Educar quando todos disputam a mente

 

Ainda acredito que a educação seja um caminho de transformação. Mas já não posso defendê-la com a ingenuidade de quem imagina a escola como o único lugar onde crianças, jovens e adultos aprendem a interpretar o mundo. Hoje, professores, orientadores, psicólogos, assistentes sociais, bibliotecários e demais trabalhadores da educação disputam a formação das consciências com igrejas, influenciadores, plataformas digitais, empresas de tecnologia, grupos políticos, publicidade e sistemas algorítmicos que conhecem intimamente os hábitos dos usuários.

A escola não perdeu sua importância. Perdeu o monopólio, que, na verdade, talvez nunca tenha possuído, sobre a produção e a circulação do conhecimento. A diferença é que os concorrentes atuais chegam ao estudante pelo celular, acompanham-no durante quase todo o dia e falam numa linguagem rápida, emocional e personalizada. Enquanto um professor procura desenvolver um argumento durante uma aula, o TikTok oferece dezenas de vídeos em poucos minutos. Enquanto a escola pede concentração, o Instagram recompensa a interrupção. Enquanto o conhecimento exige paciência, as plataformas prometem satisfação imediata.

A pergunta, portanto, não deveria ser apenas se a educação ainda transforma, mas quais condições ela precisa possuir para continuar transformando.

A mente tornou-se um território econômico

Não estamos diante de uma disputa equilibrada. Um professor entra em sala com formação, experiência, livros e um projeto pedagógico. Do outro lado, as plataformas dispõem de grandes estruturas tecnológicas, dados pessoais e algoritmos desenvolvidos para manter a atenção do usuário pelo maior tempo possível.

A escola solicita atenção; as plataformas a capturam. A diferença é fundamental.

O TikTok, o Instagram e outros ambientes digitais não são apenas meios neutros pelos quais conteúdos circulam. São empresas que lucram com permanência, interação, publicidade e coleta de dados. Quanto mais uma mensagem provoca medo, indignação, desejo ou identificação imediata, maiores podem ser suas possibilidades de circulação.

Isso cria uma desvantagem para o pensamento complexo. Uma explicação histórica exige contexto. Uma análise científica precisa apresentar evidências. Uma reflexão filosófica demanda tempo. Uma notícia falsa, ao contrário, pode oferecer culpados, certezas e soluções em poucos segundos.

Não atribuo aos jovens uma suposta incapacidade de concentração como se fosse defeito de uma geração. A fragmentação da atenção é produzida por ambientes construídos deliberadamente para interromper, estimular e recompensar. Adultos também passam horas deslizando o dedo por telas, procurando uma novidade que nunca satisfaz completamente.

Transformar esse problema coletivo em falha moral do estudante seria injusto. A escola precisa ensinar autocontrole, mas a sociedade também deve regular os mecanismos econômicos que exploram nossas vulnerabilidades psicológicas.

O professor deixou de ser a única autoridade

Durante muito tempo, a autoridade do professor esteve ligada ao acesso desigual à informação. Ele possuía livros, formação e conhecimentos aos quais muitos estudantes não tinham acesso. A internet alterou essa relação. Hoje, uma informação pode ser encontrada em segundos.

Isso não torna o professor desnecessário. Ao contrário, torna sua função ainda mais sofisticada. Quando falta informação, precisamos de alguém que a transmita. Quando existe informação demais, precisamos de alguém que nos ajude a selecionar, contextualizar, verificar e interpretar.

O professor não deveria competir com o Google na memorização de dados. Sua tarefa é ensinar a formular perguntas, reconhecer fontes confiáveis, identificar manipulações e relacionar conhecimentos aparentemente separados. Ele não é apenas transmissor de conteúdo: é mediador de uma experiência intelectual e humana.

Mas não posso romantizar essa missão enquanto professores recebem salários insuficientes, enfrentam turmas numerosas, estruturas precárias, adoecimento emocional e pressões administrativas. A sociedade exige que eles enfrentem desinformação, violência, problemas familiares, intolerância religiosa e sofrimento psíquico, mas frequentemente não lhes oferece equipe, formação, tempo ou reconhecimento.

Um professor sozinho não pode resolver as contradições de uma sociedade inteira.

Por isso, prefiro falar em comunidade educativa. A transformação depende do trabalho conjunto entre professores, gestores, profissionais da assistência estudantil, psicólogos, assistentes sociais, bibliotecários, famílias e organizações do território. Cada profissional percebe dimensões diferentes da vida do estudante.

A escola também precisa ser criticada

Defender a educação não significa idealizar a instituição escolar. A escola pode libertar, mas também pode disciplinar, excluir e reproduzir desigualdades. Pode estimular perguntas ou exigir obediência. Pode reconhecer saberes populares ou tratá-los como inferiores. Pode combater o racismo ou repeti-lo em seu currículo, em suas expectativas e em suas práticas.

