Sete virtudes que todo analista precisa cultivar
Quando penso nas qualidades necessárias a um analista, procuro evitar a palavra “virtude” no sentido moralista. O analista não é alguém moralmente superior, mais equilibrado ou mais esclarecido do que aquele que chega ao consultório. A psicanálise, aliás, deveria nos tornar desconfiados dessa fantasia. O analista também é atravessado pelo inconsciente, pelo desejo, pelo narcisismo, pelas próprias feridas e pontos cegos.
Por isso, quando falo em virtudes analíticas, penso menos em características que alguém possui definitivamente e mais em disposições que precisam ser continuamente cultivadas. Algumas delas não são aprendidas apenas nos livros. São construídas na análise pessoal, na supervisão, na experiência clínica e, principalmente, no confronto com aquilo que cada paciente desperta em nós.
Para mim, sete delas são fundamentais.
1. Saber escutar sem ter pressa de compreender
Talvez a primeira virtude seja justamente a mais óbvia e a mais difícil: escutar.
Freud propôs a atenção flutuante como contraponto à tendência de selecionar antecipadamente aquilo que julgamos importante. Isso significa que a escuta analítica não pode funcionar como uma caça ao diagnóstico ou como uma investigação policial do inconsciente.
Há uma violência sutil quando o analista acredita compreender o paciente cedo demais.
Uma interpretação pode até estar teoricamente correta e, ainda assim, ser clinicamente inadequada. Pode chegar antes que o paciente tenha condições de recebê-la. Pode satisfazer mais o narcisismo intelectual do analista do que favorecer o processo analítico.
Aprendo, então, que escutar é também suportar não saber.
O silêncio do analista não deveria significar indiferença. Deveria significar disponibilidade para que algo ainda não formulado possa surgir.
2. Humildade diante do inconsciente
A segunda virtude é a humildade.
Nenhum diploma, formação ou quantidade de livros coloca alguém acima do inconsciente. O analista não ocupa uma posição externa àquilo que estuda. Ele também sonha, recalca, deseja, fantasia, repete e resiste.
Isso me parece fundamental porque existe sempre o risco de transformar o saber psicanalítico em poder.
Quando isso acontece, conceitos como transferência, resistência, narcisismo, perversão, histeria ou obsessão deixam de ser instrumentos de compreensão e passam a funcionar como rótulos capazes de silenciar o outro.
A humildade analítica começa quando reconheço que uma hipótese é apenas uma hipótese.
O paciente pode surpreender minha teoria.
E, quando isso acontece, não deveria ser o paciente a caber à força na teoria. É minha escuta que precisa se movimentar.
3. Capacidade de suportar o silêncio
Vivemos numa sociedade que parece ter horror ao vazio. Precisamos preencher tudo: o tempo, as telas, as conversas, os intervalos.
Na clínica, entretanto, o silêncio pode ser linguagem.
Existem silêncios de resistência, angústia, elaboração, hostilidade, vergonha, confiança, medo e descoberta. Não existe “o silêncio” como fenômeno único.
Por isso, considero essencial que o analista aprenda a permanecer diante dele sem imediatamente preenchê-lo.
Às vezes, interpretar rapidamente é uma maneira de o próprio analista escapar da angústia provocada pela sessão.
Pergunto-me então: quando falo, estou ajudando o paciente ou estou tentando aliviar minha própria ansiedade?
Nem todo silêncio precisa ser quebrado.
Alguns precisam ser habitados.
4. Curiosidade sem voyeurismo
A clínica exige curiosidade. Mas existe uma fronteira ética delicada entre curiosidade clínica e voyeurismo.
O paciente fala de sexualidade, fantasias, traumas, violência, culpa, vergonha, desejos e contradições. São regiões profundamente íntimas da experiência humana.
Nem tudo precisa ser perguntado simplesmente porque pode ser perguntado.
Essa distinção me parece especialmente importante porque a posição analítica concede certo poder. O paciente pode acreditar que precisa responder porque “isso faz parte da análise”.
A pergunta que faço a mim mesmo deveria ser: por que preciso saber disso?
Se não consigo encontrar uma justificativa clínica consistente, talvez seja melhor não perguntar.
A curiosidade analítica deve estar a serviço da elaboração do outro, e não da satisfação da curiosidade do analista.
