O que o trabalho faz de nós: entre sofrimento, reconhecimento e a honra de estar vivo

 Ler O que há de melhor em nós: trabalhar e honrar a vida, de Christophe Dejours, provoca em mim uma sensação aparentemente contraditória. Depois de tantos diagnósticos contemporâneos sobre precarização, esgotamento, assédio, competição e adoecimento, Dejours me obriga a recordar que o trabalho não precisa ser apenas aquilo que nos destrói. Ele também pode ser uma das experiências pelas quais construímos nossa humanidade.

Essa afirmação exige cuidado.

Não se trata de romantizar o trabalho, muito menos de repetir a velha moral segundo a qual trabalhar dignifica automaticamente o ser humano. Conhecemos trabalhos humilhantes, alienantes, perigosos e psicologicamente devastadores. O próprio percurso intelectual de Dejours dedicou enorme atenção à psicopatologia e ao sofrimento relacionados ao trabalho.

Por isso, quando ele aproxima trabalhar e honrar a vida, não interpreto essa aproximação como elogio ingênuo da produtividade.

Entendo-a como uma pergunta muito mais profunda:

o que acontece conosco quando conseguimos colocar nossa inteligência, nosso corpo, nossa sensibilidade e nossa responsabilidade naquilo que fazemos?

E, inversamente:

o que perdemos quando o trabalho nos impede justamente de fazer isso?

Trabalhar não é simplesmente executar

Uma das contribuições de Dejours que mais modifica minha maneira de pensar o trabalho é a distinção entre tarefa prescrita e trabalho real.

Nenhuma descrição de cargo consegue antecipar completamente aquilo que acontece na realidade.

Sempre existe alguma coisa que escapa.

Uma máquina apresenta um problema inesperado. Um paciente reage de maneira diferente. Uma criança não aprende conforme o protocolo previa. Um usuário chega a um serviço público trazendo uma situação que não cabe perfeitamente nas normas. Uma equipe precisa resolver um conflito. Uma decisão precisa ser tomada diante de informações incompletas.

É nesse intervalo que começa propriamente o trabalhar.

Trabalhar significa enfrentar aquilo que resiste ao nosso conhecimento.

Por isso, o trabalho exige inteligência.

Mas não apenas inteligência abstrata.

Exige corpo, experiência, sensibilidade, improvisação, julgamento, criatividade e capacidade de relacionar-se com outras pessoas.

Essa perspectiva me interessa profundamente porque devolve ao trabalhador aquilo que determinadas formas contemporâneas de gestão tentam retirar dele: sua condição de sujeito.

O trabalho transforma quem trabalha

Costumamos imaginar que transformamos o mundo através do trabalho.

Dejours acrescenta uma questão fundamental: enquanto transformo alguma coisa através do meu trabalho, também sou transformado por aquilo que faço.

O trabalho deixa marcas.

Aprendo.

Fracasso.

Insisto.

Desenvolvo habilidades.

Descubro limites.

Construo relações.

Recebo reconhecimento.

Sofro.

Às vezes me orgulho.

Às vezes me envergonho.

Por isso, trabalhar nunca é psicologicamente neutro.

Quando consigo realizar algo que inicialmente não sabia fazer, não produzo apenas um objeto ou serviço. Produzo também uma transformação em mim.

Torno-me capaz de algo que antes não era.

Há nisso uma experiência profundamente ligada à identidade.

Eu me reconheço parcialmente naquilo que faço.

E talvez seja por isso que perder um trabalho, ser impedido de trabalhar bem ou executar durante anos uma atividade que considero absurda possa provocar sofrimentos tão profundos.

Não perdemos apenas renda.

Podemos perder também uma parte da relação que construímos conosco mesmos.

O prazer de fazer bem

Vivemos numa sociedade fascinada pela produtividade.

Produzir mais.

Mais rapidamente.

Com menos pessoas.

Em menos tempo.

Com custos menores.

Com indicadores permanentemente crescentes.

Entretanto, existe uma pergunta que considero cada vez mais esquecida:

e fazer bem?

Existe uma satisfação muito particular em olhar para algo realizado e reconhecer: "fui eu que fiz".

Não necessariamente porque seja perfeito.

Mas porque reconheço ali meu esforço, minha inteligência e minha contribuição.

Esse prazer não cabe facilmente numa planilha.

Talvez seja exatamente isso que certas formas de gestão tenham dificuldade de compreender.

Elas conseguem medir quantidade, tempo, produtividade, vendas, atendimentos e resultados.

Mas como medir cuidado?

Como medir responsabilidade?

Como medir atenção?

Como medir solidariedade?

Como medir a pequena decisão tomada por um trabalhador que evitou um problema que ninguém jamais saberá que existiu?

Grande parte do trabalho real permanece invisível.