Paulo Freire ensinou que a educação nunca é inteiramente neutra. Ela pode contribuir para que os sujeitos leiam criticamente o mundo ou apenas treiná-los para adaptar-se a ele. Quando o estudante é tratado como recipiente vazio, a escola não forma autonomia; forma dependência diante da autoridade.

Essa educação vertical entra em crise no ambiente digital. O jovem que participa de redes, produz vídeos, comenta acontecimentos e circula por diferentes comunidades dificilmente aceitará permanecer horas em silêncio apenas copiando conteúdos. Isso não significa que toda metodologia tradicional deva ser descartada. Leitura, exposição, repetição e disciplina continuam importantes. O problema aparece quando são transformadas nas únicas formas possíveis de aprender.

A escola precisa reconhecer que o estudante já chega carregado de informações, crenças, medos, desejos e referências culturais. O trabalho pedagógico não começa no vazio. Começa no encontro, às vezes conflituoso, entre diferentes interpretações da realidade.

Igrejas: entre comunidade e controle

A influência das igrejas merece uma análise cuidadosa. Seria injusto tratá-las como um bloco homogêneo ou como inimigas naturais da educação. Muitas comunidades religiosas oferecem acolhimento, alimento, sociabilidade e sentido de pertencimento em territórios abandonados pelo poder público. Houve e há cristãos comprometidos com alfabetização, direitos humanos, democracia, justiça social e defesa dos pobres.

No Brasil, a educação popular também possui vínculos históricos com setores progressistas das igrejas, especialmente com comunidades de base e movimentos inspirados na Teologia da Libertação. Não posso esquecer esse legado.

O problema não é a fé. É a utilização da fé como instrumento de controle político, enriquecimento, intolerância ou guerra cultural. Quando uma liderança religiosa orienta seus seguidores a rejeitar a ciência, odiar minorias, obedecer a candidatos ou interpretar toda diferença como ameaça espiritual, deixa de oferecer apenas uma crença e passa a disputar autoritariamente a cidadania.

A escola pública não deve combater religiões nem impor o ateísmo. Deve proteger a liberdade religiosa, inclusive o direito de não professar fé alguma. Sua função é criar um espaço comum no qual estudantes de diferentes crenças possam aprender juntos sem que um grupo imponha sua doutrina aos demais.

Há uma distinção indispensável entre estudar as religiões e catequizar. Conhecer o cristianismo, as tradições afro-brasileiras, o islamismo, o judaísmo, o budismo, as espiritualidades indígenas e outras visões amplia a compreensão histórica e cultural. Converter a sala de aula em espaço de proselitismo viola sua natureza democrática.

Também me preocupa quando igrejas ocupam lacunas deixadas pelo Estado. Se uma comunidade oferece o único espaço de acolhimento, cultura e apoio material de um bairro, sua influência não decorre apenas da força da fé, mas da ausência de políticas públicas. A resposta não é expulsar a religião do território. É garantir escola integral, cultura, esporte, assistência social, saúde e oportunidades para que ninguém dependa de uma única instituição para existir socialmente.

A força emocional da extrema direita

A educação democrática enfrenta outro desafio: movimentos autoritários compreenderam que as pessoas não são mobilizadas apenas por argumentos. Elas são movidas por medo, ressentimento, esperança, identidade e desejo de pertencimento.

A extrema direita oferece narrativas emocionalmente simples. Há sempre um passado supostamente harmonioso que precisa ser restaurado, uma ameaça interna a ser combatida e um líder forte capaz de proteger a população. Professores, universidades, artistas, feministas, pessoas LGBTQIA+, movimentos negros e religiões de matriz africana podem ser transformados em inimigos.

A escola, por sua vez, muitas vezes responde com uma lista de informações corretas. As informações são necessárias, mas não bastam. Uma mentira que oferece identidade e pertencimento não é vencida somente por uma estatística.

Educar exige trabalhar também com afetos. O estudante precisa sentir que a escola o reconhece, que sua vida possui valor e que o conhecimento se relaciona com seus problemas reais. Quando encontra apenas cobrança, humilhação ou indiferença, pode procurar em grupos autoritários o pertencimento que não encontrou na educação.

Isso não significa manipular emoções. Significa compreender que razão e afeto não são inimigos. Toda aprendizagem significativa envolve curiosidade, confiança, frustração, desejo e coragem para admitir que não sabemos.

TikTok e Instagram também podem ensinar?

Não considero produtivo demonizar as redes sociais. Elas podem divulgar ciência, literatura, história, direitos humanos e manifestações culturais. Professores utilizam vídeos curtos para despertar interesse; artistas encontram públicos; comunidades marginalizadas constroem espaços de reconhecimento; denúncias antes silenciadas alcançam milhões de pessoas.

O problema não está simplesmente na duração dos vídeos. A brevidade pode ser criativa e intelectualmente provocadora. Um poema também pode ser curto. Uma imagem pode condensar uma crítica complexa. O problema surge quando o fragmento é apresentado como totalidade e a reação imediata substitui a investigação.

