Saxofones em combustão e eletricidade viva: Donny McCaslin & Ishkero no Jazz sous les Pommiers 2025
Às vezes
o jazz não vem de mansinho. Às vezes ele explode. Rasga o ar como um raio,
acelera os batimentos como se o coração fosse um tambor em palco. Foi assim que
me senti ao assistir à apresentação de Donny McCaslin e da banda francesa
Ishkero, no Jazz sous les Pommiers 2025.
A
transmissão do ARTE Concert foi generosa: imagens nítidas, ângulos imersivos e
som pulsante. Mas nada, nem mesmo a alta definição, era capaz de conter o que
se passava ali: um encontro entre o futuro do jazz e sua raiz
elétrica, entre improvisação visceral e composição arquitetônica,
entre duas margens atlânticas que se escutam e se provocam.
Donny McCaslin: o sax como máquina de propulsão
Donny
McCaslin é mais do que um saxofonista virtuoso. Ele é um arquiteto do caos
harmônico. Ganhou notoriedade ao colaborar com David Bowie em Blackstar,
mas ali no palco francês, ao lado da banda Ishkero, mostrou que sua música
segue um princípio próprio: o da inquietação.
Seus
solos são fendas de energia. Há groove, há grito, há sopro que parece
atravessar paisagens urbanas distópicas. Donny não quer apenas emocionar — ele
quer deslocar. Seu saxofone ora canta, ora ruge, ora interroga o silêncio
como quem exige respostas.
Ishkero: a juventude francesa que reinventa o jazz
Do outro
lado do palco, a banda Ishkero — quinteto formado por músicos da nova
cena francesa — demonstrou por que vem sendo celebrada como uma das formações
mais ousadas do jazz europeu atual. Seu som mistura jazz fusion, rock
progressivo, funk e música eletrônica com uma liberdade que beira o
vertiginoso.
O diálogo
com McCaslin não foi submisso. Foi simétrico. A bateria dialogava com
ferocidade e fluidez. Os teclados criavam paisagens sintéticas que se
misturavam a timbres analógicos, quase psicodélicos. O baixo, preciso,
sustentava toda a viagem com o peso e a elasticidade de um groove bem
resolvido.
O
resultado foi um improviso coletivo com o rigor de uma arquitetura moderna e
o descontrole de um vulcão em atividade.
Mais que um concerto: uma colisão de mundos
A beleza
do encontro entre McCaslin e Ishkero está justamente na tensão produtiva:
um veterano norte-americano, forjado na cena jazzística mais exigente do mundo,
encontra um grupo jovem, inquieto, europeu, disposto a testar os limites da
forma.
Em alguns
momentos, o som era tão intenso que parecia nos expulsar do sofá. Em outros, o
sax de Donny recuava, dando lugar a grooves mais espaciais, ambientações quase
cinematográficas. Era como se o palco fosse uma plataforma de decolagem,
e cada música, um voo não programado.
ARTE Concert: quando o digital amplifica o vivo
Mais uma
vez, a cobertura do ARTE Concert nos entregou mais do que um show: nos
permitiu sentir a temperatura da performance. Os closes nos rostos suados,
nos dedos inquietos, nos olhares trocados entre os músicos — tudo isso compôs a
dramaturgia de uma apresentação intensa, quase ritualística.
A energia
ali não era só musical: era corporal, coletiva, visual. Era também
política — no sentido de afirmar que o jazz, longe de estar em museus, está
mais vivo do que nunca, híbrido, vibrante, plural.
Epílogo: o jazz como linguagem em combustão
O
concerto terminou, mas a vibração permaneceu. Fiquei pensando em como o jazz
é, talvez, a arte mais propícia para encontros impossíveis: entre o erudito
e o popular, o improvisado e o estruturado, o presente e o que ainda está por
vir.
Donny
McCaslin & Ishkero não tocaram apenas jazz. Tocaram uma promessa de
futuro, uma energia indomável, um som que não quer ser domado — apenas
vivido.
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