Ecologias da Radicalização: Crise, Algoritmos e a Fabricação dos Inimigos
Ler Ecologias de crise: uma teoria cibernética da radicalização, de Letícia Cesarino, me provoca uma sensação desconfortável: talvez estejamos procurando as causas da radicalização política nos lugares errados. Durante muito tempo, tentei compreender o crescimento da extrema direita principalmente pela ideologia, pela crise econômica, pelo ressentimento social, pela religião, pelo conservadorismo ou pela manipulação das redes sociais. Cesarino não torna essas explicações inúteis, mas me obriga a enxergar algo maior: a radicalização não acontece isoladamente dentro da cabeça das pessoas. Ela emerge de ambientes, relações, tecnologias e circuitos de retroalimentação.
Essa mudança de perspectiva me parece fundamental.
A pergunta deixa de ser apenas “por que determinada pessoa se radicalizou?” e passa a ser: que tipo de ecossistema tornou essa radicalização possível, desejável e continuamente reproduzível?
É justamente a palavra “ecologia” que considero uma das grandes forças do pensamento de Cesarino. Ecologia, aqui, não significa simplesmente natureza ou meio ambiente. Significa pensar relações. Um organismo nunca existe sozinho: está conectado ao ambiente, aos outros organismos e aos fluxos de informação, energia e matéria que permitem sua existência.
Algo semelhante acontece na política contemporânea.
O indivíduo conectado às redes não está sozinho diante de uma tela. Ele participa de um sistema composto por plataformas, algoritmos, influenciadores, grupos políticos, mercados publicitários, emoções coletivas, instituições, meios de comunicação e comunidades digitais.
Cada elemento afeta os demais.
É aí que a cibernética se torna importante.
Quando penso em cibernética, penso inicialmente em computadores e máquinas. Mas sua história intelectual é muito mais ampla. Ela envolve sistemas, comunicação, controle, informação e, sobretudo, mecanismos de feedback: aquilo que um sistema produz retorna para ele próprio e modifica seu funcionamento.
As redes sociais são extraordinárias máquinas de feedback.
Eu publico algo.
Alguém reage.
A plataforma mede a reação.
O algoritmo identifica aquilo que produz engajamento.
Conteúdos semelhantes recebem maior circulação.
Outras pessoas reagem.
Os produtores percebem o que funciona e passam a produzir mais daquele conteúdo.
O sistema aprende conosco enquanto nós aprendemos com o sistema.
É justamente aí que começo a perceber o problema.
Se indignação, medo, escândalo, ressentimento e conflito produzem engajamento, existe um incentivo estrutural para sua reprodução. Não é necessário imaginar uma sala secreta onde alguém determine que milhões de pessoas devem ficar permanentemente enfurecidas. A própria arquitetura do sistema pode selecionar aquilo que captura atenção.
A radicalização, então, deixa de ser apenas propaganda.
Ela pode tornar-se uma propriedade emergente do ambiente.
Essa ideia ajuda a compreender algo que sempre me intrigou na política contemporânea: por que tantas discussões parecem caminhar inevitavelmente para posições cada vez mais extremas?
Uma afirmação moderada recebe pouca atenção.
Uma provocação recebe milhares de compartilhamentos.
Uma provocação ainda maior recebe milhões.
Logo surge alguém disposto a ultrapassar o anterior.
Forma-se uma espiral.
O que ontem parecia absurdo hoje parece normal; aquilo que hoje parece radical amanhã talvez precise ser ainda mais radical para produzir o mesmo impacto.
Nesse sentido, as plataformas não inventaram o ódio, o racismo, o autoritarismo ou o fundamentalismo. Seria simplista responsabilizar exclusivamente a tecnologia por fenômenos muito anteriores à internet.
Mas as plataformas modificaram profundamente sua velocidade, alcance e capacidade de organização.
O ressentimento encontrou infraestrutura.
