Quando não ouvimos a música do outro
“Aqueles que dançavam foram julgados insanos por aqueles que não ouviam a música.”
Há frases que sobrevivem porque condensam numa imagem algo profundamente humano. Independentemente das atribuições que circulam sobre sua autoria, gosto dessa frase porque ela me obriga a fazer uma pergunta incômoda: quantas vezes chamei de absurdo aquilo cuja música eu simplesmente não conseguia ouvir?
A imagem é simples. Algumas pessoas dançam. Outras observam. Para quem dança, existe ritmo, sentido, intensidade, talvez alegria, desejo ou êxtase. Para quem está de fora e não escuta a música, porém, existem apenas corpos executando movimentos aparentemente inexplicáveis. É justamente nessa distância entre a experiência daquele que dança e o olhar daquele que observa que nasce o julgamento.
Isso me faz pensar que aquilo que chamamos de normalidade nunca é completamente neutro. Toda sociedade constrói expectativas sobre como devemos falar, desejar, trabalhar, amar, vestir, produzir, envelhecer e até sofrer. Existem comportamentos que rapidamente reconhecemos como aceitáveis e outros que despertam estranhamento. O problema começa quando transformamos nossa incapacidade de compreender uma experiência em prova de que aquela experiência não possui sentido.
Aquilo que não compreendo torna-se estranho. O estranho pode tornar-se ameaçador. E aquilo que ameaça a ordem estabelecida facilmente recebe um nome capaz de domesticá-lo: loucura, desvio, inadequação, excentricidade, imoralidade.
A frase, portanto, me faz pensar menos sobre a loucura e mais sobre o poder de quem determina quem é louco.
Michel Foucault mostrou, em suas investigações sobre a história da loucura, que as fronteiras entre razão e desrazão não podem ser compreendidas apenas como fenômenos naturais e imutáveis. Existem instituições, discursos e relações de poder participando da definição daquilo que cada sociedade considera normal ou anormal. Isso não significa negar a existência do sofrimento psíquico ou dos transtornos mentais. Significa reconhecer que nenhuma sociedade olha para a diferença de maneira completamente inocente.
Há uma diferença fundamental entre reconhecer sofrimento e transformar diferença em patologia.
Essa distinção me parece ainda mais necessária em uma época obcecada pela adaptação. Vivemos sob uma lógica que valoriza produtividade, desempenho, velocidade, disponibilidade e capacidade permanente de competir. O indivíduo considerado funcional é frequentemente aquele que consegue continuar produzindo apesar do cansaço, da angústia e da precariedade. Curiosamente, às vezes aquilo que chamamos de equilíbrio significa apenas capacidade de adaptação a condições profundamente desequilibradas.
Nesse contexto, talvez algumas pessoas estejam dançando porque se recusaram a marchar.
E dançar é diferente de marchar.
A marcha exige sincronização, disciplina e direção previamente estabelecida. A dança admite improvisação, criação e singularidade. Quem marcha pergunta qual é o próximo passo. Quem dança pode inventá-lo.
É justamente aí que encontro a dimensão política dessa frase.
Toda sociedade precisa estabelecer algumas normas para tornar possível a convivência. Mas uma sociedade torna-se perigosa quando confunde norma com verdade absoluta. Quando existe apenas uma música autorizada, qualquer outro ritmo passa a parecer ruído.
Isso aconteceu repetidamente ao longo da história com artistas, mulheres que recusaram papéis sociais impostos, dissidentes políticos, minorias sexuais, povos colonizados e indivíduos cujas formas de existência desafiaram os padrões dominantes. Muitas vezes, antes de uma diferença conquistar o direito de existir, ela precisou atravessar um período em que foi tratada como desvio.
Mas também vejo um perigo na leitura romântica da frase. Nem todo comportamento incompreendido é necessariamente genial, libertador ou revolucionário. Nem toda pessoa considerada estranha está simplesmente “ouvindo uma música que os outros não conseguem ouvir”. O sofrimento psíquico existe, assim como existem situações em que alguém precisa de cuidado, proteção e tratamento.
Por isso, não utilizaria essa frase para romantizar a loucura.
Utilizaria para questionar a arrogância da normalidade.
