Depois do teu corpo

 Depois do teu corpo

ficou em mim uma espécie de noite.

Não a noite das estrelas,
nem a noite dos amantes
que ainda acreditam
que o amor pode vencer o tempo.

Ficou uma noite mais funda,
dessas que começam na carne
e terminam não sei onde.

Ainda me lembro
da geografia dos teus ombros,
da curva lenta das tuas costas,
do pequeno silêncio
que antecedia o beijo.

Havia momentos
em que tua boca sobre a minha
parecia abolir o mundo.

E eu acreditava.

Como são ingênuos os amantes:

encostam dois corpos
e imaginam ter derrotado a morte.

Talvez por isso
eu gostasse tanto
de permanecer nu ao teu lado
depois do amor.

Não era apenas desejo.

Era espanto.

Olhava teu corpo adormecido
e pensava:

como pode uma criatura
tão provisória
ser tão bela?

Passava os dedos
lentamente por tua pele,
como quem lê
um livro condenado ao incêndio.

Eu sabia, mesmo então,
que alguma coisa acabaria.

Tudo acaba.

A juventude.

A febre.

Os amantes.

As cidades.

Até nossas mãos,
que naquela noite
se procuravam desesperadamente,
um dia seriam apenas matéria
devolvida à terra.

Talvez o erotismo nasça daí:

dessa consciência secreta
de que o corpo é mortal.

Beijamos porque morreremos.

Desejamos porque desapareceremos.

E quando dois corpos
se procuram na escuridão,
talvez estejam dizendo um ao outro:

ainda estamos vivos.

Depois foste embora.

E descobri
que o corpo também possui memória.

Durante muito tempo
meus braços procuraram
durante o sono
aquilo que já não estava ali.

Meu rosto lembrava teu pescoço.

Minha boca lembrava tua boca.

Minha pele parecia saber
coisas que minha razão
tentava esquecer.

Foi então que compreendi:

há pessoas que abandonamos
com o pensamento,
mas que continuam vivendo
em algum lugar da carne.

E isso é terrível.

E isso é belo.

Porque ninguém sai completamente
de alguém que verdadeiramente desejou.

Fica um gesto.

Um cheiro.

Uma palavra pronunciada
no instante errado.

Fica aquela madrugada
em que encostaste a cabeça
sobre meu peito
e, sem dizer nada,
me fizeste acreditar
que eu não estava sozinho
no universo.

Hoje não sei onde estás.

Talvez outro corpo
conheça agora
aquilo que um dia conheci.

Talvez outra mão
percorra teus cabelos.

Talvez alguém tenha descoberto
essa pequena cicatriz,
essa maneira de fechar os olhos,
esse abandono quase triste
que havia em ti
quando o desejo terminava.

Não sinto ciúme.

Ou talvez sinta.

Somos menos nobres
do que os poemas dizem.

Mas existe uma ternura estranha
em imaginar que continuas vivendo.

Porque amar alguém
talvez seja também aceitar
que sua existência
não nos pertence.

Eu apenas gostaria
que algumas noites
não terminassem.

Não para possuir teu corpo.

Nem para recuperar o passado.

Gostaria apenas de voltar
por alguns minutos
àquela madrugada,

deitar novamente ao teu lado,

sentir tua respiração
contra meu peito

e permanecer em silêncio,

antes que o tempo
inventasse a ausência,

antes que nossos corpos
aprendessem a distância,

antes que eu descobrisse

que algumas pessoas
passam por nossa cama,

mas permanecem,

para sempre,

em nossa solidão.

Francisco José Mesquita Bezerra

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