O Eu-prazer purificado e o narcisismo patológico: quando o outro só pode existir como espelho
Quando penso no conceito freudiano de Eu-prazer purificado, não consigo tratá-lo apenas como uma formulação distante, pertencente aos primeiros tempos da constituição psíquica. Há algo dessa lógica primitiva que continua nos acompanhando durante toda a vida: a tendência de considerar como “meu” aquilo que proporciona prazer e expulsar para fora aquilo que provoca desprazer. Em determinadas configurações narcísicas, essa lógica parece adquirir uma força extraordinária. O outro deixa de ser verdadeiramente outro e passa a ser tolerado somente enquanto confirma aquilo que desejo encontrar em mim mesmo.
Freud aborda essa questão de maneira particularmente interessante em Pulsões e seus destinos. Em determinado momento da constituição psíquica, estabelece-se aquilo que ele denomina Eu-prazer purificado. O que produz prazer tende a ser incorporado ao Eu; aquilo que produz desprazer é colocado para fora, relacionado ao não-Eu, ao mundo exterior. Forma-se uma oposição primitiva: prazer dentro, desprazer fora.
É uma operação fundamental, mas também profundamente reveladora.
Antes de conseguirmos reconhecer plenamente a complexidade do mundo e das pessoas, organizamos a experiência segundo uma lógica muito elementar: amo aquilo que me satisfaz; rejeito aquilo que me frustra.
Evidentemente, amadurecer psiquicamente exige ultrapassar, ao menos parcialmente, essa organização.
A realidade nos ensina que aquilo que amamos também nos frustra. A pessoa que nos proporciona prazer pode dizer não. Quem nos admira também pode nos criticar. Quem nos ama pode desejar outras coisas, estabelecer limites, afastar-se ou simplesmente possuir uma existência que não gira em torno de nós.
Talvez uma das grandes conquistas do desenvolvimento psíquico seja justamente suportar essa ambivalência.
O outro é bom e mau, não porque seja literalmente dividido em duas pessoas, mas porque nenhuma pessoa real corresponde integralmente às nossas expectativas.
É nesse ponto que encontro uma ponte entre o Eu-prazer purificado e determinadas formas de narcisismo patológico.
Não quero utilizar “narcisista” como insulto, como se tornou comum nas redes sociais. O narcisismo, em Freud, não é simplesmente sinônimo de arrogância ou egoísmo. Existe uma dimensão narcísica necessária à constituição do sujeito. Precisamos investir libidinalmente no próprio Eu para constituir autoestima, identidade e capacidade de preservação.
O problema não é possuir narcisismo.
O problema aparece quando o outro só pode existir sob a condição de sustentar permanentemente determinada imagem que construí de mim.
Nesse funcionamento, a alteridade torna-se perigosa.
Enquanto alguém me admira, confirma minhas ideias, deseja aquilo que desejo e corresponde às minhas expectativas, essa pessoa pode ser intensamente valorizada. Mas, quando apresenta autonomia, crítica, discordância ou recusa, algo muda. Aquilo que anteriormente era experimentado como bom pode rapidamente transformar-se em perseguição, ingratidão ou ameaça.
Vejo aí uma espécie de retorno da antiga lógica:
o que me proporciona prazer pertence ao campo do bom; aquilo que me frustra precisa ser colocado no campo do mau.
A dificuldade está justamente em integrar essas experiências.
Melanie Klein, embora trabalhando dentro de outro desenvolvimento teórico da psicanálise, ajuda-me a pensar esse problema através da passagem da posição esquizoparanoide para a posição depressiva. No funcionamento mais primitivo, o objeto pode ser cindido entre bom e mau. O amadurecimento permite progressivamente reconhecer que aquele que satisfaz e aquele que frustra são o mesmo objeto.
Essa descoberta é dolorosa.
Significa reconhecer que amar alguém não nos protege da frustração.
Mais ainda: significa reconhecer que também somos ambivalentes. Somos capazes de amar e odiar, cuidar e ferir, construir e destruir. A maturidade psíquica não consiste em eliminar essa contradição, mas em conseguir reconhecê-la sem precisar projetar sistematicamente nossa parte indesejada sobre os outros.
É justamente isso que determinadas organizações narcísicas encontram dificuldade em fazer.
Quando não consigo suportar em mim determinados sentimentos, fracassos ou limitações, posso tentar localizá-los fora de mim. O problema passa a ser sempre o outro.
Se algo deu errado, alguém me sabotou.
Se fui criticado, alguém me inveja.
Se fui abandonado, o outro é incapaz de reconhecer meu valor.
Se alguém discorda de mim, é porque não compreendeu minha superioridade.
Cria-se assim uma defesa extraordinariamente eficiente contra a ferida narcísica: preservo uma imagem idealizada de mim mesmo transferindo para fora aquilo que ameaça essa imagem.
Mas existe um preço.
Quanto mais preciso proteger uma imagem perfeita de mim, mais dependente fico do olhar dos outros.
Esse paradoxo me parece central.
A pessoa aparentemente mais autossuficiente pode ser justamente aquela que depende desesperadamente da confirmação externa. Precisa ser admirada, reconhecida, desejada ou obedecida porque qualquer ruptura desse espelho ameaça uma organização interna muito frágil.
Por isso, penso que o oposto do narcisismo patológico não seja a ausência de amor-próprio.
