Quando Atacam Aparecida: Fé, Poder e a Disputa pela Identidade do Brasil
Há algo que me inquieta profundamente nos ataques que setores mais fundamentalistas e radicalizados da extrema direita brasileira dirigem a Nossa Senhora Aparecida. Não me refiro simplesmente à divergência teológica de evangélicos que, por razões doutrinárias, rejeitam a veneração de Maria, dos santos ou das imagens. Essa diferença pertence à história do cristianismo e deve ser respeitada numa sociedade plural. Minha preocupação começa quando a divergência religiosa deixa o espaço da fé e se transforma em projeto de poder, buscando redefinir os símbolos públicos do país segundo a crença de um segmento específico da população.
É nesse ponto que considero necessário perguntar: o que significa Nossa Senhora Aparecida ser Padroeira do Brasil? E por que esse título incomoda determinados setores?
A história ajuda a compreender a força desse símbolo.
A tradição de Nossa Senhora Aparecida remonta a 1717, quando três pescadores, João Alves, Felipe Pedroso e Domingos Garcia, teriam encontrado no rio Paraíba do Sul uma pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição, primeiro o corpo e depois a cabeça. A devoção cresceu progressivamente entre a população, atravessou os séculos e tornou-se uma das manifestações religiosas mais importantes da cultura brasileira.
Em 1930, Nossa Senhora Aparecida foi proclamada Padroeira do Brasil pelo papa Pio XI. Décadas depois, a Lei nº 6.802, de 1980, estabeleceu o dia 12 de outubro como feriado nacional para culto público e oficial a Nossa Senhora Aparecida.
Mas reduzir Aparecida a esses atos institucionais seria perder grande parte de seu significado.
O que me chama atenção é aquilo que aconteceu antes deles: uma devoção popular que nasceu longe dos palácios e das elites, às margens de um rio, pelas mãos de pescadores.
E há uma dimensão simbólica ainda mais poderosa: a imagem de Aparecida é negra.
Isso adquiriu, ao longo da história brasileira, enorme potência simbólica num país constituído pela escravidão, pelo racismo, pela desigualdade e pela permanente tentativa de apagar a participação negra na construção nacional. É preciso ter cuidado para não projetar sobre o século XVIII todas as interpretações políticas contemporâneas, mas também seria impossível ignorar aquilo que Aparecida passou a representar posteriormente para milhões de brasileiros.
Uma pequena imagem escurecida, encontrada por trabalhadores pobres dentro de um rio, tornou-se o maior símbolo da religiosidade católica brasileira.
Há alguma coisa profundamente brasileira nessa história.
Talvez seja justamente por isso que Aparecida seja maior do que uma discussão exclusivamente teológica.
Ela entrou na cultura.
Está nas casas, nas estradas, nos altares, nas romarias, nas promessas, nas festas populares, nas fotografias das famílias, nos pequenos oratórios do interior. Está presente entre pessoas que frequentam regularmente a Igreja Católica e também entre brasileiros cuja relação com a religião é muito mais cultural, afetiva ou familiar.
Isso não significa que todos os brasileiros devam venerá-la.
O Brasil é constitucionalmente um Estado laico. Há católicos, evangélicos, espíritas, adeptos das religiões de matriz africana, judeus, muçulmanos, pessoas pertencentes às tradições indígenas, agnósticos, ateus e tantas outras formas de viver, ou não viver, a religião.
E justamente por defender a laicidade considero perigoso transformar uma diferença religiosa em cruzada política.
Um evangélico tem todo o direito de dizer: “Minha fé não reconhece a veneração dos santos”.
Um católico tem igualmente o direito de responder: “Minha fé compreende Maria dessa maneira”.
O problema começa quando alguém pretende acrescentar: “Como minha religião não reconhece esse símbolo, o Estado brasileiro deve eliminá-lo da história nacional”.
Nesse momento, já não estamos discutindo apenas teologia.
Estamos discutindo poder.
É aqui que vejo uma conexão preocupante entre determinados fundamentalismos religiosos e setores radicalizados da extrema direita brasileira. A religião pode deixar de ser vivida como experiência espiritual e transformar-se em instrumento para estabelecer fronteiras políticas: quem seria verdadeiramente cristão, quem representaria a família, quem possuiria os valores corretos e, finalmente, quem teria legitimidade para dizer quem é verdadeiramente brasileiro.
A disputa por Aparecida, nessa perspectiva, seria apenas uma parte de uma disputa maior: quem possui o direito de definir simbolicamente o Brasil?
Esse problema me interessa muito mais do que a controvérsia sobre uma imagem.
Porque o fundamentalismo político-religioso dificilmente termina onde começa.
Hoje pode ser Nossa Senhora Aparecida.
Amanhã podem ser as religiões afro-brasileiras.
Depois, determinadas manifestações culturais.
Em seguida, livros, professores, artistas, universidades, comportamentos individuais ou concepções de família.
Quando uma corrente religiosa tenta transformar sua interpretação particular do mundo em norma obrigatória para toda a sociedade, a liberdade religiosa acaba produzindo paradoxalmente seu contrário: a intolerância religiosa.