Um vídeo de um minuto pode abrir uma porta, mas dificilmente esgota uma questão histórica, psicológica ou científica. A educação midiática deveria ensinar a atravessar essa porta: procurar a fonte, comparar interpretações, distinguir testemunho de evidência e perceber os interesses envolvidos na produção do conteúdo.

A escola precisa estudar as plataformas como parte do mundo, e não fingir que elas desaparecerão se os celulares forem proibidos. Em certos momentos, limitar o uso do aparelho é necessário para proteger a atenção coletiva. Mas a proibição isolada não educa para o período fora da sala.

Precisamos ensinar os estudantes a reconhecer por que determinados conteúdos lhes são recomendados, como seus dados são utilizados, de que maneira imagens podem ser manipuladas e como influenciadores convertem confiança em dinheiro e poder político.

Alfabetizar hoje significa também compreender algoritmos.

E a arte?

A arte ocupa um lugar insubstituível nessa disputa. A educação ensina a argumentar; a arte ensina a sentir aquilo que o argumento não consegue alcançar sozinho. Uma música, um filme, uma peça teatral, uma dança ou um romance podem deslocar nosso olhar e permitir que experimentemos, ainda que parcialmente, a existência do outro.

Não vejo a arte como decoração do currículo. Ela é uma forma de conhecimento.

Uma sociedade autoritária desconfia dos artistas porque a arte quebra respostas prontas. Ela mostra que uma vida pode ser narrada de diferentes maneiras. Expõe aquilo que o poder deseja ocultar, devolve humanidade aos grupos transformados em estatísticas e cria imagens de mundos que ainda não existem.

Ao assistir a uma peça sobre racismo, não recebo apenas informações sobre discriminação. Sou confrontado por corpos, vozes, silêncios e situações que podem atingir minha sensibilidade. Ao ler um romance sobre pobreza, encontro pessoas singulares onde o discurso burocrático enxerga apenas números. Ao participar de uma dança, percebo que o corpo também pensa.

A arte pode produzir empatia, mas não deve ser reduzida a lição moral. Uma obra não precisa oferecer comportamento correto nem solução política. Seu poder também está na ambiguidade, na contradição e no desconforto. A arte que apenas confirma aquilo em que já acreditamos corre o risco de transformar-se em propaganda.

A arte contra a velocidade

As plataformas privilegiam conteúdos capazes de prender imediatamente a atenção. A arte, porém, pode ensinar outra temporalidade. Um filme lento, um livro exigente ou uma apresentação de dança sem explicação imediata obriga-me a permanecer diante do que não compreendo.

Essa permanência é quase um ato de resistência. Vivemos numa economia que nos estimula a abandonar tudo o que não produz satisfação instantânea. Se uma imagem não agrada, deslizamos o dedo. Se uma opinião incomoda, bloqueamos. Se um texto exige esforço, procuramos um resumo.

A experiência artística pode recuperar a capacidade de suportar a dúvida. Nem tudo precisa ser entendido imediatamente. Algumas obras continuam trabalhando dentro de nós depois que terminam. Elas não entregam uma resposta pronta; criam uma pergunta que nos acompanha.

É justamente essa capacidade que aproxima arte e educação. Ambas podem interromper o automatismo. Fazem-nos olhar novamente para aquilo que a rotina tornou invisível.

Quando a cultura vira mercadoria

Também não idealizo a arte. Ela pode reproduzir racismo, machismo, elitismo e desigualdades. O mercado cultural transforma artistas em marcas, obras em conteúdo e criatividade em instrumento de publicidade.

As mesmas plataformas que ampliam o acesso submetem os artistas à lógica da visibilidade permanente. Não basta criar; é necessário postar, promover, responder e alimentar o algoritmo. A obra corre o risco de ser avaliada menos por sua força estética do que pelo número de visualizações.

Além disso, o acesso à arte continua desigual. Muitas escolas não possuem bibliotecas adequadas, salas de teatro, instrumentos ou professores suficientes. Equipamentos culturais concentram-se em determinadas regiões, enquanto bairros periféricos e municípios do interior recebem programações esporádicas.

Defender a arte na educação exige investimento público. Bibliotecas, museus, teatros, centros culturais e escolas de arte não são luxos. São instituições democráticas. Quando apenas os ricos podem ter contato contínuo com diferentes linguagens artísticas, a desigualdade cultural reforça todas as outras.

O professor como curador de experiências

Nesse cenário, imagino o professor menos como proprietário do saber e mais como curador de experiências de aprendizagem. Ele seleciona textos, imagens, problemas e encontros capazes de retirar o estudante da passividade.

Curar não significa simplificar tudo. Significa construir percursos. Um vídeo curto pode conduzir a uma reportagem; a reportagem, a um estudo científico; o estudo, a um debate; o debate, a uma produção artística ou intervenção comunitária.

