Quando a memória deixa de proteger: do Holocausto à tragédia palestina
Ler A Indústria do Holocausto: Reflexões sobre a Exploração do Sofrimento Judaico, de Norman G. Finkelstein, é entrar em um terreno no qual qualquer palavra precisa ser cuidadosamente pensada. Não porque o Holocausto deva ser colocado fora da crítica histórica, nenhuma experiência humana deveria estar, mas porque estamos diante de uma das maiores catástrofes produzidas pelo homem moderno. Aproximadamente seis milhões de judeus foram assassinados pelo regime nazista e seus colaboradores. Antes de discutir os usos políticos dessa memória, portanto, considero indispensável reconhecer a dimensão incomensurável do crime que lhe deu origem.
É justamente dessa distinção que parte minha leitura de Finkelstein. Filho de sobreviventes judeus do Holocausto, ele não nega a Shoah nem diminui sua gravidade. Sua provocação consiste em separar aquilo que aconteceu historicamente daquilo que chama, de maneira deliberadamente controversa, de “indústria do Holocausto”: um conjunto de instituições, discursos, interesses políticos e reivindicações materiais que, segundo sua interpretação, teria transformado progressivamente a memória do sofrimento judaico em instrumento de poder.
Essa é uma tese incômoda. E talvez deva permanecer incômoda.
Finkelstein obriga o leitor a fazer uma pergunta que considero legítima para qualquer memória histórica: quem administra a memória dos mortos? Quem pode falar em seu nome? Quem determina quais sofrimentos devem ocupar o centro da consciência pública e quais permanecerão nas margens?
Ao mesmo tempo, não considero que suas teses devam ser recebidas sem contestação. O próprio conceito de “indústria do Holocausto” corre o risco de produzir generalizações excessivas. Instituições dedicadas à memória da Shoah não formam necessariamente um bloco homogêneo, e reivindicações de sobreviventes por reparação não podem ser confundidas automaticamente com exploração econômica do sofrimento. Além disso, críticas ao Estado de Israel precisam ser cuidadosamente separadas de generalizações sobre judeus, judaísmo ou comunidades judaicas espalhadas pelo mundo. Antissemitismo é uma realidade histórica e contemporânea, e combatê-lo continua sendo uma obrigação ética.
Mas justamente porque levo o Holocausto a sério, não consigo aceitar que sua memória seja utilizada para estabelecer uma espécie de imunidade moral para qualquer Estado.
É nesse ponto que minha leitura do livro inevitavelmente encontra a Palestina.
Depois de 7 de outubro de 2023, quando o Hamas e outros grupos armados palestinos atacaram Israel, mataram civis e fizeram reféns, crimes que não considero justificáveis pela ocupação ou pelo sofrimento histórico palestino, a resposta militar israelense produziu uma devastação extraordinária na Faixa de Gaza. Mortes em massa, destruição de bairros, hospitais, escolas e infraestrutura civil, deslocamentos sucessivos, fome e restrições à ajuda humanitária passaram a fazer parte da experiência cotidiana da população palestina.
É nesse contexto que a palavra “genocídio” deixou de aparecer apenas como palavra de ordem política. Ela entrou formalmente no campo do direito internacional. A África do Sul levou Israel à Corte Internacional de Justiça sob a Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio. A Corte determinou medidas provisórias, mas essas decisões não equivaleram a uma sentença definitiva declarando Israel culpado de genocídio. Paralelamente, especialistas, organizações de direitos humanos e estudiosos passaram a empregar o termo genocídio para caracterizar a violência contra os palestinos, enquanto Israel rejeita essa acusação e afirma que conduz uma guerra contra o Hamas, e não contra o povo palestino.
Para mim, essa distinção jurídica importa. Mas ela não pode servir para tornar abstrato o sofrimento concreto.
Quando olho para Gaza, não vejo números. Vejo pessoas. Crianças. Famílias. Pessoas amputadas. Pessoas procurando parentes debaixo dos escombros. Gente obrigada a abandonar repetidamente o lugar onde havia procurado abrigo. Vejo uma população submetida a uma destruição que exige julgamento moral, político e jurídico independentemente das disputas terminológicas que ainda ocorrerão durante muitos anos.
É precisamente aqui que Finkelstein me provoca de maneira mais profunda.
A memória do Holocausto deveria funcionar como patrimônio ético contra a desumanização. “Nunca mais”, para mim, só possui força moral se ultrapassar qualquer fronteira étnica, religiosa ou nacional. Se significar “nunca mais somente conosco”, transforma-se em memória particular. Se significar “nunca mais com ninguém”, transforma-se em princípio universal.
E universalizar a memória do Holocausto não significa comparar mecanicamente Gaza a Auschwitz, nem equiparar Israel à Alemanha nazista. Considero essas analogias historicamente inadequadas e muitas vezes intelectualmente empobrecedoras. Cada processo histórico possui estruturas, agentes, ideologias e circunstâncias próprias. Não preciso transformar Netanyahu em Hitler, Gaza em Auschwitz ou os palestinos nos judeus europeus dos anos 1940 para reconhecer uma catástrofe humana diante de mim.
Essa necessidade compulsiva de encontrar equivalências talvez revele nossa dificuldade de reconhecer a violência quando ela assume uma forma nova.
