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Mostrando postagens de março, 2026

Esperança ativa: entre o colapso e a escolha de continuar

  Eu não li Esperança Ativa , de Joanna Macy e Chris Johnstone, como quem busca conforto. Li como quem procura fôlego. E talvez seja essa a primeira ruptura que o livro propõe: abandonar a ideia de esperança como consolo passivo, aquela esperança que espera, para assumir uma esperança que age, que se move mesmo quando não há garantias. Vivemos um tempo em que o colapso deixou de ser hipótese distante. A crise climática, o esgotamento psíquico coletivo, a desigualdade brutal e a sensação difusa de que algo está profundamente errado fazem parte do cotidiano. E, nesse cenário, eu me percebo oscilando entre dois polos: o desespero paralisante e o cinismo confortável. Macy e Johnstone entram exatamente nessa fissura. Eles me confrontam com uma pergunta incômoda: o que você faz com o que você sabe? A proposta da “esperança ativa” não é otimista. Isso é fundamental. Não se trata de acreditar que tudo vai dar certo. Trata-se de escolher agir apesar da incerteza . Aqui, o livro rompe ...

Entre o corpo e a história: o que Reich ainda me obriga a pensar

  Confesso que me aproximar de Wilhelm Reich nunca foi um movimento confortável. Há algo em sua obra que provoca, desestabiliza, quase como se ele não aceitasse que a psicologia se refugiasse apenas no discurso, na interpretação ou no simbólico. Reich me obriga a descer para o corpo. E isso muda tudo. Minha formação, atravessada pela psicanálise, sempre me ensinou a escutar o inconsciente nas palavras, nos lapsos, nos sonhos. Mas Reich me faz uma pergunta incômoda: e o corpo, onde entra nisso tudo? Mais ainda: e se o corpo não for apenas um veículo da mente, mas o próprio lugar onde a história psíquica se inscreve? Reich começa como discípulo de Freud, mas rapidamente rompe com ele. E eu entendo esse rompimento menos como uma rejeição e mais como um deslocamento radical. Freud havia identificado a repressão como um mecanismo central da cultura. Reich dá um passo além: ele diz que essa repressão não é apenas psíquica, ela é corporal, social e política. Isso me impacta profundam...

Quando comecei a me esconder de mim mesmo: sobre o nascimento do falso self

  Há algo inquietante quando começo a pensar sobre o falso self: ele não surge como uma escolha consciente, nem como um erro isolado. Ele nasce, muitas vezes, como uma solução. Uma solução precoce, silenciosa, quase invisível, mas profundamente estruturante. E talvez seja isso que mais me atravessa: o falso self não é, em sua origem, um problema. Ele é uma tentativa de sobrevivência. Ao me debruçar sobre Winnicott, percebo que o falso self começa a se formar muito cedo, nos primeiros momentos da vida, quando o bebê ainda não distingue claramente entre o que é “eu” e o que é “mundo”. É nesse tempo primitivo que o ambiente, sobretudo a mãe ou quem exerce essa função, tem um papel decisivo. Quando esse ambiente consegue ser suficientemente bom, ele acolhe os gestos espontâneos do bebê, responde a eles, os reconhece. É nesse reconhecimento que o verdadeiro self começa a emergir. Mas quando isso falha, e não precisa ser uma falha brutal, basta uma inadequação persistente, algo se de...

31 de março: entre a memória e a encruzilhada

  Eu não consigo atravessar o dia 31 de março como se fosse uma data qualquer. Há algo que insiste em retornar, não apenas como lembrança histórica, mas como sintoma social. A memória do golpe de 1964 não está enterrada. Ela respira nas instituições, nas disputas narrativas e, sobretudo, na forma como o Brasil lida, ou se recusa a lidar, com a responsabilidade histórica. Ao ler e refletir sobre o cenário político que se desenha para 2026, sinto que não estamos apenas diante de uma eleição. Estamos diante de uma disputa de projetos de sociedade que carrega, no fundo, uma tensão não resolvida desde a transição da ditadura para a democracia. A chamada “Nova República” nasceu conciliada demais com seus próprios algozes. E isso tem consequências. A sociologia já nos ensinou, de diferentes maneiras, que sociedades que não elaboram seus traumas tendem a repeti-los. Durkheim falava da necessidade de coesão social baseada em valores compartilhados; quando esses valores são corroídos, ou...