A escola pode utilizar aquilo que circula nas redes como objeto de investigação. Por que este vídeo se tornou popular? Que emoções mobiliza? Quais informações omite? Quem financiou sua produção? Como poderíamos apresentar outra perspectiva?

Assim, o estudante deixa de ser consumidor passivo e passa a compreender a arquitetura da mensagem. Pode produzir conteúdos, mas sabendo que toda escolha de imagem, música e enquadramento constrói uma interpretação.

O professor não precisa imitar influenciadores para permanecer relevante. Se transformar cada aula em espetáculo, aceitará competir num terreno organizado pelas plataformas. Sua força está em oferecer algo que elas raramente proporcionam: continuidade, vínculo, diálogo real, responsabilidade e construção coletiva do conhecimento.

Educar é criar vínculos

Nenhuma tecnologia substitui completamente o encontro entre pessoas. Um estudante pode encontrar informações excelentes na internet, mas a aprendizagem não ocorre apenas pela exposição ao conteúdo. Ela envolve confiança, reconhecimento e possibilidade de errar sem ser imediatamente humilhado.

Um professor que percebe o silêncio incomum de um aluno realiza algo que um algoritmo talvez detecte estatisticamente, mas não necessariamente compreenda humanamente. Um bibliotecário que indica um livro, um assistente social que identifica uma violação de direitos ou um psicólogo que acolhe um sofrimento participam do processo educativo.

A escola transforma quando se torna lugar de presença. Isso exige estabilidade das equipes, condições de trabalho e tempo para conhecer os estudantes. A precarização destrói vínculos. Profissionais sobrecarregados são obrigados a administrar urgências e perdem a oportunidade de construir relações duradouras.

A educação integral não deveria significar apenas manter o estudante mais horas dentro de uma instituição. Precisa ampliar experiências com esporte, ciência, arte, território, cidadania e cuidado. Caso contrário, teremos apenas uma jornada maior reproduzindo a mesma lógica cansativa.

A família e a educação democrática

As famílias possuem direito de participar da vida escolar, mas participação não significa controlar ideologicamente o currículo. A escola pública pertence à sociedade e deve seguir princípios democráticos, conhecimento científico e respeito aos direitos fundamentais.

Nenhuma família deveria impedir que estudantes aprendam sobre evolução, história da escravidão, diversidade religiosa, prevenção da violência sexual ou respeito às diferentes formas de existência. Ensinar que pessoas LGBTQIA+ possuem direitos não é converter ninguém. Ensinar sobre religiões afro-brasileiras não é obrigar estudantes a segui-las.

Educar envolve contato com ideias que não são idênticas às crenças domésticas. Se a escola apenas repetir aquilo que cada família já pensa, deixará de criar um espaço público comum.

Ao mesmo tempo, professores precisam dialogar com as famílias, explicar objetivos e escutar medos reais. O confronto permanente pode alimentar campanhas de desinformação. Firmeza democrática e disposição para o diálogo não são atitudes incompatíveis.

Transformar não é salvar sozinho

A educação pode transformar, mas não pode compensar indefinidamente todas as injustiças sociais. Uma criança com fome, insegurança habitacional ou submetida à violência encontra obstáculos que nenhuma metodologia pedagógica resolve isoladamente.

Quando estudantes abandonam a escola para trabalhar, o problema não é falta de motivação. Quando chegam exaustos depois de longos deslocamentos, não basta recomendar organização. Quando não possuem acesso à internet ou espaço para estudar, o discurso meritocrático torna-se cruel.

Por isso, a política educacional precisa estar articulada à assistência social, à saúde, à cultura, à mobilidade, à segurança alimentar e à geração de renda. A escola transforma mais quando a sociedade também transforma as condições nas quais seus estudantes vivem.

Afirmar que “a educação muda tudo” pode servir para responsabilizar professores por problemas que exigem reforma tributária, redistribuição de renda e políticas públicas estruturais. A educação é indispensável, mas não é mágica.

Ainda acredito

Apesar de todas essas contradições, continuo acreditando na educação. Não porque ela garanta automaticamente emancipação, mas porque oferece ferramentas sem as quais a emancipação dificilmente acontece.

A educação pode ensinar uma pessoa a perceber que a pobreza não é fracasso moral, que o racismo não é opinião, que a desigualdade foi historicamente construída e que a realidade pode ser transformada. Pode também ser utilizada para adaptar trabalhadores à precariedade, legitimar hierarquias e sufocar diferenças. Sua direção dependerá do projeto de sociedade que a orienta.

A arte participa dessa disputa porque devolve imaginação à política. Sem imaginação, aceitamos o presente como único mundo possível. Uma canção, um filme ou um poema não substituem a organização social, mas podem romper a anestesia, dar nome a um sofrimento e aproximar pessoas que se julgavam sozinhas.

Professores e artistas não disputam as mentes oferecendo apenas informações. Disputam a capacidade de prestar atenção, desconfiar, sentir, criar e viver com o diferente.

