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Mostrando postagens de fevereiro, 2026

Entre o palco e o púlpito: quando a arte se encontra com o conservadorismo

  Nos últimos anos, tenho assistido com inquietação a um movimento que não é pequeno: artistas e cantores brasileiros declarando apoio ao bolsonarismo ou adotando um discurso conservador fortemente ancorado em linguagem religiosa, muitas vezes evangélica. Não se trata apenas de preferência eleitoral. Trata-se de uma inflexão simbólica que reposiciona trajetórias construídas, muitas vezes, junto a públicos populares e trabalhadores. O que me provoca não é o direito de alguém ter convicções políticas. Esse direito é inegociável. O que me inquieta é a tensão entre discurso e base social. Muitos desses artistas cresceram dialogando com a classe trabalhadora, gente que depende de políticas públicas, de direitos sociais, de acesso à cultura e a serviços básicos. Quando passam a defender agendas que fragilizam esses direitos, a contradição salta aos olhos. Mas será mesmo uma “traição” simples? Ou há algo mais complexo em jogo? Penso que há pelo menos três dimensões que ajudam a ente...

Entre o raio e o sonho: o que “Sonho Elétrico” acendeu em mim no Theatro José de Alencar

  Hoje saí do Theatro José de Alencar com aquela sensação rara de que não assisti apenas a uma peça, fui atravessado por ela. Sonho Elétrico não é um espetáculo que se limita à narrativa de um músico atingido por um raio e lançado ao coma. É uma travessia entre vida e morte, entre memória e imaginação, entre o colapso e a possibilidade. O TJA, com sua arquitetura que mistura ferro, história e delicadeza, parecia o cenário perfeito para essa experiência liminar. Desde o início, senti que não estávamos ali para acompanhar uma história linear, mas para entrar na mente de J. E entrar na mente de alguém à beira da morte é também entrar em nossas próprias zonas de incerteza. Jesuíta Barbosa sustenta J com uma presença que oscila entre fragilidade e intensidade. Há algo profundamente humano em sua interpretação, um corpo suspenso, atravessado por lembranças, sons, fragmentos de existência. Não se trata de dramatizar o coma como evento médico, mas como estado poético. O raio que o ati...

Entre palavras e poder: o que aprendi com Discurso Político, de Patrick Charaudeau

  Ler Discurso Político , de Patrick Charaudeau, foi como ganhar um par de óculos novos para enxergar algo que sempre esteve diante de mim: a política como cena discursiva. Eu já sabia, intuitivamente, que líderes constroem narrativas, que discursos mobilizam emoções, que palavras moldam percepções. Mas o livro me fez compreender com mais rigor que o discurso político não é apenas conteúdo, é estratégia, encenação, contrato simbólico. Charaudeau mostra que o político fala sempre para produzir efeitos. Não se trata apenas de informar, mas de convencer, seduzir, legitimar-se, desqualificar o outro, criar pertencimento. O discurso constrói uma imagem de si (ethos), mobiliza emoções (pathos) e organiza argumentos (logos). Essa tríade, que remonta à retórica clássica, reaparece na análise contemporânea com impressionante atualidade. Enquanto lia, pensei imediatamente no cenário brasileiro   e no global. Vivemos um tempo em que a política se comunica em tempo real, atravessada p...

Entre impérios e abismos: o risco que ronda o nosso tempo

  A cada novo ataque unilateral dos Estados Unidos ao Irã, sem autorização formal do Congresso, sinto um frio político que não é apenas geopolítico, é existencial. Não se trata apenas de mais um episódio em uma longa história de tensões no Oriente Médio. Trata-se da normalização de decisões militares concentradas, da erosão de freios institucionais e da ampliação de uma lógica imperial que insiste em sobreviver no século XXI. Quando escuto declarações de autoridades norte-americanas defendendo a necessidade de “controlar o Sul Global”, percebo que não estamos diante de retórica isolada. Estamos diante de uma mentalidade histórica: a ideia de que certas regiões existem como zonas de influência, como territórios estratégicos a serem organizados segundo interesses externos. Essa visão não é nova. Ela atravessa séculos de colonialismo, intervenções e guerras por recursos. O que me inquieta profundamente é a naturalização dessa linguagem. Falar em “controlar” países soberanos revela...