O ensinamento mais profundo de Auschwitz não deveria ser procurar novos nazistas idênticos aos antigos. Deveria ser aprender a reconhecer os mecanismos pelos quais seres humanos deixam de ser percebidos como seres humanos: a classificação coletiva do inimigo, a naturalização da morte civil, a linguagem que transforma populações inteiras em ameaça, a indiferença diante da fome, o deslocamento forçado e a transformação de cadáveres em estatística.
É aí que a questão palestina atravessa minha leitura de Finkelstein.
Pergunto-me por que determinados sofrimentos mobilizam imediatamente nossa capacidade de identificação enquanto outros precisam primeiro provar que são dignos dela. Uma criança israelense assassinada é uma criança. Uma criança palestina assassinada também é uma criança. Parece uma afirmação banal. Entretanto, em tempos de guerra e nacionalismo, reconhecer essa igualdade elementar pode tornar-se uma afirmação radical.
Não quero uma memória do Holocausto enfraquecida. Quero exatamente o contrário: quero uma memória tão poderosa que seja capaz de impedir nossa indiferença diante de outros povos.
Por isso, considero perigosa tanto a instrumentalização da Shoah para justificar políticas do Estado de Israel quanto sua instrumentalização inversa para alimentar o antissemitismo. Judeus do mundo inteiro não são responsáveis pelas decisões de um governo israelense. Da mesma maneira, palestinos não podem ser responsabilizados coletivamente pelos crimes do Hamas. A responsabilidade política e criminal deve permanecer individualizada. Quando transformamos povos inteiros em culpados, já começamos a reproduzir a lógica da desumanização que dizemos combater.
Há ainda uma questão que me incomoda profundamente: a competição entre vítimas.
Não deveria ser necessário diminuir o sofrimento judaico para reconhecer o sofrimento palestino. Tampouco deveria ser necessário silenciar o sofrimento palestino para proteger a memória judaica. Essa escolha é falsa. Posso reconhecer simultaneamente Auschwitz e Gaza; o massacre de judeus e o sofrimento palestino; o antissemitismo e a islamofobia; os crimes cometidos pelo Hamas e os atos do Estado israelense que são objeto de graves acusações no direito internacional.
Talvez uma das consequências mais perversas da política contemporânea seja justamente obrigar as pessoas a escolher quais cadáveres merecem sua compaixão.
Eu me recuso a fazer essa escolha.
A leitura de Finkelstein também me faz pensar sobre a transformação da memória em capital político. Estados constroem narrativas sobre seus traumas fundadores. Essas narrativas produzem identidade, legitimidade e coesão social. Isso acontece em muitos países. O problema começa quando o sofrimento histórico deixa de ser lembrado para impedir novas injustiças e passa a funcionar como argumento para tornar determinadas ações presentes imunes ao questionamento.
Nenhum sofrimento passado concede autorização ilimitada para produzir sofrimento no presente.
Essa talvez seja a conclusão mais perturbadora que retiro de A Indústria do Holocausto. A vítima de ontem não possui, por ter sido vítima, uma essência moral que determine eternamente suas ações futuras. Povos não são ontologicamente vítimas nem algozes. Estados, governos, exércitos, organizações e indivíduos fazem escolhas históricas concretas e precisam responder por elas.
A memória, portanto, não pode substituir a ética.
Talvez seja exatamente isso que esteja em disputa quando pronunciamos “Nunca mais”. Há duas possibilidades escondidas nessas palavras. Podemos transformar o Holocausto em uma tragédia exclusivamente judaica, cercá-la de excepcionalidade absoluta e construir ao redor dela uma memória defensiva. Ou podemos reconhecer sua singularidade histórica e, simultaneamente, retirar dela uma obrigação universal: nunca mais aceitar a desumanização sistemática de um povo.
Prefiro a segunda possibilidade.
Quero preservar a memória dos judeus assassinados na Europa justamente para que essa memória amplie, e não diminua, minha capacidade de reconhecer outras vítimas. Quero lembrar Auschwitz sem instrumentalizá-lo. Quero combater o antissemitismo sem silenciar a Palestina. Quero condenar o massacre de civis israelenses sem transformar essa condenação em autorização para a devastação de Gaza. Quero reconhecer o sofrimento palestino sem transformar judeus em culpados coletivos.
E quero que a palavra genocídio jamais se transforme em propriedade exclusiva de nenhuma memória.
Se existe alguma herança verdadeiramente universal que podemos retirar da catástrofe do Holocausto, talvez seja esta: nenhuma identidade, nenhuma fronteira, nenhum trauma histórico, nenhuma razão de Estado e nenhuma guerra podem retirar de outro ser humano sua condição humana.
Depois de Finkelstein, a pergunta que permanece comigo não é apenas o que fizemos com a memória do Holocausto.
É algo muito mais difícil:
o que a memória do Holocausto está fazendo conosco quando somos confrontados com o sofrimento dos palestinos?
Se diante das ruínas de Gaza somos capazes de reconhecer seres humanos antes de reconhecer inimigos, a memória ainda possui potência ética.
Se não somos, talvez tenhamos construído monumentos demais e aprendido de menos.
Francisco José Mesquita Bezerra
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