A escola talvez nunca vença o algoritmo no terreno da velocidade. A arte talvez não consiga competir com a produção infinita de conteúdos. Mas educação e arte oferecem algo que as plataformas, as propagandas políticas e os fundamentalismos dificilmente desejam: seres humanos capazes de questionar as mensagens que recebem, inclusive aquelas transmitidas por seus próprios mestres.

Para mim, essa é a transformação possível e necessária. Não formar pessoas que pensem exatamente como o professor, o artista, o pastor ou o influenciador, mas sujeitos capazes de pensar com autonomia, conviver democraticamente e reconhecer os mecanismos que tentam conduzir seus desejos.

A educação ainda é um caminho de transformação, desde que aceite que não caminha sozinha. Precisa da arte, da ciência, da proteção social, da participação popular e da democracia. Num mundo em que tantos disputam nossas mentes para convertê-las em voto, consumo ou obediência, educar significa preservar o direito de cada pessoa construir sua própria consciência, sem esquecer que nenhuma consciência se forma fora da vida coletiva.

A revolução ainda pode ser pensada?

Ao refletir sobre educação, arte e disputa das consciências, encontro inevitavelmente uma palavra que parece ter sido expulsa do vocabulário contemporâneo: revolução. Durante grande parte dos séculos XIX e XX, ela designou a possibilidade de transformar radicalmente as estruturas econômicas, políticas e sociais. Hoje, porém, a palavra costuma aparecer como lembrança de um passado fracassado, ameaça autoritária ou produto transformado em mercadoria pela publicidade.

Ainda faz sentido pensar a revolução? Para mim, sim. Mas não como repetição automática das experiências do passado, nem como romantização da violência. Pensar a revolução continua necessário porque as contradições que a tornaram imaginável não desapareceram: exploração do trabalho, concentração da propriedade, racismo, patriarcado, imperialismo, destruição ambiental e desigualdade entre aqueles que decidem e aqueles que suportam as consequências.

O capitalismo procura convencer-nos de que é possível modificar comportamentos individuais, governos e tecnologias, mas não as estruturas fundamentais da sociedade. Podemos trocar produtos, aplicativos, representantes e estilos de vida, desde que não perguntemos quem possui os bancos, as terras, as plataformas, os meios de comunicação, os dados e os instrumentos de produção.

Nesse sentido, a principal vitória do capitalismo talvez não tenha sido econômica. Foi imaginativa. Ele conseguiu apresentar-se como o único mundo possível.

A revolução transformada em mercadoria

A publicidade utiliza continuamente a linguagem da ruptura. Cada celular é “revolucionário”, cada aplicativo promete “mudar o mundo” e cada empresa se apresenta como “disruptiva”. A palavra revolução foi esvaziada de seu conteúdo político e transformada em estratégia de venda.

Somos convidados a revolucionar a aparência, a carreira, a alimentação e a rotina. Raramente somos chamados a transformar as relações de propriedade, a distribuição da riqueza ou o poder exercido pelas grandes corporações.

Essa apropriação não é casual. O capitalismo possui enorme capacidade de absorver símbolos de contestação. Rebeldias tornam-se estampas, movimentos culturais viram nichos de mercado e discursos emancipatórios são utilizados por empresas que mantêm relações de trabalho precárias.

Até a individualidade pode tornar-se obrigação. Cada pessoa deve ser diferente, autêntica e empreendedora, desde que sua diferença possa ser convertida em desempenho e consumo. A rebeldia permitida é aquela que vende.

Por isso, recuperar a ideia de revolução exige libertá-la tanto da propaganda empresarial quanto da nostalgia autoritária.

O capitalismo realmente venceu?

Se vencer significa sobreviver aos seus adversários históricos e expandir-se por praticamente todo o planeta, o capitalismo venceu uma batalha decisiva. Depois da dissolução da União Soviética, difundiu-se a ideia de que as grandes disputas ideológicas haviam terminado. Mercado, democracia liberal e globalização formariam o destino definitivo da humanidade.

Mas a história não terminou. O capitalismo venceu sem cumprir suas promessas universais.

Produzimos alimentos suficientes para alimentar a população mundial, mas a fome persiste. Desenvolvemos tecnologias capazes de reduzir drasticamente o tempo de trabalho, mas milhões de pessoas estão exaustas, desempregadas ou submetidas a jornadas instáveis. Nunca houve tanta riqueza acumulada, mas sua concentração permite que uma pequena parcela da humanidade possua mais recursos do que países inteiros.

Se um sistema produz abundância e, ao mesmo tempo, impede milhões de pessoas de acessá-la, não posso chamar isso de vitória humana. É vitória da acumulação, não da civilização.

Também não considero vitorioso um sistema que depende de crescimento permanente num planeta materialmente limitado. A emergência climática revela uma contradição insolúvel entre a expansão infinita do capital e a finitude dos ecossistemas. O capitalismo pode sobreviver à desigualdade porque a transforma em oportunidade de lucro. Talvez não consiga sobreviver à destruição das condições naturais que sustentam a própria economia.