Quando a música vira memória: uma noite com Tom Jobim no São Luiz

  Hoje saí do Cineteatro São Luiz com a sensação de que a música pode suspender o tempo. Assistir ao musical sobre Tom Jobim não foi apenas acompanhar um espetáculo, foi atravessar uma espécie de memória coletiva, dessas que parecem já morar dentro da gente antes mesmo de acontecer. O São Luiz, com sua arquitetura que mistura beleza e história, já prepara o espírito. Entrar ali é como aceitar um convite para desacelerar. E Tom Jobim pede exatamente isso: escuta, pausa, delicadeza. Em um mundo que corre, a bossa nova insiste em respirar. Desde as primeiras notas senti algo familiar. Não era apenas reconhecimento de canções conhecidas; era a percepção de que a obra de Jobim faz parte da forma como o Brasil aprendeu a sentir. Há uma melancolia suave, uma alegria contida, um olhar para o cotidiano que transforma o simples em poesia. O musical capturou isso com sensibilidade. Fiquei pensando no quanto Tom Jobim compôs atmosferas. Suas músicas não contam apenas histórias, elas cria...

O que não vemos também organiza o mundo: minhas reflexões sobre Sociologia do desconhecimento, de José de Souza Martins

  Ler Sociologia do desconhecimento , de José de Souza Martins, foi para mim uma experiência inquietante. Estamos acostumados a pensar a sociologia como ciência do que é visível, instituições, classes, movimentos, estatísticas. Martins desloca esse eixo. Ele propõe olhar para aquilo que não sabemos, para o que é silenciado, ignorado ou produzido como irrelevante. E essa mudança de foco altera profundamente a forma de compreender a sociedade. O livro me fez perceber que o desconhecimento não é apenas ausência de informação; ele pode ser socialmente construído. Certos grupos, territórios e experiências permanecem invisíveis não por acaso, mas porque há estruturas que organizam o que merece ser visto. O que não aparece também é resultado de relações de poder. Enquanto lia, pensei muito no Brasil que conheço, nas periferias, nas populações rurais, nos povos indígenas, nos trabalhadores informais. Há um país que aparece nas estatísticas e outro que vive nas margens do reconhecimento...

Entre mercados e vidas: o que a economia política global me fez enxergar

  Ler Economia Política Global , de Niels Soendergaard, foi para mim um exercício de deslocamento. Percebi o quanto estamos acostumados a falar de economia como se fosse um campo técnico, distante da experiência cotidiana, quando na verdade ela organiza praticamente tudo: trabalho, alimentação, tecnologia, guerras, migrações, expectativas de futuro. O livro me convidou a olhar para as conexões invisíveis que estruturam o mundo. O que mais me marcou foi a recusa de tratar a economia global como algo neutro. Soendergaard mostra que fluxos financeiros, cadeias produtivas, acordos comerciais e políticas monetárias são também decisões políticas, escolhas que produzem vencedores e perdedores. Essa constatação parece óbvia, mas não é. Muitas vezes naturalizamos desigualdades como se fossem efeitos inevitáveis de um sistema abstrato. Enquanto lia, pensei no Brasil e no lugar ambíguo que ocupamos. Somos integrados à economia global, mas de forma desigual. Exportamos commodities, importa...