5. Capacidade de reconhecer a própria contratransferência
Há pacientes que despertam ternura. Outros irritação. Alguns provocam sono, impaciência, admiração, desejo de proteção, medo ou fascínio.
Negar essas reações não torna o analista mais neutro.
Apenas o torna menos consciente delas.
Por isso, considero fundamental aprender a reconhecer aquilo que acontece dentro de mim durante o encontro clínico.
Mas há uma diferença decisiva entre sentir e agir.
A contratransferência pode se transformar em instrumento precioso quando pensada, elaborada e, quando necessário, levada à supervisão. Torna-se perigosa quando é simplesmente descarregada sobre o paciente.
O problema não é o analista sentir.
O problema começa quando ele transforma seus sentimentos em verdade absoluta sobre o outro.
6. Coragem para encontrar aquilo que incomoda
A clínica não deveria ser apenas o lugar da confirmação.
Existem momentos em que será necessário aproximar-se de repetições dolorosas, contradições, defesas e formas de sofrimento das quais o próprio sujeito participa.
Mas confronto não significa brutalidade.
Existe uma diferença enorme entre interpretar e humilhar.
Uma análise que apenas conforta corre o risco de transformar-se em aconselhamento complacente. Uma análise que apenas confronta pode tornar-se exercício de poder.
A coragem clínica está justamente nessa tensão: não abandonar o sujeito diante daquilo que dói, mas também não protegê-lo permanentemente da possibilidade de encontrar aquilo que sua própria fala revela.
Às vezes, a pergunta mais importante não é “quem fez isso comigo?”, mas também: “o que tenho feito com aquilo que fizeram comigo?”.
É nesse deslocamento que pode surgir alguma responsabilidade subjetiva sem transformar sofrimento em culpa.
7. Capacidade de renunciar ao desejo de salvar
Talvez esta seja, para mim, uma das virtudes mais difíceis.
Quem trabalha com sofrimento humano pode facilmente desenvolver a fantasia de salvar.
Queremos que determinada pessoa abandone uma relação destrutiva, deixe um comportamento repetitivo, faça determinada escolha, reconheça aquilo que nos parece evidente.
Mas a análise não pode transformar-se no projeto de vida do analista para o paciente.
Há algo profundamente narcísico na fantasia de salvação: imaginar que sabemos antecipadamente qual vida seria melhor para o outro.
Isso não significa indiferença diante do sofrimento. Significa reconhecer os limites de nossa posição.
O analista acompanha, interpreta, pergunta, sustenta, confronta e oferece condições para elaboração. Mas não deveria sequestrar do sujeito a autoria de sua própria existência.
Uma oitava virtude escondida nas outras sete
Quanto mais penso nessas sete virtudes, mais percebo que existe uma oitava atravessando todas elas: a capacidade de continuar analisando a si mesmo.
Talvez seja perigoso o momento em que um analista passa a acreditar que sua análise terminou no sentido absoluto, que conhece suficientemente suas próprias questões ou que sua experiência clínica o tornou imune aos próprios pontos cegos.
Não tornou.
O inconsciente não concede diploma de conclusão.
É justamente por isso que análise pessoal, supervisão e estudo permanente não deveriam ser entendidos apenas como etapas burocráticas de uma formação. São formas de colocar algum limite ao narcisismo daquele que ocupa a posição de escuta.
No fundo, considero que a qualidade de um analista não se mede apenas pela quantidade de conceitos que domina, mas pela maneira como consegue permanecer diante de outro ser humano sem reduzi-lo ao que já sabe.
Um analista precisa conhecer Freud, mas também precisa reconhecer quando Freud não basta. Precisa conhecer teorias, mas suportar aquilo que escapa às teorias. Precisa interpretar, mas também saber calar. Precisa aproximar-se, mas reconhecer limites. Precisa envolver-se suficientemente para escutar e distanciar-se suficientemente para não transformar a análise numa relação organizada pelas próprias necessidades.
Talvez a maior virtude analítica seja justamente esta: conservar a capacidade de ser surpreendido pelo outro.
Porque, quando deixo de me surpreender, talvez já não esteja realmente escutando.
Estou apenas encontrando no paciente aquilo que minha teoria já havia decidido encontrar.
Francisco José Mesquita Bezerra
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