Sua permanência não prova que seja justo ou inevitável. A escravidão existiu durante séculos e parecia natural àqueles que lucravam com ela. O patriarcado atravessou civilizações sem que sua longevidade o tornasse legítimo. Sistemas sociais não desaparecem automaticamente quando revelam sua injustiça. Permanecem enquanto conseguem organizar instituições, desejos e relações de poder.

O capitalismo venceu quando passou a habitar não apenas fábricas e bancos, mas também nossa subjetividade. Aprendemos a nos imaginar como empresas, tratar a vida como investimento, avaliar relações pela utilidade e interpretar o fracasso como responsabilidade exclusivamente individual. Exploramos a nós mesmos acreditando exercer liberdade.

Mas essa vitória permanece incompleta. Enquanto houver trabalhadores organizando greves, mulheres enfrentando o patriarcado, povos indígenas defendendo territórios, movimentos negros combatendo o racismo, comunidades resistindo à destruição ambiental e jovens recusando um futuro de precariedade, o capitalismo não terá alcançado o domínio absoluto.

Revolução não é apenas tomar o Estado

As revoluções do século XX demonstraram que conquistar o poder estatal não garante automaticamente uma sociedade livre. Em alguns casos, a propriedade privada dos grandes meios de produção foi substituída pela administração burocrática, sem que trabalhadores e comunidades participassem efetivamente das decisões.

A concentração do poder em nome do povo pode terminar afastando o próprio povo. O partido que se declara representante definitivo da classe trabalhadora pode transformar divergência em traição e crítica em crime. Uma revolução que elimina liberdades em nome de uma emancipação futura carrega dentro de si a possibilidade de produzir nova opressão.

Isso não significa aceitar o anticomunismo que utiliza os erros das experiências socialistas para absolver colonialismo, fascismo, ditaduras e guerras capitalistas. Significa aprender com a história. Não quero um socialismo que repita campos de trabalho, culto à personalidade, censura e burocratização. Também não aceito que esses fracassos sejam utilizados para decretar a eternidade do capitalismo.

A revolução necessária precisa ser radicalmente democrática. Não apenas porque a democracia é moralmente desejável, mas porque nenhum grupo possui sozinho conhecimento suficiente para organizar uma sociedade complexa. A pluralidade, o direito de oposição, a liberdade artística, a imprensa independente e a participação popular não são obstáculos à transformação: são garantias contra sua degeneração.

O Estado continua fundamental. Sem disputar governos, leis, orçamento e políticas públicas, deixamos instrumentos poderosos nas mãos das classes dominantes. Mas transformar a sociedade não é apenas ocupar o Estado. É democratizar os locais de trabalho, a terra, a comunicação, as cidades, as escolas, a tecnologia e a produção do conhecimento.

Qual revolução precisamos hoje?

Não acredito numa única revolução capaz de resolver instantaneamente todas as contradições. A transformação necessária possui várias dimensões interdependentes.

Uma revolução econômica

A economia precisa deixar de ser organizada prioritariamente para remunerar proprietários e investidores. A riqueza é socialmente produzida e deveria atender às necessidades coletivas.

Isso exige tributação progressiva, enfrentamento aos paraísos fiscais, valorização do trabalho, redução da jornada sem redução salarial, garantia de renda, serviços públicos universais e novas formas de propriedade. Cooperativas, empresas públicas, iniciativas comunitárias e gestão democrática dos trabalhadores podem conviver durante uma transição, desde que o poder econômico não permaneça concentrado.

Não se trata de estatizar cada pequena atividade. Trata-se de colocar setores estratégicos, energia, água, saúde, transporte, crédito, dados e infraestrutura digital, sob controle público e social.

Uma revolução ecológica

Não haverá emancipação num planeta devastado. Uma sociedade pós-capitalista que reproduza o produtivismo, a mineração predatória e a destruição das florestas fracassará mesmo que distribua melhor sua riqueza.

A revolução contemporânea precisa ser ecossocialista. Produzir para viver bem não é o mesmo que produzir indefinidamente. Precisamos decidir democraticamente o que deve crescer, o que deve diminuir e o que não deveria continuar existindo.

Saúde, educação, saneamento, cultura, transporte coletivo e restauração ambiental precisam crescer. A indústria armamentista, a obsolescência programada, o luxo destrutivo e os combustíveis fósseis precisam diminuir.

A transição energética não pode expulsar comunidades em nome de um suposto progresso verde. Instalar aerogeradores ou grandes projetos solares sem consulta e participação dos territórios apenas muda a fonte energética, preservando a lógica colonial de apropriação.

Uma revolução do cuidado

O capitalismo depende de uma quantidade imensa de trabalho doméstico e de cuidado, realizado principalmente por mulheres e frequentemente não remunerado ou desvalorizado. Crianças, pessoas idosas, enfermas e com deficiência necessitam de cuidado, mas a sociedade trata essa atividade como obrigação privada das famílias.

