Fascismo tardio: quando o passado deixa de ser passado

 

Ler Fascismo tardio, de Alberto Toscano, provoca em mim uma inquietação que ultrapassa o interesse histórico pelo fascismo. O livro me obriga a olhar para o presente e desconfiar de uma ideia confortável: a de que o fascismo pertence definitivamente ao século XX, encerrado entre fotografias em preto e branco, discursos de Mussolini, marchas nazistas, campos de concentração e ruínas da Segunda Guerra Mundial. Toscano nos força a perguntar se aquilo que chamamos de fascismo realmente desapareceu ou se algumas de suas estruturas, afetos e violências sobreviveram, assumindo outras formas dentro das próprias democracias contemporâneas.

Essa mudança de perspectiva me parece fundamental. Talvez estejamos procurando o fascismo no lugar errado. Esperamos encontrá-lo uniformizado, organizado em partidos explicitamente fascistas, anunciando a destruição da democracia. Enquanto isso, podemos deixar de perceber processos autoritários que acontecem de maneira fragmentada: na militarização da sociedade, na criminalização dos pobres, na produção política do medo, no racismo, na misoginia, na perseguição a migrantes, no desejo de punição e na transformação de determinados grupos humanos em vidas consideradas descartáveis.

É nesse sentido que compreendo a força da expressão “fascismo tardio”. Ela não significa simplesmente afirmar que o fascismo histórico retornou. Significa investigar aquilo que, das condições que possibilitaram o fascismo, permanece ativo em nosso tempo.

O fascismo não caiu do céu

Uma das questões que mais me interessam na reflexão de Toscano é sua crítica à ideia do fascismo como uma anomalia inexplicável da modernidade.

Quando transformamos Hitler ou Mussolini em personagens absolutamente excepcionais, corremos um risco paradoxal: quanto mais monstruosos parecem, menos precisamos investigar as sociedades que os produziram.

O fascismo passa a ser explicado pela loucura de líderes.

Mas líderes autoritários não governam sozinhos.

Precisam de instituições, burocracias, empresários, militares, policiais, intelectuais, meios de comunicação, movimentos sociais e parcelas da população dispostas a apoiá-los ou tolerá-los.

Essa percepção desloca minha pergunta.

Em vez de perguntar apenas “quem são os fascistas?”, passo a perguntar:

quais condições sociais tornam soluções fascistas desejáveis?

Essa pergunta é muito mais perturbadora.

Porque já não posso simplesmente localizar o mal em determinados indivíduos e imaginar-me completamente exterior ao problema.

Capitalismo, crise e autoritarismo

Toscano recupera uma longa tradição marxista de interpretação do fascismo, mas procura também mostrar seus limites e atualizar seus problemas.

Isso me parece necessário.

Não considero suficiente dizer que o fascismo é simplesmente uma ferramenta utilizada pela burguesia para defender o capitalismo. A história é mais contraditória. Movimentos fascistas possuem autonomia política, mobilizam ressentimentos populares, produzem imaginários próprios e podem entrar em conflito inclusive com parcelas das elites econômicas.

Mas seria igualmente equivocado separar completamente fascismo e capitalismo.

As crises econômicas produzem insegurança.

A precarização produz medo.

O desemprego produz ressentimento.

A desigualdade produz frustração.

Mas nada disso conduz automaticamente ao fascismo.

Existe uma mediação política decisiva.

Alguém precisa dizer ao trabalhador precarizado que seu inimigo não está na estrutura que concentra riqueza, mas no imigrante.

Alguém precisa convencer parcelas empobrecidas da sociedade de que o problema não é a desigualdade, mas os direitos conquistados por outros grupos.

É aí que percebo uma das operações fundamentais das políticas autoritárias: transformar conflitos sociais verticais em guerras horizontais.

Em vez de pobres contra estruturas produtoras de pobreza, pobres contra pobres.

Trabalhadores contra trabalhadores.

Homens contra mulheres.

Nativos contra estrangeiros.

Maiorias contra minorias.

A energia potencialmente dirigida contra a desigualdade é reorganizada como ressentimento identitário.

O fascismo também tem uma geografia

Outro aspecto importante da reflexão de Toscano está na crítica à narrativa excessivamente europeia do fascismo.

Quando estudamos fascismo exclusivamente através de Itália e Alemanha, podemos esquecer que muitas práticas posteriormente utilizadas dentro da Europa já haviam sido experimentadas nos territórios coloniais.

Campos de concentração, massacres, hierarquias raciais, deslocamentos populacionais e diferentes formas de administração violenta não nasceram magicamente na Europa dos anos 1930.

O colonialismo constitui uma genealogia indispensável da violência moderna.

Essa perspectiva me faz pensar que talvez seja impossível compreender plenamente o fascismo sem discutir raça e colonialismo.

