A profecia e as vozes que o mundo insiste em silenciar: reflexões sobre A profecia, de Dali Balla Fofana

 Há livros que nos convidam a olhar para o futuro, enquanto outros nos obrigam a interrogar o passado. Para mim, a ideia de profecia, evocada na obra A profecia, de Dali Balla Fofana, abre uma possibilidade de reflexão sobre a memória, a ancestralidade, o destino e as contradições de uma humanidade que, apesar de tantos avanços científicos e tecnológicos, continua reproduzindo antigas formas de dominação.

A primeira pergunta que me faço é: o que significa uma profecia em uma sociedade que acredita controlar o futuro, mas demonstra tão pouca capacidade de compreender o próprio presente?

Vivemos sob a promessa permanente do progresso. A tecnologia nos oferece instrumentos capazes de antecipar comportamentos, calcular probabilidades e projetar cenários. Os algoritmos pretendem conhecer nossos desejos antes mesmo de conseguirmos formulá-los. Entretanto, quanto mais sofisticados se tornam os mecanismos de previsão, mais evidente parece nossa dificuldade de construir coletivamente um futuro justo.

Talvez a grande contradição da modernidade esteja justamente nisso: aprendemos a prever muitas coisas, mas ainda não aprendemos suficientemente a cuidar uns dos outros.

A palavra profecia também me conduz à relação entre conhecimento e poder. Ao longo da história, determinadas sociedades foram autorizadas a produzir aquilo que se convencionou chamar de conhecimento universal, enquanto outras tiveram seus saberes classificados como superstição, folclore ou pensamento primitivo.

Essa hierarquização não aconteceu por acaso. Ela esteve profundamente relacionada ao colonialismo, à escravidão e à construção de uma ideia de civilização que colocava a Europa no centro da experiência humana.

Ao pensar nas tradições africanas e nas diferentes formas de transmissão da memória, considero indispensável questionar essa violência epistemológica. Quantas histórias foram silenciadas porque não correspondiam aos critérios estabelecidos pelos colonizadores? Quantos conhecimentos foram desqualificados porque eram transmitidos oralmente? Quantas experiências humanas permaneceram invisíveis porque seus protagonistas não tinham o poder de escrever a história oficial?

O filósofo camaronês Achille Mbembe nos ajuda a compreender como o colonialismo não se limitou à ocupação territorial e à exploração econômica. Ele também produziu maneiras de classificar, representar e subordinar populações. A colonização atingiu os corpos, os territórios, as linguagens e as possibilidades de existência.

Nesse sentido, recuperar a memória não significa simplesmente retornar ao passado. Significa disputar o direito de interpretar o presente.

É justamente nessa relação entre passado e futuro que encontro uma das possibilidades mais fecundas de pensar a profecia. Ela pode ser compreendida não apenas como anúncio de acontecimentos, mas como expressão de uma memória que exige reconhecimento.

Aquilo que uma sociedade se recusa a enfrentar frequentemente retorna sob outras formas.

A violência colonial não desaparece automaticamente com a independência política. Ela pode permanecer nas desigualdades econômicas, no racismo estrutural, na concentração da propriedade, na desvalorização das culturas tradicionais e nas relações internacionais de dependência.

No Brasil, essa realidade é particularmente evidente. Somos uma sociedade profundamente marcada pela presença africana, mas historicamente organizada sobre mecanismos de exclusão da população negra. Nossa música, nossa culinária, nossas manifestações religiosas, nossa linguagem e inúmeras expressões culturais carregam heranças africanas, enquanto persistem desigualdades raciais no acesso à renda, à educação, à terra e ao poder político.

Essa contradição me parece uma das grandes tragédias brasileiras: celebramos manifestações culturais de origem africana, mas nem sempre reconhecemos plenamente a dignidade e os direitos daqueles que preservam e recriam essas tradições.

A ancestralidade, portanto, não deveria ser transformada em uma imagem romântica e imóvel do passado. Ela é uma experiência viva, atravessada por conflitos, mudanças e disputas. Nenhuma cultura permanece intacta ao longo do tempo, e nenhuma tradição está acima da crítica.

Reconhecer os saberes ancestrais não significa abandonar a razão científica. Significa recusar a arrogância de imaginar que existe apenas uma maneira legítima de compreender o mundo.

Essa reflexão me aproxima do pensamento de Boaventura de Sousa Santos e de sua proposta de uma ecologia de saberes. Embora eu reconheça que diferentes conhecimentos possuem métodos e critérios distintos de validação, considero fundamental combater a ideia de que determinadas populações são incapazes de produzir interpretações relevantes sobre a realidade.

Também encontro na psicologia e na psicanálise instrumentos importantes para refletir sobre a relação entre profecia, memória e repetição.

Freud demonstrou que o sujeito não é inteiramente senhor de sua própria consciência. Somos atravessados por desejos, conflitos e experiências que nem sempre conseguimos reconhecer. Aquilo que não foi elaborado pode reaparecer sob a forma de repetição.

Não considero adequado transportar mecanicamente conceitos clínicos para explicar sociedades inteiras. Entretanto, a noção de repetição oferece uma metáfora poderosa para pensar a história.

