O Brasil no impasse: quando a democracia encontra a onda reacionária

 Ler Impasse: O Brasil diante da onda reacionária, de André Singer, é ser levado a pensar sobre uma contradição que atravessa a história política brasileira: como um país capaz de produzir importantes experiências de inclusão social também consegue gerar movimentos de reação tão intensos a essas mesmas transformações? Para mim, o livro interessa justamente porque Singer procura compreender a crise brasileira sem reduzi-la à personalidade de um governante, a uma eleição ou a uma sucessão de acontecimentos isolados. O que está em questão são movimentos mais profundos da sociedade brasileira, suas classes, seus conflitos e suas dificuldades históricas de construir uma democracia socialmente substantiva.

O termo impasse me parece especialmente importante. Um impasse não significa simplesmente uma derrota. É uma situação na qual forças diferentes conseguem bloquear umas às outras sem que nenhuma consiga produzir uma solução estável.

É dessa maneira que interpreto parte da história brasileira recente.

O Brasil avançou socialmente sem alterar completamente algumas das estruturas responsáveis pela reprodução de sua desigualdade. Milhões de pessoas tiveram acesso a renda, consumo, universidades, políticas sociais e maior reconhecimento, enquanto estruturas históricas de concentração de riqueza, propriedade e poder permaneceram em grande medida intactas.

Esse movimento produziu inclusão, mas também tensões.

E talvez seja exatamente nesse intervalo entre transformação e conservação que possamos compreender parte da reação.

Quando a desigualdade deixa de parecer natural

Uma das reflexões que a leitura de Singer desperta em mim diz respeito à dimensão simbólica da desigualdade.

Uma sociedade desigual não depende apenas da diferença de renda. Ela precisa construir maneiras de naturalizar essa diferença.

Durante muito tempo, determinados espaços brasileiros pareciam possuir donos socialmente definidos. Universidade, aeroporto, determinadas profissões, restaurantes, espaços de consumo e posições de prestígio funcionavam também como marcadores de classe.

Quando pessoas historicamente excluídas começam a ocupar esses lugares, ocorre algo que ultrapassa a economia.

A hierarquia simbólica começa a ser perturbada.

Não quero com isso explicar toda a reação política brasileira como simples ressentimento das classes superiores. Isso seria reduzir fenômenos complexos a uma única causa. Mudanças econômicas, crises políticas, corrupção, segurança pública, transformações culturais, religião, redes sociais e diferentes interesses sociais também participam desse processo.

Mas considero impossível compreender a polarização brasileira sem reconhecer que políticas distributivas modificam relações sociais concretas.

Quando alguém melhora de vida, não muda apenas sua renda.

Muda também sua relação com o mundo.

E quando aqueles que estavam destinados aos lugares inferiores começam a questionar esses lugares, as hierarquias deixam de parecer naturais.

O lulismo e seus limites

Singer tornou-se conhecido justamente por interpretar o fenômeno do lulismo e sua relação com aquilo que chamou de subproletariado.

Essa chave me parece fundamental para compreender o impasse.

Os governos petistas procuraram combinar redução da pobreza, expansão do consumo e políticas sociais com relativa preservação de interesses econômicos estabelecidos. Em diferentes momentos e graus, tentou-se produzir mudança evitando uma ruptura frontal com as estruturas dominantes.

Essa estratégia teve resultados sociais relevantes, mas carregava uma contradição.

Era possível distribuir sem confrontar profundamente a estrutura da distribuição?

Era possível diminuir a pobreza sem enfrentar de maneira decisiva a concentração da riqueza?

Era possível ampliar direitos sociais mantendo uma coalizão política extremamente heterogênea?

Enquanto havia crescimento econômico, expansão do emprego e espaço fiscal, muitas dessas contradições permaneceram administráveis.

Quando as condições econômicas e políticas se deterioraram, elas reapareceram com enorme força.

É aí que vejo um dos grandes ensinamentos de Impasse: reformas realizadas sem alteração suficiente das estruturas que sustentam a desigualdade podem melhorar concretamente milhões de vidas e, ao mesmo tempo, permanecer vulneráveis a reversões.