E há uma contradição que considero especialmente importante.
Setores da direita brasileira construíram, durante anos, um discurso baseado na defesa da “tradição”, da “família” e das “raízes cristãs” do país. Entretanto, Nossa Senhora Aparecida pertence justamente a uma das tradições religiosas mais antigas e populares do Brasil.
Como reivindicar a defesa da tradição brasileira e simultaneamente tentar apagar um de seus símbolos religiosos mais consolidados?
A resposta, a meu ver, está na própria natureza da chamada guerra cultural.
A tradição defendida por movimentos políticos nem sempre corresponde à tradição historicamente existente. Muitas vezes, selecionam-se determinadas partes do passado e rejeitam-se outras para construir uma identidade conveniente ao projeto político do presente.
Cria-se uma versão idealizada do país.
E tudo aquilo que não cabe nessa identidade passa a ser tratado como estranho, ilegítimo ou inimigo.
É também necessário fazer uma distinção que considero fundamental: não confundiria esse fenômeno com os evangélicos brasileiros em geral.
O universo evangélico é enorme e heterogêneo. Existem diferenças profundas entre igrejas históricas, pentecostais, neopentecostais e comunidades independentes. Existem evangélicos conservadores, progressistas e pessoas que simplesmente não desejam transformar sua religião em programa político.
Da mesma maneira, discordar da doutrina católica sobre Maria não significa atacar católicos.
Uma democracia saudável precisa proteger exatamente essa possibilidade de divergência.
Minha crítica é dirigida a outra coisa: à transformação da diferença teológica em instrumento de mobilização política e à pretensão de converter uma interpretação religiosa particular em identidade oficial da nação.
Por isso, quando ouço propostas ou campanhas para retirar de Nossa Senhora Aparecida o reconhecimento de Padroeira do Brasil, minha primeira pergunta não é religiosa.
É política.
Por que isso se tornou importante agora?
O que se pretende conquistar politicamente com essa batalha simbólica?
Quem é mobilizado por ela?
Que identidade nacional se pretende construir em seu lugar?
Essas perguntas são mais reveladoras do que simplesmente discutir se Maria deve ou não ser venerada.
Eu mesmo posso olhar para Aparecida sem precisar transformar a questão em profissão pessoal de fé. Posso reconhecê-la como patrimônio histórico, cultural e afetivo de milhões de brasileiros.
Defender esse reconhecimento não significa obrigar ninguém a rezar.
Assim como reconhecer a importância histórica do candomblé não me obriga a ser do candomblé; compreender o protestantismo brasileiro não exige que eu seja protestante; estudar as cosmologias indígenas não exige que eu professe suas crenças.
Uma sociedade plural começa justamente quando aprendemos que respeitar não significa aderir.
Por isso, penso que talvez exista algo ainda mais profundo por trás dessa controvérsia.
Estamos vivendo uma disputa sobre qual Brasil será autorizado a existir.
Um Brasil homogêneo, construído a partir de uma única moral religiosa?
Ou um Brasil contraditório, mestiço, indígena, negro, europeu, latino-americano, católico, evangélico, espírita, afro-religioso, judeu, muçulmano, ateu, agnóstico e atravessado por inúmeras outras experiências?
Eu fico com o segundo.
Não porque todas essas tradições sejam iguais. Não são.
Mas porque nenhuma delas possui o direito de expulsar as demais da identidade brasileira.
Aparecida, nesse sentido, oferece uma imagem curiosamente poderosa para pensar o próprio país.
Uma imagem pequena.
Encontrada quebrada.
Retirada das águas por trabalhadores.
Negra.
Popular.
Depois reconstruída e transformada, ao longo dos séculos, em símbolo nacional.
Talvez o Brasil também seja um pouco assim: fragmentado, contraditório, construído por mãos que muitas vezes permaneceram invisíveis e permanentemente disputado por aqueles que desejam decidir qual versão de nossa história merece sobreviver.
Por isso, quando atacam Aparecida, não vejo necessariamente apenas um ataque a uma santa.
Dependendo da forma e da intenção política desses ataques, vejo uma disputa sobre memória, identidade, religião e poder.
E é justamente por não desejar um Estado católico que também não desejo um Estado evangélico.
Quero um Estado laico.
Um Estado suficientemente laico para permitir que um católico caminhe quilômetros até Aparecida carregando sua promessa; que um evangélico diga que não acredita na intercessão dos santos; que alguém toque seu atabaque para um orixá; e que outra pessoa simplesmente não acredite em nenhuma divindade.
Todos brasileiros.
Nenhum deles menos brasileiro por causa disso.
Talvez essa seja a resposta democrática mais poderosa ao fundamentalismo: não substituir uma hegemonia religiosa por outra, mas construir um país em que ninguém precise destruir o símbolo do outro para afirmar a própria existência.
Afinal, o Brasil não cabe dentro de uma única igreja.
E nenhuma igreja, por maior que seja, pode reivindicar para si o direito exclusivo de dizer o que é o Brasil.
Francisco José Mesquita Bezerra
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