Quantas vezes a humanidade reproduziu violências que afirmava ter superado? Quantas vezes discursos de liberdade serviram para justificar novas formas de submissão? Quantas vezes a promessa de uma sociedade melhor terminou legitimando a exploração de determinados grupos?

Parece-me que uma das tarefas mais difíceis da existência humana consiste em reconhecer aquilo que repetimos sem perceber.

A profecia, nessa perspectiva, deixa de representar um destino inevitável e passa a funcionar como advertência.

Não somos obrigados a reproduzir eternamente as mesmas estruturas. Mas também não podemos transformá-las enquanto permanecermos incapazes de reconhecê-las.

Essa questão me conduz ao pensamento de Frantz Fanon, especialmente à sua crítica da alienação colonial. Fanon compreendeu que a libertação não poderia se limitar à substituição dos administradores coloniais por governantes nacionais. Seria necessário transformar as relações sociais, econômicas e subjetivas que sustentavam a dominação.

A liberdade exige mais do que a mudança de quem exerce o poder. Exige transformar as condições que permitem a existência de relações de opressão.

Vejo nessa reflexão uma dimensão profundamente atual.

O capitalismo contemporâneo conseguiu transformar quase tudo em mercadoria, inclusive experiências culturais, identidades e manifestações de resistência. Aquilo que nasce como expressão coletiva pode ser apropriado pelo mercado, esvaziado de seu significado político e devolvido à sociedade como produto de consumo.

Até mesmo a ancestralidade corre o risco de ser convertida em estética, enquanto as comunidades que preservam determinados conhecimentos continuam enfrentando a pobreza, o racismo e a expropriação de seus territórios.

Por isso, considero insuficiente defender a diversidade cultural sem discutir a distribuição da riqueza e do poder.

Não existe reconhecimento verdadeiramente emancipador quando ele convive passivamente com a exploração.

Outra questão que me inquieta é a relação entre profecia e liberdade.

Se o futuro já estivesse inteiramente determinado, qual seria o sentido da ação humana? Por que lutar contra as injustiças se tudo estivesse previamente escrito?

Prefiro compreender o futuro como um campo de possibilidades, condicionado pela história, mas não absolutamente aprisionado por ela.

Essa perspectiva encontra ressonância na filosofia existencialista, particularmente na compreensão de que a existência humana envolve escolhas e responsabilidades, ainda que realizadas dentro de circunstâncias que não escolhemos.

Não acredito em uma liberdade abstrata, desligada das condições materiais. Um indivíduo submetido à fome, à violência e à ausência de oportunidades não dispõe das mesmas possibilidades de escolha que alguém economicamente privilegiado.

A liberdade precisa ser pensada também como construção social.

Nesse ponto, minha reflexão se aproxima de Paulo Freire. Sua pedagogia nos ensina que a transformação da realidade depende da capacidade de compreender criticamente o mundo e agir sobre ele. A esperança, nessa perspectiva, não é uma espera passiva por acontecimentos favoráveis. Ela precisa estar vinculada à prática.

Talvez seja justamente essa a profecia que mais me interessa: não aquela que anuncia inevitabilidades, mas aquela que desperta responsabilidades.

Uma sociedade não se transforma apenas porque deseja um futuro diferente. Ela precisa construir as condições materiais, políticas e culturais para que esse futuro seja possível.

Isso exige enfrentar o racismo, ampliar o acesso à educação, democratizar a produção do conhecimento, proteger os territórios tradicionais e reconhecer o protagonismo dos povos historicamente marginalizados.

Exige também repensar nossa relação com a natureza.

As crises ambientais contemporâneas demonstram os limites de uma concepção de desenvolvimento baseada na exploração ilimitada dos recursos naturais. A destruição das florestas, a contaminação das águas e as mudanças climáticas não representam acidentes isolados. São consequências de escolhas econômicas e políticas.

Ao mesmo tempo, povos indígenas, comunidades quilombolas e outras populações tradicionais frequentemente desenvolvem formas de relação com o território que desafiam a lógica da natureza concebida exclusivamente como mercadoria.

Não se trata de idealizar essas comunidades, mas de reconhecer que suas experiências podem contribuir para uma reflexão mais ampla sobre os limites do modelo civilizatório dominante.

Talvez uma das profecias mais urgentes de nosso tempo esteja sendo anunciada não por vozes sobrenaturais, mas pelos próprios sinais de esgotamento do planeta.

E, paradoxalmente, apesar de todas as informações disponíveis, continuamos agindo como se pudéssemos negociar indefinidamente com as consequências de nossas escolhas.

Ao refletir sobre A profecia, também penso na importância da literatura como espaço de resistência à simplificação da experiência humana.

A literatura não precisa oferecer respostas definitivas. Sua potência está, muitas vezes, em produzir inquietações, deslocar certezas e permitir que imaginemos outras possibilidades de existência.

Em um mundo dominado pela velocidade das informações e pela exigência permanente de produtividade, a leitura pode representar um gesto de resistência. Ler é interromper, ainda que temporariamente, a lógica da urgência. É aceitar a complexidade da experiência humana e reconhecer que nem tudo pode ser reduzido a números, estatísticas ou resultados imediatos.

