Entre o palco e o púlpito: quando a arte se encontra com o conservadorismo
Nos últimos anos, tenho assistido com inquietação a um movimento que não é pequeno: artistas e cantores brasileiros declarando apoio ao bolsonarismo ou adotando um discurso conservador fortemente ancorado em linguagem religiosa, muitas vezes evangélica. Não se trata apenas de preferência eleitoral. Trata-se de uma inflexão simbólica que reposiciona trajetórias construídas, muitas vezes, junto a públicos populares e trabalhadores. O que me provoca não é o direito de alguém ter convicções políticas. Esse direito é inegociável. O que me inquieta é a tensão entre discurso e base social. Muitos desses artistas cresceram dialogando com a classe trabalhadora, gente que depende de políticas públicas, de direitos sociais, de acesso à cultura e a serviços básicos. Quando passam a defender agendas que fragilizam esses direitos, a contradição salta aos olhos. Mas será mesmo uma “traição” simples? Ou há algo mais complexo em jogo? Penso que há pelo menos três dimensões que ajudam a ente...