Entre a soberania e o palanque: quando o Brasil vira promessa em solo estrangeiro

  Confesso que senti um incômodo difícil de nomear quando li que, em um evento nos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro teria afirmado que, se vencer, os EUA teriam acesso às terras raras e a outros recursos naturais brasileiros. Como se não bastasse, o presidente do PL teria dito que Trump apoia essa eventual candidatura. Não é apenas o conteúdo dessas falas que me inquieta, é o que elas revelam sobre a forma como parte da política brasileira tem lidado com a própria ideia de país. Eu me pergunto: em que momento passamos a tratar a soberania como moeda de negociação eleitoral? Terras raras não são um detalhe técnico. São estratégicas. Estão no centro das disputas geoeconômicas do século XXI, da indústria tecnológica à transição energética. Falar sobre seu acesso, ainda mais em solo estrangeiro e em tom de promessa política, não é trivial. É, no mínimo, um gesto que exige responsabilidade institucional. No máximo, pode configurar uma submissão simbólica que fere a dignidade polític...

Entre o discurso da ordem e a prática do poder: o que não se diz sobre crime organizado e a direita brasileira

  Falar sobre crime organizado no Brasil é, quase sempre, entrar em um território capturado por palavras prontas: “bandido bom é bandido morto”, “tolerância zero”, “guerra ao crime”. Eu cresci ouvindo isso   e, por muito tempo, acreditei que bastava endurecer leis, aumentar penas e dar mais poder às forças repressivas para resolver o problema. Hoje, já não consigo sustentar essa ingenuidade. Porque quanto mais olho de perto, mais percebo que a relação entre crime organizado e setores da direita brasileira não é tão simples quanto o discurso oficial faz parecer. E dizer isso não é fazer acusação genérica ou panfletária é, antes, tentar compreender uma contradição estrutural que atravessa o país. A direita brasileira, em suas múltiplas vertentes, construiu sua identidade recente muito apoiada na promessa de combate à criminalidade. Esse discurso mobiliza medo, e o medo mobiliza votos. Mas o que me inquieta é perceber que, em muitos casos, esse mesmo campo político convive, e...

Canto ao Concreto e à Sombra

  Já não ecoa, altiva, a voz dos rios em sua língua antiga e soberana; cortam-lhes o curso, e em leitos frios jaz a memória verde que se engana. Eu vi, não nos sertões de outrora livres, mas no asfalto quente das cidades, erguerem-se, vorazes e insensíveis, torres de vidro a ocultar verdades. Onde cantava o vento entre as folhas, hoje ressoa o tráfego incessante; e a ave, que outrora em céu se acolha, perde-se em fios, muda e vacilante. Ó pátria minha, de vasto peito, que já nutriste em teu solo fecundo os povos primeiros, em seu direito, hoje és mercado aberto ao mundo. Vejo o Tapajós, de dor tingido, clamar em vão por escuta e cuidado; seu curso, outrora vivo e destemido, é cálculo frio de lucro traçado. E o Norte, que guarda em seu silêncio saberes mais antigos que o aço e a máquina, é ferido em nome do progresso imenso que arranca raízes, consome e massacra. Não há mais guerra de espada e lança, mas trato assinado, decreto e cifrão; o inimigo ava...

Balada ao Espelho Digital

  Senhora Tela, a vós me rendo, que em vossa luz me faço e vendo; se outrora à corte eu me curvava, hoje ao algoritmo me entrego e emendo. Meu verso, antes livre e errante, agora pede um clique constante; se agrado, vivo, se não, me apago, sou súdito dócil do instante. Ó Tempo, que em roldanas gira, mais veloz que antiga lira, roubais-me o ócio e o silêncio com vossa doce mentira. Dizei-me, Espelho tão brilhante: sou eu quem fala ou um semblante? Que rosto é este que cultivo para um público distante? Se amo, registro; se sofro, posto; se penso, resumo em desgosto; que vida é esta, em vitrine exposta, que pede aplauso a qualquer custo? Ah! Quem me dera, em vossa ausência, viver sem tanta transparência, guardar segredos, ter mistério, e errar sem vossa audiência. Mas volto, fiel, como amante, ao toque leve e cintilante; pois mesmo cativo e cansado, sou servo vosso, e constante. Assim concluo, em tom singelo: se outrora eu temia o duelo, hoje temo ...

A coragem de olhar para si

  Há dias em que tudo o que eu mais quero é continuar olhando para fora. Para o mundo, para as crises, para os outros, para as injustiças   e não me entenda mal: elas são reais, urgentes e exigem posicionamento. Mas, se sou honesto comigo mesmo, percebo que, muitas vezes, esse olhar externo também funciona como um álibi. Um modo sofisticado de evitar o encontro mais difícil de todos: comigo. Olhar para si não é um gesto natural. É um ato de coragem. Digo isso porque, ao contrário do que as narrativas contemporâneas de “autoconhecimento” costumam vender, leves, quase instagramáveis, o mergulho em si não é bonito. Ele é, antes de tudo, desorganizador. Quando começo a me observar de verdade, não encontro apenas virtudes escondidas esperando para serem celebradas. Encontro contradições, invejas, ressentimentos, medos antigos que ainda governam escolhas atuais. Encontro aquilo que passei anos tentando não ver. Freud já nos advertia: não somos senhores em nossa própria casa. E t...