Junho de 2013 e a disputa pelas ruas

Não consigo pensar nesse período sem retornar às manifestações de junho de 2013.

Aquelas jornadas começaram em torno do transporte público, mas rapidamente ultrapassaram essa pauta. Diferentes grupos passaram a disputar o significado das ruas.

Isso é importante porque movimentos sociais não possuem necessariamente um sentido político fixo.

Uma manifestação pode começar com reivindicações progressistas e depois abrigar grupos com projetos completamente diferentes.

As ruas tornaram-se um território de disputa simbólica.

Insatisfações com serviços públicos, denúncias de corrupção, críticas ao sistema político e frustrações econômicas passaram a conviver com discursos antipartidários e posteriormente com diferentes expressões da direita brasileira.

O que inicialmente parecia uma crise de representação transformou-se também numa reorganização do campo político.

O centro começou a perder capacidade de organizar o conflito.

A onda reacionária não surge do nada

É justamente aqui que considero importante evitar explicações fáceis.

A extrema direita brasileira não apareceu simplesmente porque alguém inventou uma narrativa convincente nas redes sociais.

Havia condições sociais para sua emergência.

Crise econômica.

Descrédito institucional.

Escândalos de corrupção.

Sensação de insegurança.

Desconfiança dos partidos.

Transformações culturais.

Conflitos relacionados a gênero, sexualidade, religião e educação.

Mudanças nas relações de classe.

E, posteriormente, uma infraestrutura digital capaz de transformar medo, ressentimento e indignação em mobilização permanente.

Esses fatores não possuem todos a mesma origem nem apontam necessariamente para a mesma direção. Mas podem convergir politicamente.

É exatamente essa convergência que me interessa.

A reação política consegue reunir pessoas que possuem interesses econômicos bastante diferentes porque a política não acontece apenas no terreno econômico.

Ela acontece também no campo dos afetos.

Medo.

Raiva.

Ressentimento.

Desejo de ordem.

Necessidade de pertencimento.

Nostalgia.

Sensação de perda.

A política contemporânea aprendeu a trabalhar intensamente com esses afetos.

A democracia e seus limites sociais

Talvez a pergunta mais incômoda que o livro desperte em mim seja esta: quanto de desigualdade uma democracia consegue suportar antes de começar a perder substância?

Podemos ter eleições periódicas e, simultaneamente, enorme concentração econômica.

Podemos possuir instituições democráticas enquanto milhões de pessoas vivem submetidas à precariedade.

Podemos proclamar igualdade jurídica enquanto as condições materiais de existência continuam radicalmente desiguais.

Isso significa que a democracia não pode ser pensada apenas como procedimento eleitoral.

Democracia também envolve condições concretas para exercer cidadania.

Educação.

Saúde.

Moradia.

Trabalho.

Renda.

Cultura.

Mobilidade.

Tempo livre.

Participação política.

Sem essas condições, a liberdade corre o risco de transformar-se numa abstração para parcelas significativas da população.

O erro de desprezar quem pensa diferente

Há outra lição que retiro dessa leitura.

Considero um erro explicar todo eleitor de direita ou de extrema direita simplesmente como ignorante, manipulado ou moralmente inferior.

Esse tipo de explicação talvez produza conforto para quem já está convencido, mas pouco ajuda a compreender fenômenos políticos.

As pessoas possuem razões diferentes para aderir a projetos políticos.

Algumas são econômicas.

Outras religiosas.

Outras relacionadas à segurança.

Outras culturais.

Outras surgem da experiência concreta de abandono pelo Estado.

Há também pessoas mobilizadas por desinformação, preconceitos ou discursos autoritários, mas mesmo esses fenômenos precisam ser compreendidos socialmente, e não apenas condenados moralmente.

Se quero compreender uma onda reacionária, preciso perguntar não somente quem a lidera, mas também por que determinadas mensagens encontram pessoas dispostas a ouvi-las.