É justamente um amor-próprio suficientemente sólido para sobreviver à frustração.
Quando minha autoestima não depende exclusivamente da aprovação do outro, posso permitir que ele discorde de mim sem experimentar sua discordância como destruição. Posso reconhecer um erro sem sentir que toda minha identidade desmoronou. Posso pedir desculpas sem experimentar isso como humilhação. Posso perder sem precisar destruir simbolicamente aquele que venceu.
Sobretudo, posso amar alguém sem exigir que essa pessoa seja minha extensão.
Winnicott me parece particularmente importante aqui. O amadurecimento emocional implica progressivamente reconhecer a existência de uma realidade que não foi criada por nossa onipotência. O mundo existe independentemente de nossos desejos. O outro também.
Essa descoberta começa muito cedo, mas talvez nunca termine completamente.
Todos carregamos alguma nostalgia de um mundo organizado segundo nossos desejos.
Queremos que as pessoas respondam quando desejamos. Queremos ser compreendidos sem precisar explicar. Queremos reconhecimento sem exposição à crítica. Queremos amor sem risco de abandono. Queremos relações sem frustração.
Mas amar uma pessoa real significa justamente abandonar a fantasia de controle absoluto sobre ela.
O outro verdadeiro sempre excede minha representação.
Ele deseja coisas que desconheço. Possui pensamentos aos quais não tenho acesso. Pode mudar. Pode decepcionar-me. Pode deixar de me desejar. Pode escolher caminhos dos quais discordo.
A alteridade começa justamente onde termina meu controle.
Por isso, considero que uma das manifestações mais profundas do amadurecimento psíquico seja conseguir dizer: “Você não corresponde ao que desejo e, ainda assim, reconheço sua existência e seu direito de ser diferente de mim.”
Isso vale para relações amorosas, amizades, famílias e ambientes profissionais. Vale também para nossa vida coletiva.
Há algo profundamente narcísico em sociedades que perderam a capacidade de conviver com a diferença. As redes sociais intensificaram essa dinâmica ao permitir que construamos ambientes nos quais encontramos permanentemente pessoas que confirmam nossas crenças, gostos e identidades. Criamos pequenos mundos de espelhos e depois experimentamos como agressão a presença de quem rompe a imagem.
Bloqueamos, cancelamos, expulsamos, ridicularizamos.
Às vezes essas ações possuem razões legítimas, especialmente diante de violência ou abuso. Mas também precisamos perguntar até que ponto estamos perdendo a capacidade de suportar simplesmente a existência da diferença.
O Eu-prazer purificado permanece tentador:
o bom comigo; o mau fora de mim.
Mas nenhuma vida psíquica madura consegue sustentar indefinidamente essa divisão.
Também preciso reconhecer o estranho que habita em mim.
Freud nos colocou diante dessa ferida quando mostrou que o Eu não é senhor em sua própria casa. Existe um inconsciente. Existem desejos que contradizem nossa autoimagem. Existem agressividade, sexualidade, inveja, rivalidade, fantasias e contradições que preferiríamos atribuir exclusivamente aos outros.
A psicanálise, nesse sentido, realiza um movimento contrário ao narcisismo: ela me obriga a desconfiar da imagem excessivamente coerente que construo sobre mim mesmo.
Talvez a pergunta analítica mais desconfortável seja justamente:
o que existe em mim daquilo que tanto condeno no outro?
Não se trata de abolir diferenças entre vítima e agressor, responsabilidade e inocência, cuidado e violência. Nem toda acusação é projeção. Existem injustiças concretas e responsabilidades objetivas. A psicanálise perde sua potência crítica quando transforma todos os conflitos sociais em fantasias individuais.
Mas reconhecer a realidade externa não elimina a necessidade de investigar nossa participação subjetiva nela.
É por isso que vejo a saída do narcisismo patológico não como destruição do Eu, mas como capacidade de possuir um Eu que não precise ser permanentemente purificado.
Um Eu capaz de reconhecer suas contradições.
Capaz de admitir inveja sem transformar o invejado em inimigo.
Capaz de experimentar raiva sem concluir que o outro é inteiramente mau.
Capaz de receber amor sem acreditar que possui direito absoluto sobre quem ama.
Capaz de ser frustrado sem transformar frustração em humilhação.
Capaz de perder sem sentir que deixou de existir.
Talvez amadurecer seja abandonar progressivamente a fantasia de um Eu completamente bom cercado por um mundo responsável por todo o mal.
Não existe Eu purificado.
Existe um sujeito dividido, contraditório, atravessado pelo inconsciente e permanentemente confrontado com outros sujeitos igualmente incompletos.
E talvez seja justamente quando deixamos de exigir pureza de nós mesmos que começamos a precisar menos demonizar aquilo que está fora.
Nesse sentido, sair da lógica do Eu-prazer purificado significa aceitar uma verdade difícil: o outro não existe para garantir meu prazer, confirmar minha identidade ou proteger minha autoestima.
Ele existe apesar de mim.
E eu existo apesar dele.
Entre nós permanece uma distância que nenhuma fusão amorosa, identificação ou espelhamento consegue eliminar completamente.
Talvez seja justamente nessa distância, quando já não preciso transformar o outro em espelho nem em inimigo, que se torna possível aquilo que podemos chamar, verdadeiramente, de encontro.
Francisco José Mesquita Bezerra
Comentários
Postar um comentário