E, paradoxalmente, muitas vezes é justamente essa parte invisível que permite que as organizações funcionem.

O reconhecimento do outro

É aqui que surge uma dimensão central do pensamento de Dejours: o reconhecimento.

Não trabalhamos apenas pelo salário.

Isso não significa diminuir a importância da remuneração. Salário digno, direitos trabalhistas e condições materiais adequadas são fundamentais.

Mas existe também uma economia psíquica do trabalho.

Precisamos sentir que aquilo que fazemos possui algum valor.

Às vezes, uma palavra de um colega, de alguém atendido, de um aluno, de um paciente ou de um superior pode adquirir enorme importância.

"Você fez um bom trabalho."

"Isso me ajudou."

"Aprendi alguma coisa com você."

"Pude contar com você."

São frases simples.

Mas elas podem converter esforço em sentido.

O reconhecimento funciona como uma espécie de ponte entre aquilo que faço e aquilo que sou.

Quando meu trabalho é reconhecido, parte do sofrimento necessário para realizá-lo pode transformar-se em satisfação.

Mas quando existe apenas cobrança, desprezo ou invisibilidade, essa transformação se torna muito mais difícil.

Trabalhar juntos

Outro aspecto que me interessa é perceber que o trabalho nunca é inteiramente individual.

Mesmo quando parece solitário, ele depende de redes de cooperação.

Alguém veio antes.

Alguém ensinou.

Alguém forneceu instrumentos.

Alguém estabeleceu conhecimentos.

Alguém continuará aquilo que comecei.

Por isso, trabalhar também significa aprender a viver com outros.

E aqui encontro uma dimensão política decisiva.

A cooperação exige confiança.

Não posso cooperar verdadeiramente com alguém se acredito que qualquer erro meu será utilizado contra mim.

Também não consigo compartilhar conhecimentos se meu colega é transformado permanentemente em concorrente.

A competição excessiva destrói justamente aquilo que torna possível o trabalho coletivo.

Quando cada trabalhador precisa provar continuamente que é melhor que o outro, informações deixam de circular, erros são escondidos e solidariedades desaparecem.

A organização acredita estar aumentando a produtividade.

Pode estar destruindo a cooperação.

Quando trabalhar bem se torna impossível

Talvez uma das formas mais cruéis de sofrimento profissional não seja simplesmente trabalhar muito.

É saber como determinada atividade deveria ser realizada e ser impedido de fazê-la dessa maneira.

Um profissional pode saber que determinada pessoa precisa de atenção, mas receber dez minutos para atendê-la.

Um professor pode saber que determinado estudante necessita de acompanhamento, mas possuir dezenas de alunos sob sua responsabilidade.

Um trabalhador pode conhecer uma maneira mais segura de executar uma tarefa e ser pressionado a ignorá-la para cumprir uma meta.

Nesse momento surge algo mais grave do que cansaço.

Surge um conflito ético.

Para continuar trabalhando, preciso fazer aquilo que considero errado?

Essa pergunta me parece central.

Porque existem situações nas quais o sofrimento não nasce da dificuldade do trabalho, mas da impossibilidade de realizar um trabalho que o próprio trabalhador considere digno.

É quando trabalhar mal se torna uma exigência da organização.

O sofrimento ético

Esse ponto me toca particularmente.

Há uma diferença entre voltar para casa cansado e voltar para casa envergonhado daquilo que foi necessário fazer para permanecer empregado.

Posso suportar determinado esforço quando reconheço sentido nele.

Muito mais difícil é suportar uma atividade que entra permanentemente em conflito com aquilo que considero justo.

Quando uma organização exige silêncio diante de injustiças, indiferença diante do sofrimento ou participação em práticas que considero moralmente condenáveis, ela não mobiliza apenas minha força de trabalho.

Ela invade minha relação comigo mesmo.

É aí que compreendo melhor a expressão honrar a vida.

Honrar a vida talvez signifique conseguir trabalhar sem precisar destruir aquilo que considero digno em mim e nos outros.

O que há de melhor em nós

O título do livro contém algo que inicialmente poderia parecer otimista demais.

"O que há de melhor em nós."

Mas interpreto essa expressão não como afirmação de que os seres humanos sejam naturalmente bons.

Dejours conhece suficientemente Freud para desconfiar dessa idealização.

Somos capazes de solidariedade e crueldade.

Cooperação e competição.

Coragem e covardia.

Cuidado e indiferença.

A questão é saber quais condições sociais e organizacionais favorecem cada uma dessas possibilidades.

Uma organização pode estimular solidariedade.

Outra pode recompensar a delação.

Uma pode valorizar cooperação.

Outra pode transformar colegas em inimigos.

Uma pode permitir discussão sobre erros.

Outra pode exigir silêncio.