Essa distinção é fundamental.

Compreender não significa concordar.

Significa recusar explicações preguiçosas.

A esquerda também precisa olhar para si

Uma leitura crítica de Singer também me impede de transformar a esquerda numa personagem inocente da história.

É necessário perguntar sobre seus erros.

Até que ponto estruturas partidárias se afastaram das organizações populares?

Até que ponto políticas sociais foram acompanhadas de formação política e fortalecimento da participação coletiva?

Até que ponto a institucionalização substituiu o trabalho de base?

Até que ponto governos progressistas acreditaram que melhorias econômicas seriam suficientes para produzir fidelidade política permanente?

Nenhuma política pública cria automaticamente consciência política.

Uma pessoa pode beneficiar-se de uma política social e, legitimamente, votar posteriormente contra o partido que a criou.

Democracia significa também reconhecer essa autonomia.

Por isso, talvez um dos problemas tenha sido imaginar que inclusão econômica produziria necessariamente identificação política.

A sociedade é muito mais contraditória.

O impasse continua sendo uma pergunta

É nesse ponto que o título do livro retorna para mim com toda a sua força.

O impasse brasileiro não está apenas entre esquerda e direita.

Ele existe entre democracia política e desigualdade social.

Entre modernização e estruturas arcaicas.

Entre expansão de direitos e concentração econômica.

Entre inclusão e hierarquia.

Entre expectativas crescentes e capacidade limitada do Estado de respondê-las.

Entre uma sociedade que mudou e instituições que nem sempre acompanharam essas mudanças.

Por isso, não considero suficiente derrotar eleitoralmente uma força política para imaginar que desapareceram as condições sociais que possibilitaram sua ascensão.

Movimentos políticos possuem causas mais profundas do que seus líderes.

Enquanto permanecerem insegurança econômica, desigualdade, precarização do trabalho, crise de representação, descrédito institucional e conflitos culturais intensos, continuará existindo terreno para diferentes formas de radicalização política.

Para além do impasse

Impasse me faz pensar que nenhuma democracia se sustenta apenas pela defesa abstrata das instituições.

As instituições são indispensáveis, mas precisam adquirir significado na vida cotidiana.

Democracia precisa chegar ao salário, à escola, ao posto de saúde, ao transporte público, à moradia, à segurança, à universidade e ao direito de imaginar algum futuro.

Também precisa permitir conflito.

Talvez esse seja um dos pontos mais importantes: democracia não significa ausência de conflito social. Significa construir formas políticas pelas quais interesses diferentes possam disputar os rumos da sociedade sem transformar adversários em inimigos a serem eliminados.

Depois de Singer, o Brasil me parece menos um país dividido simplesmente entre dois campos políticos e mais uma sociedade tentando decidir como conviver com as transformações que ela própria produziu.

E talvez o verdadeiro impasse esteja justamente aí.

Queremos diminuir a desigualdade, mas encontramos enormes dificuldades quando a redução da desigualdade exige redistribuir poder.

Queremos democracia, mas frequentemente resistimos às consequências sociais da igualdade.

Queremos cidadania universal, mas continuamos convivendo com privilégios naturalizados.

Queremos mudança, desde que determinadas estruturas permaneçam intocadas.

É essa contradição que mais me inquieta.

Porque uma democracia não se consolida apenas quando todos podem votar.

Ela se aprofunda quando aqueles que historicamente foram tratados apenas como destinatários de políticas passam também a participar da definição do país que desejam construir.

Ao terminar Impasse, portanto, não encontro uma resposta simples.

Encontro uma pergunta política que considero muito mais importante:

o Brasil conseguirá transformar inclusão social em democratização efetiva do poder sem produzir novas rupturas autoritárias?

Não sei a resposta.

Mas talvez reconhecer a profundidade desse impasse seja justamente o primeiro passo para compreender por que a democracia brasileira permanece, ao mesmo tempo, tão resistente e tão vulnerável.

Francisco José Mesquita Bezerra

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