Quando o fascismo conversa com o poder: minhas reflexões sobre Os Camisas Negras e a Esquerda Radical, de Michael Parenti

  Ler Michael Parenti nunca é confortável. Em Os Camisas Negras e a Esquerda Radical , senti novamente essa sensação de ter o chão interpretativo deslocado. O livro questiona uma narrativa muito difundida: a ideia de que o fascismo teria sido simplesmente uma irrupção irracional, um desvio histórico isolado. Parenti propõe outra leitura, o fascismo como resposta política e econômica às crises do capitalismo e às ameaças vindas dos movimentos populares. Essa perspectiva me fez pensar o quanto a história costuma ser simplificada para se tornar palatável. Quando o fascismo aparece apenas como loucura coletiva, evitamos discutir interesses, alianças e estruturas. Parenti insiste que o fascismo teve apoio de elites econômicas, que reprimiu violentamente sindicatos e organizações de esquerda e que reorganizou a sociedade para preservar relações de poder. O foco muda: não é apenas ideologia, é função. Enquanto lia, percebi como essa análise ecoa no presente. Em diferentes contextos, v...

Memória, diáspora e pertencimento: o que aprendi com Os libaneses, de Murilo Meihy

  Ler Os libaneses , de Murilo Meihy, foi para mim um encontro com a ideia de que a história não é apenas uma sequência de fatos,   é uma trama de vozes, silêncios e deslocamentos. O livro me atravessou porque fala de migração, mas, sobretudo, fala de pertencimento. E pertencimento é uma questão profundamente psíquica e política. Meihy trabalha com história oral, e isso muda tudo. Não estamos diante de uma narrativa distante; estamos diante de memórias que respiram. Ao acompanhar as trajetórias de famílias libanesas no Brasil, percebo que migrar não é apenas mudar de lugar, é reorganizar identidade, língua, sonhos e perdas. Há sempre algo que fica e algo que nunca chega completamente. Enquanto lia, pensei muito no Brasil como país de diásporas. Italianos, japoneses, sírios-libaneses, africanos trazidos pela violência da escravidão, migrantes internos. Somos um país feito de deslocamentos, mas muitas vezes contamos essa história de forma simplificada, celebrando o empreende...

As incidências do patriarcado: na clínica e na política

  Eu não consigo separar clínica e política quando penso no patriarcado. O que escuto no consultório não nasce ali. Chega já atravessado por séculos de hierarquia, por expectativas de gênero, por silenciamentos que se naturalizaram a ponto de parecerem destino. O sofrimento psíquico muitas vezes é apresentado como algo individual, mas frequentemente é a expressão íntima de uma estrutura social. Quando falo em patriarcado, não me refiro apenas à dominação explícita dos homens sobre as mulheres, embora ela exista e siga brutal. Refiro-me a uma lógica que organiza afetos, poder, trabalho e linguagem. Uma lógica que ensina homens a não sentir, mulheres a suportar e todos nós a confundir amor com controle. Na clínica, isso aparece de formas recorrentes. Mulheres que carregam culpa por estabelecer limites. Homens que vivem angústia por não corresponder ao ideal de força e sucesso. Relações marcadas por dependência emocional, ciúme normalizado, violência simbólica. Muitas vezes, o pat...

Entre luzes, memórias e negócios: o tempo suspenso de Blossoms Shanghai

 Assistir Blossoms Shanghai , de Wong Kar Wai, foi para mim menos uma experiência narrativa e mais uma travessia sensorial. Não senti que estava apenas acompanhando a ascensão de personagens em uma Xangai que desperta para o capitalismo dos anos 1990; senti que estava caminhando por corredores de memória, onde o desejo, o dinheiro e a solidão se confundem. Wong Kar Wai sempre filmou o tempo como quem filma um sentimento. Aqui não é diferente. A cidade pulsa, mas o que me chama atenção é o silêncio entre as pessoas. Restaurantes iluminados, conversas aparentemente triviais, negociações que parecem íntimas, tudo carrega uma tensão que não é econômica, é existencial. Em Blossoms Shanghai , enriquecer não elimina a falta. Apenas a reveste de luxo. Eu me vi pensando em como o capitalismo asiático dos anos 1990, retratado na série, espelha processos que conhecemos no Brasil: a promessa de mobilidade, a sedução do consumo, a crença de que relações podem ser administradas como investimento...