Autores como W. E. B. Du Bois e Aimé Césaire perceberam algo fundamental: parte do horror europeu diante do nazismo estava relacionada ao fato de técnicas de dominação anteriormente aplicadas aos povos colonizados terem sido direcionadas contra populações europeias.

Essa observação continua desconfortavelmente atual.

Porque as democracias podem ser democráticas para alguns e violentamente autoritárias para outros.

Democracia para quem?

Essa talvez seja uma das perguntas que mais ficaram comigo depois de pensar o livro.

Uma sociedade pode realizar eleições regularmente e, ao mesmo tempo, produzir experiências profundamente diferentes de cidadania.

Para determinada parcela da população, o Estado aparece como escola, universidade, hospital, aposentadoria e proteção social.

Para outra, pode aparecer principalmente como polícia, prisão, abordagem, suspeita e violência.

Essa diferença importa.

Ela significa que autoritarismo e democracia não precisam existir como regimes completamente separados.

Podem coexistir.

É justamente aqui que a noção de fascismo tardio ganha potência analítica. Ela nos permite observar elementos autoritários que sobrevivem dentro das democracias liberais sem que precisemos anunciar, a cada crise política, que “o fascismo chegou”.

Essa cautela conceitual também considero necessária.

Nem tudo é fascismo

Tenho certa preocupação com a banalização contemporânea da palavra.

Chamamos de fascista o político conservador, o adversário intolerante, uma medida autoritária, alguém grosseiro nas redes sociais ou qualquer pessoa situada à direita do nosso espectro político.

Esse uso indiscriminado enfraquece o conceito.

Se tudo é fascismo, nada especificamente é fascismo.

A consequência pode ser politicamente perigosa: quando aparecer um movimento efetivamente organizado em torno da destruição de direitos, da violência contra grupos sociais e da supressão das instituições democráticas, talvez já tenhamos gasto a palavra tantas vezes que ela terá perdido capacidade de advertência.

Por isso, Toscano me interessa justamente quando transforma o conceito em problema, e não simplesmente em insulto.

Precisamos identificar tendências fascistas sem converter todo autoritarismo em fascismo.

Precisamos reconhecer continuidades históricas sem apagar diferenças.

O fascismo contemporâneo, caso exista como possibilidade política, não precisa reproduzir exatamente os anos 1930.

A história raramente retorna usando a mesma roupa.

O desejo de autoridade

Há ainda uma dimensão que considero indispensável acrescentar à análise política: a dimensão subjetiva.

Por que pessoas comuns desejam líderes autoritários?

Wilhelm Reich já se perguntava por que as massas poderiam desejar aquilo que aparentemente contrariava seus próprios interesses. Adorno investigou a personalidade autoritária. Erich Fromm falou do medo da liberdade.

Essas questões permanecem abertas.

Em períodos de incerteza, a liberdade pode ser angustiante.

Uma sociedade complexa exige convivência com diferenças, ambiguidades e conflitos. O autoritarismo oferece uma promessa sedutora: simplificar o mundo.

Existe um inimigo.

Existe um culpado.

Existe uma verdade.

Existe um líder.

Existe uma solução.

A complexidade desaparece.

Talvez uma das forças psicológicas do fascismo esteja justamente nessa promessa de eliminar a ambivalência.

Ele oferece pertencimento para quem se sente perdido, identidade para quem se sente ameaçado e superioridade para quem experimenta impotência.

O sujeito frustrado pode descobrir uma compensação narcísica extraordinariamente poderosa: talvez sua vida seja difícil, mas ele pertence ao grupo supostamente superior.

As redes sociais e a industrialização do ressentimento

Ao trazer essas questões para nosso presente, não consigo ignorar as plataformas digitais.

Elas não inventaram o fascismo.

Também seria simplista responsabilizar algoritmos pela extrema direita.

Mas as redes construíram uma infraestrutura extraordinariamente eficiente para circulação de ressentimentos.

Indignação gera engajamento.

Medo captura atenção.

Humilhação viraliza.

Teorias conspiratórias oferecem explicações emocionalmente satisfatórias para sociedades cada vez mais difíceis de compreender.

O indivíduo isolado encontra milhares de pessoas compartilhando seu ressentimento.

Aquilo que era frustração privada torna-se identidade coletiva.

A política transforma-se progressivamente em guerra cultural permanente.

Nesse ambiente, o adversário deixa de ser alguém com quem disputo projetos de sociedade.

Torna-se inimigo existencial.

E quando alguém é transformado em inimigo absoluto, sua eliminação simbólica, e eventualmente física, pode começar a parecer aceitável.

É aí que vejo um dos sinais mais perigosos do nosso tempo.

Pensar o Brasil

É impossível para mim ler Fascismo tardio sem pensar no Brasil.

