esses grupos, buscando apoio entre lideranças que se posicionaram contra as vacinas, negaram a gravidade da pandemia e apostaram no caos como estratégia de poder.

 

2. Ruptura com o campo progressista: ambição ou ressentimento?

A saída de Roberto Cláudio do PDT e o rompimento com os Ferreira Gomes não se deu apenas por divergências programáticas — foi, em grande medida, uma reação pessoal à sua derrota como pré-candidato ao governo em 2022, quando Izolda Cela foi preterida pelo partido, mas o cenário político lhe impôs limites.

Sua atual movimentação política revela ressentimento político travestido de projeto, e uma disposição perigosa de abrir mão de princípios para se manter relevante eleitoralmente. Ao buscar aliança com setores que desprezam a democracia participativa, negam os direitos humanos e atuam contra os direitos sociais, Roberto Cláudio revela uma adesão ao cinismo político que mina qualquer credibilidade construída no passado.

 

3. A normalização da extrema direita no Ceará

Ao se aproximar da extrema direita, Roberto Cláudio ajuda a legitimar um campo político que atuou ativamente contra o Estado Democrático de Direito.
É um movimento que reforça o que se vê em escala nacional: a normalização de um discurso que:

  • Ataca o STF e as instituições democráticas;
  • Promove o armamentismo e a intolerância religiosa;
  • Defende a militarização da política e o retrocesso em pautas de gênero, raça e direitos sociais.

Ao construir uma frente com esses setores, Roberto Cláudio não apenas silencia sobre seus excessos — os torna aceitáveis. E isso, em política, não é neutralidade: é conivência.

 

4. O que está em disputa no Ceará

O Ceará tem uma longa trajetória de iniciativas progressistas, políticas públicas reconhecidas nacionalmente, avanços na educação básica e valorização da saúde pública.
O que está em jogo nas eleições de 2026 não é apenas quem governará o estado, mas que projeto de sociedade será colocado em curso.

Roberto Cláudio tenta se apresentar como uma “alternativa de centro”, mas sua aproximação com a extrema direita mostra que não há centro possível quando se normaliza o autoritarismo.
Não se pode alegar moderação ao lado de quem ataca os direitos humanos.
Não se pode defender a ciência ao lado de quem propaga negacionismo.
Não se pode falar em progresso ao lado de quem defende o retrocesso.

 

Conclusão: política sem coerência não é projeto — é conveniência

Roberto Cláudio é o exemplo mais recente de uma prática política que abre mão de coerência ideológica em troca de capital eleitoral.
Seu percurso, da defesa da ciência ao flerte com a extrema direita, não pode ser naturalizado. É preciso exigir compromisso com princípios democráticos, com a memória da tragédia sanitária que vivemos e com a responsabilidade de quem já governou e aspira governar novamente.

Ao invés de se somar à resistência democrática, Roberto Cláudio opta por fragilizá-la, alimentando o mesmo monstro que outrora o perseguiu.

A história — e o povo cearense — saberão julgar essa escolha.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O elétron é a Matrix da realidade? Uma pergunta entre a física, o mito e o desejo de sentido

Saudade que Amanhece

A viagem proibida: quando o corpo feminino se torna território vigiado