Carta ao Vento de Inverno

  Cai a neve, lenta confidência sobre telhados, sonhos e pecados. O mundo cala a sua turbulência e guarda amores nunca confessados. Há uma chama frágil na distância, um nome que repito sem razão; o tempo veste a fria elegância de quem aprendeu tarde a solidão. Ah, se teus olhos, breve primavera, rompessem o rigor desta estação, talvez meu verso, tímido, ainda soubera acreditar no fogo da paixão. Mas sigo, como seguem os viajantes, entre a memória e o que não voltou; o coração escreve, vacilante, histórias que o destino recusou.

Lembrança ao Entardecer

  Oh tardes mansas da minha infância, que voltam leves como um cantar distante, trazendo o cheiro da terra molhada e a voz do tempo chamando meu nome. Havia um céu maior sobre as árvores, e o mundo cabia na palma das mãos. Eu corria sem medo dos dias, como quem não conhece despedidas. Minha mãe, estrela de passos calmos, costurava silêncio nas horas quentes e eu, menino de sonhos enormes, inventava eternidades no quintal. Hoje caminho entre ruas apressadas, carrego relógios dentro do peito; mas às vezes o vento me toca e devolve um pedaço de mim. Ah, se eu pudesse morar naquele instante onde a esperança era simples e inteira, eu guardaria a luz do primeiro riso numa caixa feita de memória. E quando a noite cair sobre os homens, hei de lembrar, com ternura e saudade, que fui criança, que fui promessa, e que a vida, um dia, foi pura manhã.   Parte inferior do formulário  

A banalização da indiferença

  Eu tenho a sensação de que vivemos um tempo em que a inteligência técnica avança e a sensibilidade recua. Não falo de falta de informação, nunca tivemos tanto acesso ao conhecimento, mas de algo mais profundo: a erosão da capacidade de se afetar pelo outro, de sustentar complexidade, de reconhecer que viver em sociedade exige mais do que opiniões rápidas e certezas barulhentas. Quando chamo esse fenômeno de “imbecilidade humana”, não me refiro a uma incapacidade cognitiva, mas a uma postura existencial. É a recusa em pensar, em duvidar, em escutar. É o sujeito que transforma a vida em slogans, que substitui reflexão por pertencimento e que encontra conforto em explicações simples para problemas complexos. Vejo isso na aversão crescente à cultura, à ciência e à educação, não como rejeição explícita apenas, mas como desvalorização cotidiana. A leitura vira perda de tempo. A universidade vira suspeita. O artista vira supérfluo. O pesquisador vira inimigo. Nesse cenário, o pensam...

Bhagavad Gita: quando a alma entra no campo de batalha; ecos para uma Psicologia Oriental

  Meu primeiro encontro com a Bhagavad Gita não foi religioso. Foi existencial. Eu a li como quem busca compreender um tipo de sofrimento que a Psicologia ocidental nem sempre nomeia bem: o conflito entre agir e duvidar, entre dever e desejo, entre identidade e sentido. A cena é conhecida, Arjuna, no campo de batalha, paralisa. Não por covardia, mas por consciência. Ele vê que qualquer escolha produz perda. Esse momento me parece profundamente psicológico. Antes da ação, há crise. Antes da técnica, há angústia. A Gita começa onde muitas terapias começam: quando a pessoa não consegue mais sustentar o papel que sempre desempenhou.   Uma psicologia do conflito interior O diálogo entre Arjuna e Krishna não é apenas teológico. É uma investigação sobre mente, emoção, apego, identidade, atenção. A pergunta central não é “o que é certo?”, mas como agir sem ser destruído pelo resultado da ação . Essa formulação me impressiona porque desloca o foco da moral para a relação ...