E essa talvez seja uma das características políticas decisivas do nosso tempo.
A extrema direita contemporânea compreendeu muito bem essas dinâmicas. Sua expansão em diferentes países não pode ser reduzida às redes sociais, mas seria igualmente difícil compreendê-la ignorando-as. Memes, vídeos curtos, transmissões ao vivo, grupos fechados e influenciadores criaram formas de comunicação política que frequentemente escapam das organizações partidárias tradicionais.
No Brasil, isso adquiriu características particulares.
A crise de confiança nas instituições, os escândalos políticos, a insegurança econômica, as transformações culturais, a violência, a precarização do trabalho e diferentes ressentimentos sociais forneceram matéria-prima para narrativas que prometiam restaurar uma ordem supostamente perdida.
Mas o que mais me interessa é perceber que essas narrativas não circulam apenas porque alguém acredita nelas.
Elas também constroem pertencimento.
Quando uma pessoa entra numa comunidade digital radicalizada, ela não recebe somente informações. Recebe uma identidade.
Passa a existir um “nós”.
E todo “nós” pode produzir um “eles”.
Nós, os esclarecidos.
Eles, os manipulados.
Nós, os patriotas.
Eles, os inimigos.
Nós, o povo.
Eles, o sistema.
A política deixa gradualmente de ser disputa entre projetos de sociedade e passa a ser percebida como guerra existencial.
E quando acredito estar numa guerra, comportamentos anteriormente inaceitáveis podem começar a parecer justificáveis.
É nesse ponto que a leitura de Cesarino me parece particularmente inquietante.
A radicalização não depende necessariamente de convencer alguém de uma doutrina completa. Basta modificar progressivamente o ambiente informacional dentro do qual essa pessoa interpreta o mundo.
Isso me leva à psicanálise.
Freud já havia percebido que as massas não funcionam simplesmente como reunião de indivíduos racionais. Identificação, idealização, desejo e afetos possuem enorme importância na formação dos vínculos coletivos.
As plataformas digitais acrescentam algo novo a esse problema antigo: transformam os afetos em dados.
O medo vira clique.
A indignação vira compartilhamento.
O desejo vira perfil de consumo.
O ressentimento vira engajamento.
A ansiedade vira permanência na plataforma.
Nunca produzimos tantas informações sobre aquilo que nos mobiliza emocionalmente.
E essas informações retornam até nós sob a forma de novos estímulos.
Somos, simultaneamente, usuários e matéria-prima do sistema.
Isso também modifica minha maneira de pensar a chamada “pós-verdade”.
Talvez o problema contemporâneo não seja simplesmente que as pessoas deixaram de acreditar nos fatos. Muitas vezes elas habitam ecologias informacionais diferentes.
Cada grupo possui seus especialistas, vídeos, testemunhos, influenciadores, canais e fontes consideradas confiáveis.
Quando duas pessoas pertencentes a ecossistemas informacionais radicalmente distintos conversam, talvez já não estejam discutindo interpretações diferentes da mesma realidade.
Podem estar partindo de realidades diferentes.
Isso produz uma crise profunda da esfera pública.
Como construir democracia quando sequer conseguimos estabelecer uma base mínima de realidade compartilhada?
Mas também seria confortável demais culpar somente os indivíduos radicalizados.
Essa é outra consequência que retiro da leitura de Ecologias de crise.
Se existe uma ecologia da radicalização, precisamos analisar igualmente as condições que a alimentam.
Desigualdade.
Precarização.
Abandono social.
Crise de representação.
Insegurança diante do futuro.
Perda de vínculos comunitários.
Mudanças rápidas nos costumes.
Sensação de ausência de controle sobre a própria vida.
Tudo isso pode produzir demanda por respostas simples para problemas extremamente complexos.
O autoritarismo oferece uma sedução antiga: transforma complexidade em inimigo.
Se minha vida está ruim, alguém precisa ser culpado.
