Rogê no Jazz sous les Pommiers: a alma do Brasil pulsando entre grooves e girassóis

 

Nem só de solos virtuosos vive o jazz. Às vezes, ele precisa de sol. De ginga. De mar. De samba com dendê e sorriso no canto da boca. Foi assim que Rogê entrou no palco do festival Jazz sous les Pommiers 2025 — trazendo, de forma generosa e magnética, um Brasil que dança, mas que também resiste. A apresentação, transmitida pelo canal ARTE Concert, foi mais do que um show: foi um abraço musical entre continentes.

 

Rogê: o groove como filosofia do mundo

Rogê tem aquela aura que poucos artistas conseguem manter em cena: uma mistura de humildade solar e segurança rítmica, como quem sabe que a música vem de longe, das rodas de violão, dos quintais de Madureira, dos poros abertos da cidade. Mas agora ele é também do mundo — e isso transparece no seu som cosmopolita, que transita com leveza entre samba-funk, soul, música afro-brasileira e jazz instrumental.

Com seu violão suingado, ele nos lembra que tocar é um gesto ancestral. Seu corpo inteiro pulsa. Ele não apenas canta: ele convoca uma memória coletiva do Brasil profundo, mas reinventada — com o pé na Califórnia, a alma no Rio e o ouvido aberto para o mundo.

 

O palco como extensão do terreiro

Acompanhado por uma banda afiada, formada por músicos que compreendem a dinâmica do groove como linguagem sagrada, Rogê ofereceu um repertório que não se dobra a modismos, mas reencanta a tradição com frescor e liberdade.

Houve samba, sim, mas com alma jazzística. Houve partido-alto, mas com camadas harmônicas que se encontram com o soul e a percussão afro-latina. Houve festa, mas também reza. E tudo isso sem deixar de ser autêntico, visceral, verdadeiro.

Entre uma canção e outra, Rogê sorria. Agradecia. Conversava com o público francês como quem convida para sentar à mesa e dividir um pão com café.

 

Rogê, o Brasil que não se entrega ao cinismo

No palco, Rogê canta o Brasil que ainda cultiva afeto, natureza, beleza, ancestralidade — mesmo em meio ao concreto e à desigualdade. Ele canta para lembrar que a música pode ser cura, festa, denúncia e celebração. Sua voz tem sal, tem chão, tem fé.

As músicas de seu mais recente álbum, Curyman (indicado ao Grammy), ecoaram como pontes sonoras entre o morro e o mundo. “Pra Vida”, “Sábado e Domingo”, “Existe uma Voz” — canções que se equilibram entre lirismo e crítica social, entre amor e utopia.

 

ARTE Concert: o som do Brasil reverberando na Normandia

A plateia em Coutances, mesmo sem entender cada palavra, dançava com o corpo e com o espírito. A música de Rogê ultrapassa idiomas: ela pulsa na pele. A transmissão do ARTE Concert captou com sensibilidade esse cruzamento de afetos — closes generosos no violão suingado, nas palmas do público, nos gestos espontâneos de alegria e conexão.

 

Epílogo: um Brasil que canta como quem semeia

Quando Rogê encerrou sua apresentação, senti que havia algo de esperança ali. Não uma esperança ingênua, mas a esperança das raízes que não se entregam ao asfalto.

Seu som é o som do Brasil que resiste — com beleza, ritmo, ancestralidade e poesia. Um Brasil que, mesmo ferido, ainda dança de olhos fechados, sorrindo entre girassóis e tambores.

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