Nossa história contém escravidão, colonialismo, genocídio indígena, desigualdade extrema, autoritarismo, ditaduras e violência política.

A Constituição de 1988 representou uma conquista extraordinária justamente porque tentou construir uma sociedade fundamentada em direitos sociais, participação política e dignidade humana.

Mas uma Constituição democrática não elimina automaticamente estruturas autoritárias.

Elas permanecem nas instituições, nas relações sociais e, sobretudo, nos imaginários.

Quando parte da sociedade deseja que determinados grupos sejam eliminados, celebra violência policial indiscriminada, pede fechamento de instituições democráticas ou transforma direitos humanos em expressão depreciativa, não considero prudente tratar tudo isso apenas como excentricidade política.

Há aí sintomas que precisam ser compreendidos.

Mas compreendê-los não significa simplesmente chamar milhões de pessoas de fascistas.

Esse seria, inclusive, um erro político.

Precisamos perguntar por que discursos autoritários conseguem produzir identificação.

Que medos mobilizam?

Que ressentimentos organizam?

Que experiências reais de abandono conseguem capturar?

Antifascismo precisa ser mais do que reação

Essa reflexão me conduz a uma conclusão política.

Não basta ser contra o fascismo.

É necessário construir condições sociais que diminuam sua capacidade de sedução.

Uma sociedade marcada por desemprego, abandono, insegurança, desigualdade extrema e ausência de perspectivas oferece terreno fértil para vendedores de inimigos.

Isso não significa que políticas sociais automaticamente eliminem o autoritarismo.

Significa reconhecer que democracia precisa possuir conteúdo material.

Democracia precisa chegar à mesa.

À escola.

Ao hospital.

À moradia.

Ao transporte.

Ao trabalho.

À cultura.

À segurança.

Não basta dizer ao cidadão que instituições democráticas precisam ser defendidas. É necessário fazer com que ele experimente concretamente por que elas merecem ser defendidas.

Por isso, considero que um antifascismo consequente precisa ser simultaneamente democrático, social e econômico.

A democracia precisa produzir esperança

Talvez essa seja minha principal conclusão depois de Fascismo tardio.

O fascismo não cresce apenas oferecendo ódio.

Ele também oferece uma espécie perversa de esperança.

Promete restauração.

“Voltaremos a ser grandes.”

“Recuperaremos nosso país.”

“Restauraremos a ordem.”

“Expulsaremos aqueles que destruíram nossa sociedade.”

Existe sempre uma fantasia de passado perdido.

Uma esquerda democrática que responde apenas denunciando o perigo fascista pode acabar falando exclusivamente através do medo.

E medo contra medo talvez não seja suficiente.

Precisamos disputar esperança.

Precisamos conseguir dizer não apenas aquilo que queremos impedir, mas aquilo que desejamos construir.

Que sociedade queremos?

Que formas de trabalho?

Que cidades?

Que relações humanas?

Que democracia?

Que futuro?

Sem responder a essas perguntas, o antifascismo corre o risco de tornar-se apenas uma política defensiva.

O fascismo começa antes do fascismo

Depois de ler Toscano, fico com uma ideia que considero fundamental: talvez o momento mais importante para combater o fascismo seja justamente quando ainda não podemos afirmar plenamente que estamos diante dele.

Quando o autoritarismo ainda parece apenas retórica.

Quando a violência ainda parece exceção.

Quando o racismo ainda aparece como piada.

Quando a perseguição ainda é apresentada como provocação.

Quando a mentira ainda parece apenas estratégia eleitoral.

Quando determinados grupos começam silenciosamente a perder sua condição de semelhantes.

Porque regimes autoritários não surgem completos numa manhã.

Eles precisam ser culturalmente preparados.

Precisam tornar certas coisas pensáveis antes de torná-las possíveis.

É por isso que Fascismo tardio me parece menos um livro sobre o passado do que uma advertência sobre o presente.

Ele me ensina a desconfiar tanto da afirmação preguiçosa de que “tudo é fascismo” quanto da certeza igualmente perigosa de que “isso nunca poderá acontecer novamente”.

Entre essas duas posições existe o território difícil da crítica.

É nele que prefiro permanecer.

Vigilante sem paranoia.

Radicalmente democrático sem ingenuidade.

Consciente de que defender a democracia não significa apenas proteger eleições e instituições, mas enfrentar as condições econômicas, raciais, sociais e subjetivas que tornam o autoritarismo desejável.

Porque talvez o fascismo tardio não anuncie sua chegada.

Talvez ele se apresente como ordem, segurança, normalidade, tradição ou liberdade.

E talvez a pergunta decisiva não seja apenas “o fascismo está voltando?”

A pergunta que Toscano me deixa é mais incômoda:

quanto daquilo que tornou o fascismo possível alguma vez realmente desapareceu?

Francisco José Mesquita Bezerra

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