O imigrante.
A esquerda.
A direita.
O comunista.
O feminista.
O professor.
O jornalista.
A universidade.
A religião diferente.
A minoria.
O estrangeiro.
A democracia começa a adoecer quando sociedades inteiras passam a procurar inimigos em vez de compreender estruturas.
Por isso, combater a radicalização apenas removendo publicações ou bloqueando perfis me parece insuficiente.
Algumas formas de moderação são necessárias, sobretudo diante de ameaças, violência e campanhas coordenadas de desinformação. Mas eliminar um conteúdo sem modificar o ambiente que produz continuamente conteúdos semelhantes equivale a retirar água do chão sem fechar a torneira.
Precisamos discutir a arquitetura das plataformas.
Precisamos discutir transparência algorítmica.
Precisamos discutir concentração econômica das big techs.
Precisamos discutir educação digital.
Precisamos reconstruir espaços públicos onde pessoas diferentes possam se encontrar sem que cada discordância seja transformada imediatamente em guerra.
E precisamos, sobretudo, reconstruir expectativas de futuro.
Porque sociedades sem futuro são terrenos extraordinariamente férteis para a radicalização.
Há algo paradoxal nisso tudo.
A internet foi celebrada durante décadas como uma tecnologia de descentralização e democratização da informação. Em alguma medida, ela realmente cumpriu essa promessa. Nunca tantas pessoas puderam falar publicamente, produzir conhecimento e organizar movimentos.
Mas descentralizar a fala não significa automaticamente democratizar a sociedade.
Também descentralizamos a produção do ódio.
Descentralizamos a fabricação de boatos.
Descentralizamos a vigilância.
Descentralizamos a capacidade de mobilizar ressentimentos.
A mesma infraestrutura pode sustentar movimentos democráticos ou comunidades autoritárias.
A tecnologia não determina sozinha o resultado político.
Mas também não é neutra.
Seu desenho favorece determinadas formas de comportamento.
Depois de Ecologias de crise, fico pensando que talvez nossa época exija uma espécie de ecologia democrática.
Se a radicalização é produzida por relações, a democracia também precisa ser.
Não basta realizar eleições a cada quatro anos.
É necessário produzir ambientes democráticos.
Escolas democráticas.
Cidades democráticas.
Tecnologias democráticas.
Relações de trabalho democráticas.
Meios de comunicação plurais.
Redes digitais que não dependam exclusivamente da captura compulsiva da atenção.
Instituições capazes de ouvir antes que o ressentimento seja capturado por projetos autoritários.
Essa talvez seja, para mim, a consequência mais importante da leitura de Letícia Cesarino.
Não existe uma pessoa radicalizada isolada de seu mundo.
Existe uma pessoa inserida numa rede de afetos, informações, tecnologias, frustrações, identidades e relações.
E isso muda profundamente a pergunta política.
Em vez de perguntar apenas como derrotar os radicalizados, talvez precisemos perguntar como transformar as ecologias que produzem radicalização.
Essa diferença é enorme.
A primeira pergunta procura inimigos.
A segunda procura relações.
E talvez uma das ironias mais perturbadoras do nosso tempo seja justamente esta: se tentarmos combater a lógica da radicalização reproduzindo sua divisão absoluta entre “nós” e “eles”, podemos acabar presos no mesmo circuito que pretendíamos destruir.
Sair dele exige algo muito mais difícil.
Exige reconstruir vínculos.
Exige regular tecnologias sem destruir liberdades.
Exige enfrentar desigualdades sem procurar bodes expiatórios.
Exige reconhecer conflitos sem transformar adversários em inimigos absolutos.
E exige recuperar a política como capacidade coletiva de imaginar futuros.
Porque uma democracia incapaz de oferecer futuro deixa um espaço vazio.
E os ecossistemas da radicalização sabem muito bem como ocupá-lo.
Francisco José Mesquita Bezerra
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