A literatura também nos permite encontrar experiências diferentes das nossas sem transformá-las imediatamente em objetos de julgamento.

Isso não significa abandonar a crítica. Pelo contrário, significa exercê-la com maior profundidade.

Ao final dessas reflexões, permaneço convencido de que o futuro não deve ser tratado como uma sentença. A história não é uma linha reta conduzindo inevitavelmente ao progresso, tampouco uma repetição interminável das mesmas tragédias.

Ela é construída por sujeitos concretos, atravessados por relações de poder, contradições e possibilidades de transformação.

Se existe uma profecia que considero necessária, é a de que nenhuma sociedade poderá alcançar uma existência verdadeiramente democrática enquanto continuar tratando parte da humanidade como descartável.

Não haverá futuro justo enquanto a riqueza produzida coletivamente permanecer concentrada nas mãos de poucos. Não haverá emancipação enquanto o racismo, o colonialismo e suas permanências continuarem determinando quais vidas merecem proteção e quais podem ser sacrificadas.

E não haverá liberdade plena enquanto o conhecimento for utilizado prioritariamente como instrumento de dominação, em vez de servir à construção de uma vida comum mais digna.

Para mim, a profecia mais importante não é aquela que pretende revelar o que acontecerá amanhã, mas aquela que nos obriga a perguntar o que estamos fazendo hoje para impedir que as injustiças de ontem continuem governando o amanhã.

O passado não está morto. Ele permanece inscrito nos territórios, nos corpos, nas instituições e nas desigualdades. Mas sua permanência não significa que estejamos condenados a repeti-lo.

Talvez o maior desafio da humanidade seja justamente transformar a memória em consciência, a consciência em ação e a ação em possibilidades de libertação.

Porque o futuro não precisa ser apenas anunciado.

Ele precisa ser disputado, construído e, sobretudo, humanizado.

Considerações finais: entre a profecia e a possibilidade de transformar o destino

Ao concluir esta reflexão inspirada em A profecia, de Dali Balla Fofana, percebo que a questão mais importante não está necessariamente na capacidade de antecipar o futuro, mas na coragem de enfrentar as contradições do presente. Afinal, de que adianta conhecer os perigos que nos aguardam se permanecemos indiferentes às injustiças que nós mesmos ajudamos a reproduzir?

Penso que toda sociedade carrega suas próprias profecias. Algumas estão inscritas nas palavras dos ancestrais; outras, nas feridas deixadas pela violência, pelo colonialismo, pelo racismo e pela exploração. Há também aquelas que se manifestam no silêncio dos que foram historicamente impedidos de falar. São advertências que atravessam gerações e nos lembram que nenhuma civilização pode construir um futuro verdadeiramente humano sobre a negação da dignidade de outros povos.

Não acredito, entretanto, que estejamos condenados a cumprir um destino previamente estabelecido. A história é feita de possibilidades, disputas e escolhas. Mesmo quando as estruturas sociais parecem intransponíveis, a experiência humana demonstra que nenhuma forma de dominação é eterna.

É nesse ponto que encontro o sentido político e existencial mais profundo da ideia de profecia: ela pode ser menos uma sentença sobre o amanhã e mais uma convocação à responsabilidade no presente.

Precisamos recuperar a memória sem transformá-la em prisão, reconhecer a ancestralidade sem idealizá-la e defender o conhecimento sem submetê-lo exclusivamente aos interesses do mercado e do poder. Precisamos compreender que a emancipação humana não será resultado de uma promessa abstrata de progresso, mas de uma construção coletiva fundada na justiça social, na diversidade cultural, na democracia e na solidariedade.

Talvez o maior equívoco de nossa época seja acreditar que o futuro chegará como uma consequência automática dos avanços tecnológicos. Nenhuma inteligência artificial, nenhuma inovação científica e nenhuma promessa de crescimento econômico serão suficientes para produzir uma sociedade justa se continuarmos reproduzindo as mesmas relações de exploração e desigualdade.

O verdadeiro progresso, a meu ver, precisa ser medido pela capacidade de uma sociedade de proteger a vida, reconhecer as diferenças e assegurar condições dignas de existência para todos.

Por isso, termino esta reflexão com uma convicção: não devemos esperar que uma profecia nos salve daquilo que somente nossa ação consciente e coletiva poderá transformar.

O futuro não está inteiramente escrito nas estrelas, nos livros ou nas palavras dos antepassados. Ele também se escreve nas escolas, nas comunidades, nas lutas populares, nos territórios ameaçados, nos movimentos sociais e em cada gesto de resistência contra a desumanização.

Se o passado nos oferece memória e o presente nos impõe responsabilidades, cabe a nós transformar o futuro em possibilidade.

Porque talvez a mais profunda de todas as profecias seja justamente esta: um povo que recupera sua memória, reconhece sua dignidade e toma consciência de sua capacidade de agir deixa de ser apenas personagem da história escrita pelos dominadores e passa a construir sua própria história.

E, nesse instante, a profecia deixa de ser destino para se tornar liberdade.

Francisco José Mesquita Bezerra


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