Uma revolução do cuidado colocaria a reprodução da vida no centro da economia. Creches, escolas integrais, centros-dia, saúde pública, assistência social e políticas de apoio às famílias deixariam de ser despesas secundárias.

Não podemos construir uma sociedade emancipada se algumas pessoas permanecem livres porque outras cozinham, limpam, educam e cuidam sem reconhecimento.

Uma revolução antirracista e decolonial

No Brasil, nenhuma transformação será profunda sem enfrentar a herança da escravidão, a concentração fundiária, o genocídio da juventude negra e a marginalização dos povos indígenas.

A luta de classes não pode ser utilizada para silenciar raça e gênero. A classe trabalhadora brasileira foi formada pelo colonialismo e pela escravidão. A exploração econômica possui cor, território e gênero.

Uma revolução brasileira precisa garantir reparação, democratização da terra, defesa dos territórios tradicionais, combate à violência policial e presença efetiva da população negra e indígena nos espaços de decisão.

Uma revolução tecnológica

Dados, algoritmos e inteligência artificial tornaram-se meios de produção e instrumentos de poder. Se permanecerem controlados por poucas empresas, a automação ampliará a desigualdade e a vigilância.

A tecnologia precisa ser tratada como bem comum. Os ganhos de produtividade devem financiar redução da jornada e melhoria da vida coletiva, não apenas aumento dos lucros. Sistemas utilizados pelo Estado precisam ser transparentes, auditáveis e submetidos ao controle democrático.

Uma máquina capaz de realizar parte do trabalho humano deveria libertar tempo para o cuidado, o estudo, a arte e a convivência. No capitalismo, porém, pode gerar desemprego para muitos e riqueza extraordinária para poucos.

Uma revolução cultural

Nenhuma transformação econômica se sustenta se as pessoas continuarem desejando as mesmas hierarquias, formas de consumo e relações de poder. A revolução também precisa acontecer na cultura e na subjetividade.

Isso não significa criar um “novo homem” por imposição do Estado. Tentativas de controlar consciências resultaram em censura e violência. A transformação cultural deve ampliar as possibilidades de existência, não estabelecer um modelo obrigatório.

Precisamos aprender a encontrar valor fora do consumo, reconhecer a interdependência e substituir a competição permanente pela cooperação. Essa mudança não ocorrerá por decreto. Dependerá de educação, arte, experiências comunitárias e práticas democráticas concretas.

A educação como preparação para a liberdade

Nesse ponto, retorno à pergunta inicial: a educação ainda pode transformar?

Sim, principalmente porque uma revolução democrática precisa de pessoas capazes de pensar por conta própria. Um movimento que exige obediência absoluta pode tomar o poder, mas dificilmente produzirá emancipação.

A educação revolucionária não é aquela que troca um catecismo capitalista por um catecismo socialista. Não quero uma escola na qual estudantes repitam Marx sem compreender o mundo, assim como rejeito uma escola que os treine apenas para competir no mercado.

Educar para a transformação significa ensinar a investigar as relações entre fenômenos, compreender a história, analisar o poder e imaginar alternativas. Significa formar sujeitos que também possam criticar os partidos e governos com os quais se identificam.

Paulo Freire compreendeu que ninguém emancipa outra pessoa de maneira unilateral. A libertação é construída com os sujeitos, não entregue a eles como favor. O professor não leva consciência a seres supostamente vazios; participa de um processo no qual todos podem transformar sua compreensão.

A revolução precisa da educação porque precisa sobreviver aos seus próprios líderes. Somente uma população crítica pode impedir que um projeto emancipador seja apropriado por burocratas, oportunistas ou autoritários.

E a arte como ensaio de outros mundos

Se a educação oferece instrumentos para compreender a realidade, a arte nos ajuda a sentir que ela poderia ser diferente.

Toda obra verdadeiramente inquietante contém uma pequena ruptura. Um romance nos permite habitar outra vida. O teatro reorganiza corpos e palavras num espaço comum. A dança recusa a ideia de que o corpo serve apenas para trabalhar. A música cria comunhão entre pessoas que talvez jamais tenham conversado.

A arte não precisa ser explicitamente revolucionária para contribuir com a transformação. Quando rompe a percepção automatizada, já questiona a naturalidade do existente. O autoritarismo compreende esse poder e, por isso, tenta controlar artistas, museus, escolas e livros.

Uma revolução sem arte corre o risco de tornar-se administração burocrática. A arte preserva aquilo que nenhum plano econômico consegue organizar completamente: desejo, memória, imaginação, contradição e liberdade.

Mas também não devo instrumentalizá-la. Quando a arte é obrigada a servir como propaganda oficial, perde parte de sua potência crítica. Uma sociedade emancipada precisa permitir que os artistas critiquem inclusive a própria revolução.

Reforma ou revolução?