Portanto, aquilo que existe "de melhor em nós" não aparece automaticamente.

Precisa de condições para existir.

O neoliberalismo e o empresário de si mesmo

É impossível para mim ler Dejours sem pensar nas transformações contemporâneas do trabalho.

Cada vez mais somos incentivados a pensar em nós mesmos como empresas.

Precisamos administrar nossa imagem.

Investir permanentemente em competências.

Aumentar nossa produtividade.

Construir nossa marca pessoal.

Transformar relações em networking.

O fracasso torna-se individual.

Se estou desempregado, faltou qualificação.

Se adoeci, faltou resiliência.

Se estou exausto, não soube organizar meu tempo.

Se não alcancei determinada meta, não me esforcei suficientemente.

O problema dessa narrativa é que ela transforma estruturas sociais em falhas pessoais.

E produz culpa.

O sujeito explora a si mesmo acreditando estar realizando sua liberdade.

Por isso, considero fundamental recuperar com Dejours uma concepção de trabalho baseada não apenas em desempenho, mas em cooperação, reconhecimento e responsabilidade.

Trabalho e democracia

Existe ainda uma dimensão que considero profundamente política.

Passamos enorme parte de nossas vidas trabalhando.

Por que então aceitamos que muitos ambientes profissionais sejam organizados de maneira radicalmente autoritária?

Falamos de democracia na sociedade enquanto naturalizamos relações de silêncio e obediência dentro das organizações.

Talvez precisemos pensar a democracia também dentro do trabalho.

Não significa que todas as decisões devam ser tomadas coletivamente.

Significa reconhecer que aqueles que executam o trabalho possuem conhecimento sobre ele.

Ouvir trabalhadores não é concessão.

É reconhecer uma inteligência construída pela experiência.

Uma organização que despreza permanentemente aqueles que realizam o trabalho concreto pode possuir excelentes indicadores administrativos e, ao mesmo tempo, desconhecer profundamente aquilo que acontece dentro dela.

Honrar a vida

Ao terminar essa reflexão, percebo que O que há de melhor em nós não me leva a escolher entre duas imagens simplistas do trabalho.

O trabalho não é necessariamente libertação.

Também não é necessariamente condenação.

Ele é um campo de disputa.

Pode produzir sofrimento e prazer.

Alienação e realização.

Competição e solidariedade.

Humilhação e reconhecimento.

Adoecimento e construção de identidade.

Tudo depende, em grande medida, da maneira como organizamos socialmente o ato de trabalhar.

E é justamente por isso que não considero a discussão sobre trabalho apenas econômica.

Ela é também psicológica, ética e política.

Quando defendemos condições dignas de trabalho, não estamos falando somente de salário.

Estamos falando sobre que tipo de seres humanos uma sociedade permite que sejamos enquanto trabalhamos.

O trabalho que eu gostaria de defender

Depois de ler Dejours, não quero defender uma sociedade em que as pessoas simplesmente trabalhem menos para sofrer menos.

Quero algo mais ambicioso.

Quero pensar uma sociedade na qual possamos trabalhar melhor.

Trabalhar com tempo suficiente para fazer aquilo que precisa ser feito.

Trabalhar com segurança.

Com direitos.

Com autonomia.

Com reconhecimento.

Com cooperação.

Com possibilidade de discordar.

Com espaço para inteligência e criatividade.

Com direito ao descanso.

E, principalmente, sem sermos obrigados a escolher permanentemente entre sobreviver economicamente e permanecer fiéis àquilo que consideramos justo.

Talvez seja esse o significado mais profundo que encontro na expressão de Dejours: trabalhar e honrar a vida.

Honrar a vida não é sacrificar-se pelo trabalho.

É exatamente o contrário.

É recusar uma organização do trabalho que considere descartável aquilo que existe de humano no trabalhador.

Porque, no final, talvez a pergunta decisiva não seja apenas "o que produzimos quando trabalhamos?"

Precisamos perguntar também:

"o que o trabalho está produzindo em nós?"

Se produz medo, silêncio, cinismo, humilhação e indiferença, alguma coisa precisa ser transformada.

Mas se permite cooperação, inteligência, reconhecimento, responsabilidade e criação, o trabalho pode tornar-se algo maior do que simples necessidade econômica.

Pode tornar-se uma maneira de participar do mundo sem renunciar a nós mesmos.

E talvez seja justamente nisso que esteja o que há de melhor em nós: não na capacidade de produzir cada vez mais, mas na possibilidade de fazer do nosso trabalho uma experiência em que nossa inteligência, nossa solidariedade e nossa responsabilidade diante do outro ainda tenham lugar.

Honrar o trabalho, portanto, não é viver para trabalhar.

É construir condições para que, enquanto trabalhamos, não precisemos deixar de honrar a vida.

Francisco José Mesquita Bezerra

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