Há uma diferença enorme entre dizer “não consigo compreender o que você está vivendo” e afirmar “aquilo que você vive não possui sentido”. A primeira frase reconhece os limites da minha compreensão. A segunda transforma meus limites em medida para julgar o outro.
A psicanálise também me ajuda a aprofundar essa questão. Freud abalou a confiança moderna em um sujeito completamente racional ao mostrar que não somos senhores absolutos de nossa própria casa. Desejos inconscientes, fantasias, conflitos, sintomas e repetições atravessam nossas escolhas. Às vezes, nem mesmo aquele que dança conhece inteiramente a música que o faz dançar.
Talvez seja justamente por isso que o encontro com o diferente seja tão perturbador. O outro pode revelar possibilidades que preferíamos manter reprimidas em nós mesmos. Sua liberdade pode incomodar minha obediência. Sua criatividade pode evidenciar meu conformismo. Sua coragem pode colocar em questão minhas renúncias.
Nesse sentido, algumas condenações morais dizem tanto sobre quem observa quanto sobre quem é observado.
Quando vejo alguém dançando fora do ritmo que conheço, tenho pelo menos duas possibilidades. Posso julgá-lo imediatamente ou posso perguntar: que música essa pessoa está ouvindo?
Essa pergunta muda tudo.
Ela não exige que eu concorde com o outro. Compreender não significa aprovar. Significa reconhecer que existe uma história, uma experiência e uma perspectiva que talvez eu ainda não conheça.
Penso também nas crianças. Winnicott compreendeu profundamente a importância do brincar como território da criatividade. Uma criança pega uma caixa de papelão e transforma-a em nave, casa ou castelo. O adulto vê uma caixa. A criança vê um mundo. Se o adulto fosse incapaz de reconhecer a experiência do brincar, talvez considerasse absurdo alguém conversar com um pedaço de papelão. Mas é justamente nesse espaço intermediário entre realidade e imaginação que se desenvolvem dimensões fundamentais da criatividade humana.
Talvez continuemos fazendo isso durante toda a vida.
Criamos músicas invisíveis para suportar a existência.
Amamos pessoas que outros não compreendem. Escolhemos profissões que familiares consideram inadequadas. Defendemos ideias que nossa época ridiculariza. Produzimos arte que inicialmente ninguém entende. Mudamos de caminho quando todos esperavam que continuássemos em linha reta.
Algumas dessas escolhas serão equivocadas. Outras serão transformadoras. Só o tempo poderá revelar parte disso.
Por isso, essa frase me ensina uma ética da humildade diante da diferença.
Antes de chamar alguém de estranho, preciso perguntar quais são os parâmetros pelos quais estou julgando sua estranheza. Antes de considerar determinado comportamento absurdo, preciso perguntar se possuo elementos suficientes para compreendê-lo. Antes de transformar diferença em doença, preciso distinguir sofrimento de simples inadequação às expectativas sociais.
E há ainda uma pergunta mais desconfortável: quantas vezes deixamos de dançar porque tivemos medo daqueles que não ouviam nossa música?
Talvez essa seja a violência mais silenciosa da normalização. Não é necessário proibir explicitamente uma pessoa de existir de determinada maneira. Às vezes basta ridicularizá-la repetidamente até que ela própria comece a vigiar seus movimentos.
Então paramos de dançar.
Adequamos o corpo.
Diminuímos a voz.
Escondemos desejos.
Abandonamos projetos.
E, finalmente, conseguimos parecer normais aos olhos daqueles que nunca escutaram nossa música.
Não quero transformar toda transgressão em virtude nem toda normalidade em opressão. Quero preservar algo mais simples e talvez mais difícil: a possibilidade de reconhecer que o mundo é maior do que aquilo que consigo compreender.
Hoje, quando encontro alguém dançando uma música que não escuto, tento resistir à tentação de concluir imediatamente que seus movimentos não fazem sentido.
Talvez sejam realmente confusos.
Talvez expressem sofrimento.
Talvez sejam apenas diferentes.
Ou talvez exista ali uma música que meus ouvidos ainda não aprenderam a escutar.
E talvez amadurecer seja também compreender que nem sempre precisamos dançar a mesma música para compartilhar a mesma pista.
Francisco José Mesquita Bezerra
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