Não considero reforma e revolução necessariamente opostas. Uma reforma pode melhorar imediatamente a vida e alterar relações de força. Um sistema público de saúde, uma legislação trabalhista, uma política de cotas ou a reforma agrária não são irrelevantes por não abolirem de uma vez o capitalismo.

O problema é imaginar que pequenas correções, isoladamente, resolverão contradições estruturais. O capital possui enorme capacidade de recuperar conquistas, mercantilizar direitos e transformar políticas públicas em novos mercados.

As reformas precisam fazer parte de um horizonte mais amplo. Devem atender necessidades presentes enquanto ampliam a organização popular e a capacidade coletiva de decidir. A revolução, nesse sentido, não é o contrário do trabalho cotidiano. É a direção que conecta diferentes lutas.

Não quero esperar uma ruptura futura enquanto pessoas passam fome hoje. Tampouco quero administrar eternamente os danos do capitalismo sem questionar sua origem.

Revolução sem romantizar a violência

Durante muito tempo, a imagem revolucionária esteve associada às armas, barricadas e tomadas de palácios. Essas situações fizeram parte de processos históricos concretos, muitas vezes diante de regimes que impediam qualquer transformação pacífica. Mas não considero a violência um valor emancipador em si.

Ela destrói vidas, traumatiza sociedades e frequentemente fortalece aqueles que controlam os melhores instrumentos de repressão. Também pode criar culturas políticas nas quais a brutalidade é justificada pela grandeza do objetivo.

A revolução que imagino deve avançar pela organização popular, pela democracia, pelas greves, pela cultura, pela disputa institucional, pelas cooperativas, pelos conselhos e pelas mobilizações sociais. Ela precisa construir poder coletivo antes, durante e depois de conquistar governos.

Isso não significa ingenuidade diante da violência das classes dominantes. Direitos trabalhistas, sufrágio universal, abolição e independências nacionais não foram concedidos espontaneamente. Surgiram de conflitos e resistências. Mas reconhecer o conflito não me obriga a transformar o sofrimento em estética heroica.

O valor de uma revolução deve ser medido pelas vidas que consegue libertar e proteger, não pela quantidade de inimigos que elimina.

A revolução como processo

Talvez o erro esteja em imaginar a revolução apenas como um grande dia em que tudo muda. Existem momentos de ruptura, mas nenhuma sociedade se transforma inteiramente numa data. O poder antigo permanece em hábitos, instituições, patrimônios, preconceitos e desejos.

A revolução necessária aos nossos tempos seria um processo prolongado de democratização radical. Ela mudaria governos, mas também relações cotidianas. Questionaria a propriedade, mas também o machismo dentro das organizações de esquerda. Enfrentaria o imperialismo, mas também o autoritarismo praticado em nome da soberania.

Seria internacionalista, porque o capital atravessa fronteiras e a crise climática não pode ser enfrentada por um país isolado. Ao mesmo tempo, respeitaria a diversidade dos povos, sem impor um modelo único de desenvolvimento.

Não existe receita universal. O socialismo brasileiro precisará nascer das nossas contradições: escravidão, racismo, concentração da terra, dependência econômica, destruição ambiental, diversidade regional e experiências comunitárias. Precisará dialogar com Marx, mas também com quilombos, povos indígenas, feminismos, trabalhadores urbanos e saberes construídos nas periferias.

A revolução começa pela capacidade de imaginar

O capitalismo ainda domina porque controla recursos, instituições e tecnologias. Mas também porque limita nossa imaginação. Somos incentivados a imaginar o fim do planeta com mais facilidade do que o fim de uma economia organizada pelo lucro.

Recuperar a ideia de revolução significa recusar essa pobreza imaginativa. Não para desenhar uma sociedade perfeita e sem conflitos, mas para afirmar que a realidade atual não é inevitável.

A educação ajuda-nos a compreender como o mundo foi construído. A arte permite sentir que ele pode ser reconstruído. A organização política transforma essa possibilidade em força material.

O capitalismo venceu importantes disputas históricas, mas não venceu definitivamente. Um sistema que precisa repetir diariamente que não existe alternativa revela, nessa insistência, o medo de que as pessoas voltem a imaginar.

A revolução ainda faz sentido, desde que seja pensada como libertação e não como nova obediência; como democracia radical e não como culto ao líder; como justiça ecológica e não como crescimento sem limites; como socialização do poder e não apenas mudança de administradores.

A revolução de nosso tempo talvez não chegue com uma única bandeira nem repita as imagens do passado. Poderá surgir de muitas frentes: na escola que ensina a questionar, na arte que rompe o silêncio, no movimento que protege um território, na greve contra a exploração, na comunidade que organiza o cuidado e na sociedade que decide colocar a vida acima do lucro.

Ela começará quando deixarmos de perguntar apenas como sobreviver dentro do sistema e voltarmos a perguntar coletivamente que mundo queremos construir depois dele.

Francisco José Mesquita Bezerra

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